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China e Ocidente se enfrentam no “heritage”

Europeus e japoneses tentam responder rápido crescimento no mercado de elétricos dos chineses

Europeus e japoneses apostam no legado histórico
Europeus e japoneses apostam no legado histórico Foto : Reprodução / CP

Num mundo do automóvel dominado cada vez mais pelas montadoras chinesas, o conceito do “Heritage” é cada vez mais importante e essencial às marcas globais que não nasceram na China, que integra o “heritage” ou herança cultural de mais de cinco mil anos de história. Mas são apenas 30 anos de automóvel.

A China decolou nos primeiros carros elétricos que chegaram ao mercado chinês e mundial nos últimos 15 anos. A Byd teve seu primeiro sucesso na China com o sedan e6, lançado em 2009. Mas chegará a 2025 com mais de 5 milhões de veículos produzidos. A China vende hoje mais de 20 milhões de veículos no mundo. Mas europeus, norte-americanos e japoneses, que produzem bem menos, têm currículos mais longos e emblemáticos. São marcas como a Ford, Mercedes-Benz ou Toyota, com décadas de produção contínua e biografias que, ao contrário dos chineses, são marcantes na história do automóvel. Basta lembrar de Henry Ford, Karl Benz, Kiichiro Toyoda. São fundadores de três potências automobilísticas: Ford, Mercedes-Benz e Toyota.

Quem visita a sede da Toyota no Japão se surpreende com os grandes e históricos “teares” da família Toyoda, que nos anos 20 produzia tecidos. Os motores e rodas foram acrescentados à Toyota a partir de 1933. A partir daí, a Toyota escreveu sua história, que é rica e variada.

Os “fundadores” da indústria automobilística da China não são heróis míticos como um Henry Ford. São “heróis” de um tempo recente. Os que criaram a indústria automobilística da China não tinham famílias tradicionais. Na sociedade comunista, onde prevalece o coletivo, direcionado pelos quadros diretivos do partido, não há figuras míticas. Então, aqueles que tinham obtido conhecimento nas universidades de negócios da China e se destacado, aqueles que brilharam em áreas específicas como engenharia, física ou matemática, são os que formaram as marcas automobilísticas da China.

São herdeiros de uma cultura onde o indivíduo deve se integrar a um imenso “todo”, com 1,4 bilhão de seres humanos. O próprio regime comunista sempre rejeitou o culto à personalidade, um culto só admitido para louvar o fundador da China moderna, Mao Zedong, quase uma divindade na China.

Sabemos apenas que o fundador da poderosa Geely é Li Shufu, um bilionário que iniciou a empresa com dinheiro emprestado por sua família de comerciantes. Hoje, Li Shufu é o talentoso dono de marcas mundiais importantes como Volvo, Polestar, Geely Auto, Lotus, Lynk & Co, Zeekr, Proton e Farizon Auto. E Li Shufu, transformado em capitalista, fatura trilhões.

A Geely se associou à Renault e escolheu o Brasil para lançar seus veículos inicialmente. A partir de 2027, os Geely serão fabricados no Brasil. A trajetória de Li Shufu não precisou de heroísmo, como os pilotos italianos que sacrificaram suas vidas em prol da ampliação do mito Ferrari desde os anos 20. As emoções mais fortes do empresário vieram da obsessão por tornar a Geely poderosa e o carro chinês mais avançado em forma e conteúdo em relação ao carro ocidental.

Por diversas vezes, o empresário salientou que “passamos décadas seguindo os ocidentais e seus carros. Agora eles seguirão”. Há um tanto de arrogância nesta declaração, afinal os Geely são melhores e piores do que modelos de uma Tesla, GM, Ford ou Stellantis, já que os chineses não têm o domínio total do mercado global. Mas almejam este domínio.

O histórico da indústria automobilística da China exclui o “heritage” e nem há preocupação com qualquer “herança”. Para os chineses, o passado é sempre o futuro que virá. Para uma Byd, Gwm e outras, as fantásticas vitórias do Ford GT40 em Le Mans não têm a menor importância. Mas foram quatro vitórias do Ford GT40, um bólido de consistência tecnológica impressionante para os anos 60.

A Ford queria vender o Mustang na Europa em 1967, mas não conseguia furar o bloqueio do preconceito em relação a carros da Ford no mercado europeu. Eram considerados carros sem graça, com tecnologia desprezível, que jamais ultrapassariam as poderosas Ferrari, Jaguar, Aston Martin em Le Mans. Mas o GT40 conseguiu, com pilotos de extremo talento como Bruce McLaren e Chris Amon, que pilotaram o GT40 que venceu as 24 Horas de Le Mans em 1967.

Se o Mustang hoje, com avançada tecnologia, prossegue em sua saga vitoriosa pelo mundo, grande parte de sua mística ficou naquelas vitórias inacreditáveis em Le Mans. Em junho de 2024, após 27 anos de afastamento de circuitos europeus, o Mustang voltou a Le Mans. O público aplaudiu a equipe Proton Ford com os pilotos Giorgio Roda, Mikkel Pedersen e Denis Olsen.

Gigante americana cheia de história | Foto: INA FASSBENDER / AFP/CP

No habitáculo tecnológico do Mustang de 2024, as vozes dos fantásticos Amon e McLaren sussurravam orientações para o trio contemporâneo de pilotos. Não, isto não aconteceu; é apenas uma “liberdade poética”. É puro heritage, um preito a um passado glorioso de uma marca competente e destemida.

Os chineses são jovens demais para evocações nostálgicas e emocionais. Os chineses são apenas os pragmáticos campeões mundiais em vendas de veículos eletrificados em muitos mercados mundiais. A Ford, que nasceu num país que sempre prezou a livre iniciativa, infelizmente convive agora com um presidente autoritário que resolveu engatar uma permanente marcha a ré na volta do motor a combustão. É um monumental erro de avaliação sobre o futuro do automóvel.

Ao apostar na gasolina, Trump define um futuro sem vendas para a indústria automobilística norte-americana. No máximo em dez anos ninguém mais comprará veículos a combustão, porque a poluição global não permitirá. Não é uma questão de “heritage” apostar num futuro com motor a combustão. É apenas o suicídio das marcas norte-americanas, justamente as que mais louvam um passado aventureiro, repleto de novidades e vitórias inesquecíveis como da Ford em Le Mans.

Os chineses sabem que quem compra carro elétrico tem a percepção de que são melhores do que modelos a combustão. Esta percepção abre passagem para as marcas chinesas no mundo. E nenhuma publicidade de montadoras chinesas remete ao passado, porque elas nem têm passado. Mas isto importa?

Elétricos da BYD buscam espaço com tecnologia | Foto: AFP/ CP

É necessário exigir “heritage”, a herança de uma marca como Xiaomi, que fabrica celulares com qualidade? A Xiaomi, em três anos, construiu o XU7, um carro esporte que já bateu recordes de velocidade no autódromo de Nürburgring, deixando Porsches no retrovisor. Mas que narrativa a Xiaomi contaria sobre sua vitória em cima de uma tradicional marca alemã que é “puro heritage”?

Afinal, James Dean, o maior mito de Hollywood, morreu na pilotagem de seu Porsche. No inconsciente coletivo deste pesado 2025 cabe tudo, de chineses com rodas que fazem sucesso a fabricantes ocidentais com longas trajetórias, pressionados pelas grandes marcas chinesas que desconhecem a “herança”.

Mas convém lembrar que os belos carros chineses que surpreendem e seduzem são obras de designers ocidentais, de preferência alemães. E nada mais heritage do que a indústria automobilística alemã, que sempre retoma o passado. O novo Golf, recém-lançado, é totalmente “heritage” no design que remete à sua história iniciada em 1974. A Volkswagen, como a Ford, é uma mestra do heritage com notável senso de equilíbrio. Quanto aos chineses, uns 100 anos à frente poderão produzir seus primeiros veículos com “Heritage”.

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