Os efeitos negativos da Guerra entre EUA, Israel e Irã já começam a ser sentidos no pior — ou melhor — lugar para as grandes marcas automobilísticas. O preço das ações da Stellantis caiu 11 por cento na Bolsa de Nova Iorque. É mais um percalço no caminho já tortuoso da Stellantis, que acusou prejuízo revelado no dia 26 de março de mais de 120 bilhões de dólares. É um prejuízo monstruoso que joga nuvens escuras sobre o futuro da corporação italiana na origem. Agora é justamente uma estratégia para sair da crise que revela ser uma "bola nas costas": um gol contra.
A atual produção dos poderosos motores Hemi V8, que passam a equipar a linha Jeep, Chrysler e Ram, se mostra inadequada. Porque são motores que consomem muita gasolina num mundo que pode ter preços abusivos da gasolina em qualquer mercado global. A começar pelo mercado norte-americano, onde o galão com três litros aumentou 25 por cento. O que vai servir de estopim para o aumento da inflação.
Na Europa, também afetada pela guerra, aumenta a demanda pelos veículos híbridos plug-in e puramente elétricos, que podem gerar a economia necessária para a classe média europeia, que está afetada pelo aumento do custo de vida.
Mas a guerra afeta mais a indústria automobilística da China, reconhecida mundialmente pela qualidade de seus carros elétricos, mas também pelo oportunismo nas práticas comerciais sentido no Brasil. As marcas chinesas chegaram ao Brasil se autodefinindo como "montadoras verdes". Mas bastou um refluxo na demanda pelo carro elétrico, iniciado na China por problemas estruturais na economia chinesa, para que as marcas mais conhecidas no mundo como BYD, GWM, SAIC, Chery e Geely, entre outras, passassem a produzir e a exportar mais carros híbridos, como também ampliassem a produção dos carros a combustão, que os chineses exportam. Porque investir de novo na gasolina para consumo na China seria sabotar as estratégias de despoluição do país, que tem no carro elétrico um de seus principais pilares.
Mas para países emergentes o verde chinês já é amarelo gasolina e negro petróleo. A preocupação com o meio ambiente no Brasil é relativa. A recém-chegada Changan, que no Brasil se associou ao Grupo Caoa, lança uma picape de feíssimo design, pasmem, movida a diesel. Mas a Changan chegou sem hipocrisias e meteu logo o pé na porta da pobre ecologia.
No lado racional, lançar uma picape a diesel em meio a uma guerra assentada sobre petróleo é um tremendo erro estratégico da Changan. Em linguagem popular, é burrice.
Na Europa, nesta semana, aumentou a demanda pelo carro elétrico, o que pode beneficiar as montadoras europeias que produziram ótimos carros elétricos, com a Renault à frente. A Renault foi pioneira na eletrificação ao lançar uma linha completa de carros elétricos no Salão do Automóvel de Frankfurt, em 2011. Retomou em 2024 a eletrificação com sua divisão Ampere, responsável pelo desenvolvimento de veículos elétricos e componentes para carros eletrificados. Hoje, na França, dos 10 carros elétricos mais vendidos, os 10 são de produção europeia.
Na falta de petróleo que já aflige a Europa, a retomada do consumo do carro elétrico é um dos raros efeitos positivos da guerra. A equiparação tecnológica entre as marcas europeias e chinesas não é utopia — já acontece na prática. E os níveis de vendas em alta dos carros e SUVs europeus mostram isso.
No Brasil, a Renault deixa ao lado elétrico com sua associada Geely, que, com dois ótimos carros — o EX2 e o EX5 — ficará numa posição privilegiada diante de um consumidor que deve procurar com maior decisão de compra o carro elétrico. A Renault também deve ter sucesso com o Koleos, que é híbrido, de razoável capacidade elétrica, já que roda 75 km no modo elétrico unicamente. Mas o Koleos tem motor a combustão 1.5 com boa cavalaria. A crise do petróleo privilegia as marcas que têm carros híbridos e elétricos disponíveis.
Já nos Estados Unidos da América, a política anti-meio-ambiente de Donald Trump, que estimulou unicamente a produção de carros a combustão e que também obrigou as grandes marcas como Ford e GM — as marcas "raiz" que sintetizam a alma norte-americana e seu pendor para os grandes motores V6 e V8 — teve consequências. As três marcas que cederam à solicitação de Trump para que não produzissem carros elétricos agora amargam prejuízos bilionários.
Já que a maioria dos norte-americanos não quer mais veículos dotados de motores enormes e muito potentes, mas beberrões de gasolina e poluidores. A queda nas vendas das grandes picapes nos Estados Unidos da América é o resultado da mudança geracional no país, que tem mais de 120 milhões de jovens na faixa dos 18 a 30 anos.
São estes jovens que hoje rejeitam maciçamente as guerras promovidas pelos Estados Unidos da América, como rejeitam o velho padrão automobilístico que, por mais de 50 anos, determinou a picape grande como um veículo que é a própria alma norte-americana.
A Ford Motor Company contrariou este comportamento histórico do consumidor e lançou a F150 Superligthin, elétrica. Um ótimo produto antipoluição que foi rejeitado pelo conservadorismo do mercado de picapes nos Estados Unidos da América. A Ford cortou a produção da F150 elétrica, mas mantém a F150 a combustão em produção, que continua líder de mercado.
A F150 é líder de mercado há mais de 40 anos, agora dotada de motor a gasolina ainda mais potente, acima dos 500 hp. Mas as vendas das grandes picapes caem diante de uma possível crise energética que será destrutiva para um país com frota de mais de 290 milhões de veículos movidos a gasolina.
Com o veto de Trump ao carro elétrico, o país perdeu tempo e as montadoras tiveram que desativar a produção de carros elétricos. E Ford, GM e Stellantis perderam bilhões de dólares somente em indenizações para produtores de componentes para veículos elétricos. Nos "write-offs", ou cancelamentos de pedidos para fornecedores, somente a GM perdeu mais de 15 bilhões de dólares.
E a GM tem ótimos carros elétricos como o SUV Equinox, Blazer e Spark. Todos testados por CM do CP, que gostou de itens fundamentais como dirigibilidade, performance e conforto. O interessante é que estes modelos elétricos, que hoje são párias no mercado norte-americano, devem voltar ao sucesso na medida em que o petróleo aumenta de preço conforme o conflito se amplia no Oriente Médio.
Mas algumas realidades são inelutáveis e avassaladoras. Não é somente a indústria automobilística que perde na estupidez da guerra, mas a economia global como um todo. São bilhões perdidos no setor de turismo, mais bilhões perdidos pelas grandes companhias aéreas. Sem citar as perdas humanas e curar as feridas da guerra, que também custam bilhões, como também são um peso social os seres humanos desabilitados, desalojados e finalmente destruídos pelas guerras.
