O pior momento da trajetória da Toyota ocorreu em junho de 2009 e foi transmitido ao vivo nos Estados Unidos, o principal mercado da Toyota no mundo. A transmissão oscilou rapidamente entre o drama e o horror. Ouviam-se os gritos de desespero do motorista e de sua família a bordo do Toyota Camry, que acelerava sem controle numa rodovia. Os intermináveis minutos captados no serviço telefônico emergencial “911” terminaram em completa tragédia, quando o Camry, ainda em aceleração, colidiu de frente com outro veículo e todos a bordo morreram.
Esse episódio trágico foi lembrado pelo CEO da Toyota, Akio Toyoda, quando entregou o cargo para Koji Sato em abril de 2023, numa solenidade em Tóquio, após 14 anos no cargo. Akio Toyoda recordava momentos difíceis de sua governança, que definia como "crise após crise". Ele seguia a cultura da responsabilidade vigente no Japão, que não permite que executivos de montadoras sejam isentados de atos que prejudiquem consumidores e a imagem da marca.
No entanto, até hoje a Toyota não conseguiu explicar a causa das acelerações incontroláveis de veículos da marca, que entre 2008 e 2010 levaram à morte 80 pessoas. A Toyota pagou bilhões em indenizações, sua imagem foi prejudicada, principalmente no mercado norte-americano.
Apesar dos múltiplos erros de avaliação, a Toyota continua como uma espécie de “reserva moral” no cenário da indústria automobilística japonesa, nem sempre honesta. Afinal, a Mitsubishi omitiu graves problemas em seus veículos por décadas e ignorou os recalls. Foi a Justiça japonesa que obrigou a Mitsubishi a se retratar publicamente. Em contraste, a Toyota manteve uma imagem mais ética e sólida globalmente, produzindo mais de 11 milhões de veículos a cada ano. Sua sólida imagem é sustentada por veículos confiáveis e seguros, como o mítico Corolla, com mais de 60 milhões de unidades comercializadas desde seu lançamento em 1976.
Koji Sato, um engenheiro de 54 anos, é o novo CEO da Toyota. Ele tem a missão de renovar e manter o interesse global pela marca em um momento de extrema competitividade, onde a progressividade e ambição sem limites das montadoras chinesas pressionam a Toyota. Na sexta-feira, em reunião em Tóquio, Koji Sato anunciou que a Toyota iniciará a construção de uma unidade industrial para a produção de baterias para veículos elétricos na ilha de Kyushu, a mais setentrional das quatro ilhas que compõem o Japão. Kyushu, segundo Sato, possui uma grande estrutura voltada para a indústria automobilística, com produtores de chips, componentes mecânicos e eletrônicos que abastecem a indústria automobilística do Japão e do mundo.
Kyushu é conhecida como o Vale do Silício do Japão devido ao grande número de engenheiros e cientistas que buscam soluções inovadoras para uma nova geração de veículos, a maioria elétricos e híbridos. A poderosa TSMC, ou Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, também está construindo uma unidade industrial em Kyushu, que recebeu investimento bilionário da Toyota. A nova fábrica de baterias está localizada a 40 quilômetros da unidade industrial de Miyata, que produz 430 mil Lexus anualmente. Noventa por cento dos Lexus são exportados para mercados asiáticos e globais.
A Toyota reduziu a produção para mercados asiáticos e os chineses invadiram mercados que eram da Toyota. A unidade industrial para baterias amplia a grande infraestrutura para eletrificação na ilha de Kyushu, que servirá a uma Toyota eletrificada, que pretende vender 3,5 milhões de carros elétricos até 2030. A luxuosa Lexus será o pilar dessa estratégia elétrica. Koji Sato anunciou um investimento de 32 bilhões de dólares até 2030 para a produção de carros elétricos e baterias. Em relação à futura produção de baterias em Kyushu, a presença na ilha de outras corporações que dominam a tecnologia dos semicondutores, radares e sofisticados sensores de imagem da Sony, que são os “olhos” da direção autônoma, são fatores tecnológicos decisivos. A Toyota sabe que os híbridos a gasolina têm prazo de validade que acabará antes do futuro elétrico, hidrogênio verde, eólico ou etanol. Menos petróleo.
