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Conversa de carro: a saga temerária dos Porsches

Abuso atrás do volante dos superesportivos gerou acidentes graves

Porsche de influenciador protagonizou mais recente sinistro com veículo
Porsche de influenciador protagonizou mais recente sinistro com veículo Foto : Reprodução CP

Um motorista comum, sem nenhum treinamento específico, numa rua de grande cidade. Sob seu domínio, um poderoso Porsche Turbo 911 com 771 hps e 80 kgfm de torque, superior ao torque de caminhão pesado que pode transportar 60 toneladas. Mas o 911 é projetado para transportar 2 passageiros. O 0 a 100 em 2,4 segundos lança um ponto de interrogação sobre a adaptação do 911 a motoristas comuns. Porque os números de performance ficariam mais à vontade na mente de um piloto profissional, com farto equilíbrio emocional e experiência também farta em lidar com carros de extrema potência.

Afinal, tudo é maximizado no 911. Como esta grande potência. As reações ultrarrápidas e exigentes do 911 são moeda comum aos modelos da Porsche, que vivem cercados da aura da performance superior. A Porsche vende para uma elite econômica.

Mas isto não significa que proprietários de Porsche sejam diferenciados psicologicamente ou na maturidade. A performance extrema que coloca os Porsches à frente dos demais veículos que estão nas ruas e estradas é mal utilizada no Brasil, onde graves acidentes com Porsches se repetem com frequência indesejada.

E são acidentes, em geral, filmados e fotografados. São assustadores e trágicos.

Do motorista do Porsche 911 que, a 170 por hora, "atropelou" a traseira de um popular e despretensioso Sandero. Com resultado trágico na morte instantânea do motorista do Sandero, que trabalhava em aplicativo. Tinha 52 anos e deixou filhos adolescentes órfãos. E a família sem provedor.

Ao volante do tremendamente potente Porsche, jovem rico, um "filhinho de mamãe" que ganhara da mãe este bólido. Um ser imaturo que tinha nas mãos um Porsche que só admite maturidade e bom senso. As imagens mostraram o Porsche em altíssima velocidade na avenida, em busca de uma potencial vítima. Então colheu o Sandero pela traseira, o destruiu e destruiu o motorista.

Logo depois, mais uma tragédia na condução enlouquecida de um Porsche Carrera. Outra máquina feroz que exige a máxima cautela na condução. Exige cabeça fria e aceleração contida. Não foi isto que aconteceu. As emoções incontroláveis do motorista do Porsche prevaleceram.

Houve um incidente banal, com culpa inicial do motociclista, que foi "fechado pelo Porsche". O motorista e o motociclista discutiram por breve tempo. Então o motorista assinou sua sentença de morte ao desferir um pontapé no retrovisor do Porsche. Foi o suficiente para deflagrar uma perseguição homicida, quando prevaleceu a maior potência do Porsche. Na sequência final, o Porsche derrapa e esmaga o motociclista num poste. A cena não caberia nem em filme de terror.

Um ano depois, o motorista do Porsche, um empresário tresloucado, espera por um julgamento improvável em liberdade.

E no sábado, 6 de junho, mais cenas emocionantes e potencialmente mortais no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Aliás, por que tantos acidentes em São Paulo? Porque a maior quantidade de Porsches se concentra em São Paulo, uma cidade de riqueza desigual, com áreas tremendamente ricas povoadas por Porsches, Lamborghinis e outros carros da elite paulistana.

Estão nas telas dos iPhones ascensões dramáticas. Um 911, sempre ele, passa em alta velocidade em avenida no bairro do Ipiranga, muito povoado. Estranho. O 911 corre de lado como uma aranha muito veloz. É lógico: o Porsche segue desgovernado e o motorista não o leva; é levado pelo 911.

O que acontece é o óbvio com o 911 sem motorista, que colide contra motociclistas, bate em dois carros, acerta o muro e, semidestruído, para. O motorista sai do habitáculo ileso e chama atenção porque é uma montanha de músculos.

É Fábio Giga, um alterofilista famoso, todo fashion, dono de academias. Presumivelmente um cara rico. E super "bombado". Isto é detalhe. A essência é de motorista agressivo, imaturo e com narcisismo suficiente para torná-lo o "rei da rua". O bombado que deve ser admirado também pela potência de seu Porsche.

Há dois motociclistas hospitalizados e a revenda da Porsche se apressou em emitir nota à imprensa, onde é salientado que os motociclistas estão bem. Bem mal, salienta a imprensa decente.

Aliás, as declarações de dirigentes da revenda em São Paulo reprisam a atitude da Porsche, que se mostra indiferente ao destino trágico da marca no Brasil. Uma situação que já afeta a imagem da Porsche não somente no Brasil, mas também na Europa. Onde a Porsche já enfrentou sérios problemas com ONGs que criticam ainda hoje o design dos Porsches, que, segundo engenheiros e projetistas, tem problemas estruturais que geram, por exemplo, a explosão do tanque de combustível. A Porsche nunca se manifestou sobre este problema.

O "piloto bombado e imaturo" declarou para a imprensa que perdeu o controle do 911 por causa de "irregularidade" do terreno. Pode ser, mas é muito difícil perder o controle em velocidade urbana segura. Nada além de 80 quilômetros por hora.

Estima-se que o 911 do bombado, ao que parece com pouco cérebro, vinha acima dos 130 quando houve a perda de controle.

Aliás, perda de controle num Porsche Carrera em avenida de Los Angeles foi o que matou Paul Walker, o astro de Velozes e Furiosos.

E carros ultraesportivos, com pneus de perfil muito baixo, como o do 911, com aro 20 na frente e aro 21 na traseira, e suspensões de curso reduzido, são componentes para uma performance agressiva, mas que exige sobretudo pavimentos perfeitos, já que buracos e depressões do terreno podem gerar movimento brusco ascendente da carroceria que desestabiliza o veículo. E recuperar o controle de um carro esporte que vai a 150 será tarefa para um Lewis Hamilton. Não para o narcisista marombado com excesso de confiança.

Nesta relação de motoristas comuns com carros de alta potência, o que deve prevalecer é a contenção emocional e o conhecimento aprofundado das reações do veículo.

Nas autobahns da Alemanha, os Porsches, marca amada na Alemanha, passam a 300 por hora. É comum isto. Mas convém lembrar que 90 por cento dos proprietários dos Porsches passaram pelos treinamentos exigentes realizados no Automóvel Clube da Alemanha, que oferece cursos especializados para proprietários de supercarros.

A Alemanha conhece o potencial destrutivo destes carros, que exigem uma pilotagem técnica e precisa. Qualquer proprietário de Porsche ou outro carro de alta performance pode participar de cursos de direção segura, avançada, ou formação para ser piloto de competição. Quem passou pelo mítico ADAC sabe que se tornou melhor motorista, mais seguro e consciente.

O bombado deste último acidente comprou seu flagrante 911 e recebeu um tchau. Até logo. Bye.

Foi jogado nas ruas com um leão na coleira. Num sábado qualquer, finalmente o leão se soltou e destruiu o que estava próximo.

E a Porsche também se manifestou e disse que a responsabilidade é do motorista.

Para uma marca que coloca nas mãos de neófitos carros com mais de 800 hps, afirmar que a responsabilidade é somente do motorista é ignorar os fatores estruturais e psíquicos que cercam um supercarro.