Prejuízo recorde em 2025, manifesto contrário ao fabricante exposto na mídia pelos revendedores da marca e atitudes emergenciais que visaram preservar um ícone norte-americano, a Jeep, que vai mal em seu principal mercado, o norte-americano. A imprensa especializada nos Estados Unidos da América não acredita em youtubers neófitos e incultos, mas acredita em Alex Sterling. O veterano jornalista que está à frente de uma consultoria especializada em indústria automobilística e tem total credibilidade junto ao público. É completa e brilhante a análise de Alex Sterling sobre a queda em vendas da marca Jeep, que, mais do que Ford e General Motors, é a marca “raiz” nos EUA. Aquela que insere em seus veículos as qualidades que os norte-americanos admiram: uma certa “rudeza” e masculinidade no caráter dos modelos da Jeep. A grande capacidade no “fora de estrada”, longevidade e, por que não, doses fartas de charme nos habitáculos, que também atraem o público feminino.
Segundo o analista, o caráter excessivamente “europeu” do Stellantis, o conglomerado de marcas gerido pela competência francesa e italiana e, em grau menor, pela sensibilidade norte-americana. Para o analista, foi principalmente a contratação do português Carlos Tavares, educado na França, que distanciou a Jeep da “alma” norte-americana. E Carlos Tavares não via a Jeep como a marca icônica a ser preservada, mas a marca que devia cobrar muito por seus produtos sem a contrapartida da qualidade percebida. Em 2024, Carlos Tavares recebia bonificação milionária justamente pelas vendas em alta da Jeep.
O sucesso da Jeep e, logo após, da Ram, a divisão de picapes da Chrysler, transformada em marca com vida própria pelo Stellantis, gerou em 2024 um início de “mitificação” de Carlos Tavares, que passou a ser visto na pilotagem de carros velozes nos autódromos da Europa. Nas frequentes entrevistas, o homem destituído de qualquer charme falava em lucratividade e corte de custos, mas raramente citava inovações tecnológicas a serem inseridas na Jeep e Ram. E Tavares também não era um entusiasta da eletrificação, algo distante para ele. Carlos Tavares comandou a Peugeot e Citroën no PSA de 2014 a 2021. Quando o PSA se juntou à Fiat e Chrysler e se transformou no poderoso Stellantis, Carlos Tavares, já mitificado pelo sucesso da Peugeot e Citroën, foi contratado como CEO do Stellantis. A sede do grupo na Holanda ajudou a criar esta imagem consolidada da “empresa global”, mas repleta de italianos e franceses que hoje comandam os destinos do grupo e suas 14 marcas.
Alex Sterling, em sua contundente análise, cita que o principal erro que gerou os problemas que a Jeep enfrenta hoje em seu maior e mais lucrativo mercado foi justamente esta visão “europeia” sobre a marca. A negligência do português Tavares, criado na França que ele adora, pela origem norte-americana da marca Jeep. Segundo Sterling, a filosofia de trabalho de Carlos Tavares, aceita sem questionamentos pela diretoria operacional da Jeep, era simplesmente aumentar a produção numa escala global, aumentar os preços dos Jeep no mundo, não se importando com o sentimento do consumidor norte-americano em relação à Jeep. O amor à marca, forjado em gerações de norte-americanos desde 1941, quando os bravos Jeep enfrentavam os bandidos nazistas nos campos de batalha da Europa.
Mas 90% da lucratividade global da Jeep até hoje vem justamente da rede de revendedores nos Estados Unidos da América. Em 2023 já surgiam reclamações dos consumidores norte-americanos sobre o aumento radical de preços dos Jeep. Eram críticas expostas na mídia que referiam a falhas em sistemas eletrônicos e mecânicos dos modelos. Também as picapes Ram recebiam críticas negativas. Os consumidores sentiam que havia algo errado na condução da Jeep, sinais temerários que, segundo o autor, foram ignorados por Carlos Tavares, que acreditava que a mítica Jeep e a dedicação dos consumidores à marca nos Estados Unidos da América eram fortes e indestrutíveis.
O culpado não era o “mordomo”, mas a “cabeça” pensante do Stellantis, o português Carlos Tavares. E Tavares pensava realmente que os clientes da Jeep nos Estados Unidos da América e no mundo pagariam qualquer preço para terem as “sete aberturas” (slots) na grade dianteira. No entanto, gradativamente, esta lealdade que parecia não ter fim foi enfraquecida por produtos caros demais, mesmo para o alto padrão de consumo dos norte-americanos. Os preços dos Jeep e das picapes Ram ficaram elevados para qualquer padrão de consumo no mundo.
Os erros se sucediam e Carlos Tavares dispensou executivos norte-americanos da Jeep, de alto nível, com conhecimento profundo da marca. Norte-americanos com longa vivência na Jeep, que conheciam a “alma” da marca, voltada à qualidade construtiva, foram dispensados e substituídos por profissionais que aceitavam salários menores. Sem meias palavras, foi a ganância no lucro acima de tudo, junto à obsessão de Carlos Tavares por cortar custos — uma atitude que o notabilizou desde os tempos da Peugeot e Citroën — que gerou danos estruturais na Jeep. O analista conta que os engenheiros mais qualificados foram trocados por engenheiros inexperientes, com menor qualidade técnica, vindos de países como a Índia e Marrocos, que, nos Estados Unidos da América, contribuíram para a queda de qualidade da Jeep e da Ram.
Em 2026, o Stellantis tem como CEO global o italiano Antonio Filosa, que comandou as operações no Brasil e América Latina a partir de 2022. Filosa, considerado um profissional com grande conhecimento técnico, além de ser um especialista em finanças, está à frente do Stellantis justamente para sanar os problemas do grupo em seu principal mercado global, após bilhões de dólares de prejuízo nas operações norte-americanas em 2025.
Para a imprensa norte-americana, a missão de Antonio Filosa é de extrema dificuldade diante da queda radical em vendas da Jeep e Ram. Enquanto os consumidores rejeitam a Jeep, a Ford curte o grande sucesso do Bronco, rival de Renegade e Compass. O Bronco é rude e parece disposto a enfrentar qualquer caminho, e já faz sucesso no mercado brasileiro. Nos EUA, a Jeep tem que voltar ao mítico rio Rubicon, cheio de pedras maldosas, e, de novo, sair intacta de lá. Só Carlos Tavares, tantas vezes, quebrou no Rubicon.
