A tarifa de importação de 25% imposta sobre o México, que sofreu interrupção por 30 dias, atingiria com intensidade a indústria automobilística instalada no México, criada para ser uma ampla fonte de exportação para o mercado norte-americano. O México tem a "sina" de ser vizinho da maior economia do mundo e do poder bélico que vigia o planeta e determina comportamentos nem sempre acertados na geopolítica. Graças à força bélica cedida por Biden, Israel praticamente exterminou os palestinos na Faixa de Gaza.
Este mesmo poder global induz a que Donald Trump seja uma espécie de "xerife planetário", que determina regras de conduta pessoal e molda, à sua imagem concentradora, a benéfica realidade do "Livre Comércio", estimulando o livre fluxo de capital, tecnologia e recursos humanos diversificados para gerar um mundo de economias fortes.
Mas Donald Trump quer de volta o mundo do "pós-guerra", receptivo somente aos produtos norte-americanos. Hoje, o consumidor global não quer carro norte-americano, trocado pelo "carro chinês": elétrico, prático e confiável. As montadoras Ford, GM e Stellantis, proprietária da Chrysler e Jeep, têm uma ampla reserva de mercado nos Estados Unidos da América, desde que pratiquem preços competitivos – o que não acontecerá se for confirmada, em 30 dias, a tarifa de 25%.
Não é somente uma questão de impor tarifas, mas mudar a realidade da multilateralidade não será tarefa fácil e pode ser uma "missão impossível" se Donald Trump rejeitar o diálogo e optar somente pelo autoritarismo. A pressão econômica sobre o México e o Canadá está sendo exercida através de tarifas. O México tem hoje mais de 40 fábricas de veículos que produzem 450 modelos para o consumidor norte-americano. Têm fábricas no México: Toyota, Lexus, Ford, Kia, Mercedes-Benz, BMW, entre outras marcas. O mercado norte-americano, segundo maior do mundo, consome 80% da produção automobilística mexicana.
As montadoras norte-americanas se instalaram no México a partir de 2006 e visavam à redução do custo de produção com a utilização da mão de obra mexicana, bem mais "barata" em relação à "cara" mão de obra norte-americana. As montadoras sabiam da excelência do ensino técnico no México, que "exporta" trabalhadores qualificados para a indústria automobilística norte-americana, assim como para montadoras europeias e japonesas que também se instalaram no México.
Em 2025, o índice de participação das montadoras mexicanas nos veículos direcionados ao mercado norte-americano é enorme. A porcentagem de peças e componentes produzidos no México e utilizados nos veículos comercializados no mercado norte-americano é "substancial". O novo Audi Q8 E-tron tem 80% de seus componentes produzidos no México e somente 20% nos Estados Unidos da América. Outros exemplos: Cadillac CTS, com 15% dos componentes produzidos em Detroit e 65% no México; Ford Bronco, com 100% dos componentes produzidos no México e 20% nos Estados Unidos.
Nesta semana, importantes consultorias da indústria automobilística alertaram para o fato de que o consumidor norte-americano pagaria até dez mil dólares a mais por veículo caso a tarifa abusiva seja confirmada em 30 dias. Esses 25% poderiam gerar desemprego na indústria automobilística norte-americana devido à queda de produção e esperada retração do consumo.
Nos números de exportação da indústria automobilística instalada no México, fica evidente a importância e o "peso" dessa indústria em relação ao mercado de consumo nos Estados Unidos da América. Em 2024, a General Motors Corporation exportou 711.582 unidades; a Ford, 360 mil unidades; a Stellantis, 320 mil unidades; a Volkswagen, 232 mil unidades; a Toyota, 212 mil unidades, entre outras marcas. São números que mostram um cenário sadio de alta produção e consumo.
Nesta semana, veículos "conscientes", como The Guardian, The Economist, USA Today e The New York Times, alertaram que tarifas em geral são contraproducentes para a economia global, devido à interdependência entre países. No entanto, a intolerância de Trump, que visava punir com 25% a presidente Claudia Sheinbaum, teve uma pausa numa conversa telefônica que Trump definiu como "muito agradável". Por alguns minutos, Trump "baixou a guarda" e a charmosa Claudia conseguiu o que queria: a preservação de sua indústria automobilística. Diz o ditado popular que o "feitiço vira contra o feiticeiro". Suficientemente avisado do erro cometido, Donald Trump recuou e "guardou o feitiço". Mas quem será o próximo? O Brasil?
