Correio do Carro é edição especial e semanal no blog de Carros e Motos, que visa que os leitores tenham um maior entendimento sobre produtos e estratégias da indústria automobilística através de análises dos temas que cercam o automóvel. O “Correio do Carro” inicia com a análise do Salão do Automóvel de São Paulo, recém-encerrado.
UM SALÃO FESTIVO E CHINÊS
O Salão recebeu ampla cobertura na mídia virtual e foi realizado no mesmo Parque de Exposições do Anhembi que, em 1970, ano de inauguração do complexo e eventos, sediava o primeiro Salão do Automóvel do Brasil. Em 1970 a indústria automobilística brasileira mostrava suas “estrelas” no Salão com o Fusca, Opala, Corcel, Brasília e Fiat 147, além dos sofisticados Dodge Charger RT e Ford Maverick. Belos e poderosos sedãs esportivos de uma época de produção local incipiente, mas decidida. As edições do Salão de 2016 e 2018 foram realizadas no São Paulo Expo. Nesta edição de 2025, depois de um “hiato” de sete anos, a área de exposições do Anhembi foi reduzida, mas o número de expositores cresceu devido à presença maciça da indústria automobilística chinesa. Foi sentida a ausência das poderosas e tradicionais GM e Volkswagen, associadas ao processo de “motorização” dos brasileiros. A Ford também não participou, assim como Mercedes-Benz, Audi, Jaguar Land Rover e BMW. Sem dúvida, foram ausências sentidas pelo público acostumado à presença forte destas marcas no mercado brasileiro. Somente a Stellantis participou e anunciou novidades para o Brasil, como o Jeep Avenger, que parece ser um “mini Renegade”. A Ford saiu do Brasil, mas ainda tem presença forte com a picape Ranger produzida na Argentina e sucesso de vendas no mercado brasileiro. As montadoras ausentes não deram explicações sobre as razões de não participarem do Salão. Sabe-se que a presença maciça de marcas chinesas no mercado brasileiro, via importação, incomoda a Anfavea, que teme que a produção seja afetada caso persista o volume grandioso de importações.
O espaço físico reduzido do Salão do Automóvel definiu um cenário mais para “Parque de Diversões na China” do que para um futuro seguro para a indústria automobilística localizada no Brasil, que se encontra no meio do ciclo de investimentos de 142 bilhões de reais do programa Mover, a tentativa de tornar a indústria automobilística instalada no Brasil eletrificada e competitiva num plano global. O Salão mostrou o inverso: a notável evolução elétrica das marcas chinesas, que receberam trilhões de dólares do governo comunista em subsídios para que dominassem o mundo. Um domínio pra lá de evidente no Salão de São Paulo. Mas ficou uma pergunta no ar: será que o próximo Salão de São Paulo será realizado na China? É possível.
O futuro das marcas chinesas que se multiplicam no mercado brasileiro: por que o Geely EX2 superou em novembro o sucesso do Mini Dolphin? A Geely, que produz EX5 e EX2 comercializados no Brasil, está eufórica com o sucesso dos modelos recém-lançados, assim como festeja a recente parceria com a Renault do Brasil. Fiquem com o Correio do Carro e boa leitura. Ler é necessário e sempre será. (Renato Rossi)
A CHINA VENCE
O Salão de São Paulo pareceu um “anexo” do poderoso Salão de Changai, o maior do mundo. As marcas chinesas foram majoritárias em São Paulo e, como aconteceu no Salão de Changai, propiciaram exuberante show de tecnologia e forma inusitada dedicada a cativar consumidores ao redor do mundo. Mais fácil conquistar a classe média brasileira num Salão repleto da forma exuberante dos novos veículos, que parecem abrir a porta dos sonhos de consumo — difícil de serem alcançados num mercado ainda de limitado poder aquisitivo. A classe média teve ali, no Salão, carros chineses realmente sedutores. Lá fora, seria acossada pelo trânsito opressor e por milhões de Mobi e Kwid, ainda a realidade próxima do consumidor brasileiro: o carro de “entrada” direcionado ao orçamento limitado. Neste Salão, os chineses mostraram que querem também o mercado caro dos carros com alto nível de sofisticação, que não custam menos de R$ 400 mil. E reprisaram os que já fazem sucesso no Brasil, como o GWM Haval, a linha Song da BYD e os recém-chegados Omoda e Jaecoo, que surpreendem em forma e conteúdo — e vendem cada vez mais. O “ticket médio” do carro chinês com maior qualidade não fica abaixo de R$ 250 mil.
Mas os preços dos veículos chineses tendem a aumentar na medida em que BYD e GWM, com grandes fábricas no Brasil em vias de se tornarem operacionais, enfrentarão a partir de 2028 o chamado “Custo Brasil”: a pesada carga tributária que incide em todas as fases da produção. Pode ser que um grande volume de produção no Brasil reduza o custo final dos veículos chineses. O Salão de São Paulo foi apenas a “Ilha da Fantasia” que seduziu por duas semanas. Há uma certeza pós-Salão: a qualidade a longo prazo, a ser comprovada nas duras condições de uso no Brasil. Se os bons e belos virarem incertezas nas mãos dos consumidores, se as baterias não durarem o prometido, se o pós-vendas não for convincente, então o Salão de São Paulo será apenas o pavão que mostrou a bela cauda, seduziu, mas não durou. Resta saber se a próxima edição do Salão, em 2027, terá um domínio ainda maior das marcas chinesas ou se estas recuarão no mundo dadas as circunstâncias adversas aos chineses, como a eliminação dos subsídios à produção e exportação, uma possível reação da indústria automobilística ocidental e a já citada qualidade a longo prazo.
Geely EX2 com “pinta de campeão”
A Geely entrou no Brasil da melhor forma possível, com dois ótimos produtos, os “compactos” EX5 e EX2, testados pela editoria de Carros e Motos do Correio do Povo. A qualidade de ambos foi logo notada nos test-drives realizados em São Paulo. Quem já conhecia a Geely através da linha XC de SUVs elétricos e híbridos da Volvo não se surpreendeu com a ótima dirigibilidade dos EX. Os SUVs elétricos da Volvo, principalmente o XC40 Recharge, têm ótima dirigibilidade. Os EX repetem um padrão seguro de comportamento dinâmico explícito nos veículos da Volvo, além da ergonomia interna otimizada, e os Geely EX são carros com excelente design. A Geely não “força a barra” no design como faz a BYD no Mini Dolphin, que parece à procura de seu inspirador, o “Batmóvel”. O Mini Dolphin tem aparência agressiva que cobra seu preço num grau elevado de “claustrofobia” no habitáculo. Quem é fã do Batman deve adorar; os que se sentem incomodados pelo excessivo fechamento devem aproveitar a segura dirigibilidade do Mini Dolphin.
Mas cada montadora tem seu “estilo” de design, e BYD e Geely são diametralmente opostas na forma. O EX2 tem design de linhas suaves e descontraídas, e a área envidraçada maior do EX2 gera maior contato visual do motorista com o entorno, com visão ampliada pelo uso da câmera 360 graus. A dirigibilidade precisa, ágil e assertiva do EX2 facilita o uso urbano. Mas as suspensões são suscetíveis ao “rolling”, ou rolagem lateral, em curvas em velocidade elevada. Nada que intimide o motorista — apenas o limite de aderência um pouco mais “abaixo” em relação ao EX5, que é bem mais potente. O EX2, que será produzido no Brasil, teve 835 unidades comercializadas em novembro, enquanto o Mini Dolphin teve 800. Vitória da Geely.
VOLKSWAGEN TEM TRADIÇÃO EM SEGURANÇA
A Volkswagen tem uma longa tradição em segurança veicular, expressa no grande número de veículos ganhadores de 5 estrelas nos testes do Euro NCAP por décadas. O último a ser premiado foi o elétrico ID Buzz, que é uma versão futurista da Kombi e foi testado pela editoria de CM do CP em 2014. É um veículo essencialmente familiar, e ter ganho as “cinco estrelas” ampliou o nível de vendas do ID Buzz na Alemanha e Europa. Mas há outros modelos “históricos” com trajetórias campeãs em segurança. O Golf lançado em 1974 ganhou pela primeira vez as cinco estrelas em 2019. A última versão do Golf 8, testada em outubro de 2025, também ganhou 5 estrelas. Mas os técnicos e engenheiros que participaram e analisaram os resultados dos testes de impacto afirmaram que o “Golf é provavelmente o carro mais seguro do mundo”.
O que não surpreende, na medida em que a Volkswagen gasta bilhões de dólares a cada ano na decisão de que os veículos da marca tenham padrões de segurança excepcionais. Nesta semana, a Volkswagen divulga que o SUV Taos apresenta um índice de segurança de 91% para ocupantes adultos, 90% para crianças, 68% para pedestres e 92% para assistência à segurança — relatório dos especialistas em segurança do Latin NCAP. “A proteção à cabeça e pescoço do motorista em choque frontal a 64 quilômetros horários preservaria a vida dos ocupantes”, embora os engenheiros de testes salientem que “as forças gravitacionais que agem em colisões reais são poderosas e imprevisíveis. Um veículo como o Taos é ‘seguro e vida’.
Mas o único caminho totalmente seguro é não colidir.” A plataforma e a estrutura da carroceria do Taos foram consideradas seguras e não sofreram deformações excessivas nos testes de impacto. No impacto lateral, responsável pelo alto grau de mortes em acidentes urbanos e rodoviários, a pelve, abdômen e cabeça foram preservados de danos maiores. No impacto lateral contra um “polo metálico”, que em geral é o “famigerado” poste que mata demais nas cidades e estradas do Brasil, novamente a sólida estrutura lateral protegeu a cabeça e o abdômen. O Taos é equipado com seis airbags, controle de velocidade adaptativo, alerta de ponto cego, assistência de permanência em faixa e frenagem automática de emergência, entre outros sistemas eletrônicos que visam à segurança ativa e passiva.
O Taos passou recentemente por reformulação estética que o deixou mais esportivo e atraente. Tem 4,46 metros de comprimento, 1,84 m de largura, 1,62 m de altura e 2,68 m de entre-eixos. Atraente, com ótima dirigibilidade já testada por CM do CP, o Taos é muito seguro. O que vale mais para você e sua família?
