Carros & Motos

Correio do Carro: quem ganhou e quem perdeu na indústria em 2025

Marcas orientais e ocidentais disputam espaço entre a combustão, o híbrido e o elétrico

Mercados ainda avaliam caminhos no Brasil e mundo
Mercados ainda avaliam caminhos no Brasil e mundo Foto : Arte / CP

Uma visão bem-humorada sobre o mundo do automóvel em 2025. Quem ganhou e quem perdeu. Os que vacilaram e os que foram mais ágeis em um mercado de alta complexidade. Este é o tema desta edição do Correio do Carro.

BYD à frente

Qual o segredo da vitória global da chinesa BYD, que busca oportunidades pelo mundo?

Sem dúvida, na eletrificação, a marca é a mais verticalizada do planeta. Produz do parafuso aos chips inovadores. A BYD adota práticas tecnológicas e mercadológicas que a colocaram à frente em 2025.

Pelo caminho, encontrou matérias jornalísticas negativas na imprensa do Primeiro Mundo, sobretudo sobre uma suposta dívida de 30 bilhões de dólares com fornecedores chineses e asiáticos e com o governo da China. A BYD não explicou, seguiu em frente e fechou o ano com recordes de vendas.

Todos amam o Mini Dolphin

O carrinho de design exótico, que parece ter o DNA do Batmóvel, é um grande sucesso de vendas na China e no Brasil. Mini carro com sólida dirigibilidade, o Mini Dolphin apostou no exotismo de um design “fechado”, meio claustrofóbico, mas que parece proteger os ocupantes das maldades do trânsito das grandes cidades.

Com autonomia de cerca de 300 km, o Mini é o queridinho: rápido, preciso e perfeito para o uso urbano. Foi um dos “queridões” de 2025, e nada indica que será diferente em 2026.

Geely chegou e venceu

A Geely mal chegou ao Brasil e já disponibilizou dois modelos ao mercado: os bons EX5 e EX2. Ambos comprovam que a Geely é uma das grandes marcas chinesas, com elevado nível de qualidade dinâmica.

É prazeroso dirigir os EX5 e EX2 no trânsito urbano. A plataforma elétrica de última geração oferece dirigibilidade precisa e gera confiança imediata. O EX5, maior, tem performance superior. O design equilibra-se entre o hatchback clássico e toques de futurismo, com resultado atraente.

O EX5 encerra o ano como campeão de vendas, ofuscando o sucesso do Mini Dolphin, que deverá reagir. Talvez a BYD ofereça uma réplica robótica do Batman para quem comprar um Mini Dolphin. Com o Batman ao lado, fica mais fácil enfrentar o trânsito brasileiro.

O inseguro JAC e-JS1 voltou

O JAC e-JS1 voltou ao Brasil em 2025 após um período de afastamento. Trata-se daquele SUV muito pequeno, de preço acessível, que vendeu bem no país. Seu relativo sucesso demonstrou que o brasileiro ainda opta pelo “barato” quando deveria optar pelo “seguro”.

Testado pelo Latin NCAP em 2022, o JAC recebeu zero estrela nos testes de impacto, com proteção praticamente inexistente para crianças. Em uma escala de 0 a 100, a proteção infantil ficou em 2%. Melhor não levar criança a bordo — mas, se não levar, ela pode ficar órfã. Não há saída lógica. O melhor é não comprar o JAC e-JS1 elétrico.

Na China, modelos da JAC evoluíram em segurança, testados por empresas privadas. Muitas delas, no entanto, são temerosas de criar problemas ao denunciar falhas em carros chineses. Já marcas como Geely, BYD e GWM realizam testes nos laboratórios do Euro NCAP, de absoluta credibilidade.

Nesta semana, um carro fabricado no Brasil sofreu um impacto traseiro causado por um BMW. O veículo nacional explodiu, e cinco ocupantes morreram carbonizados. Nem todos os veículos produzidos são seguros.

Antes da compra, pesquise no Latin NCAP quais veículos são seguros à venda no Brasil. Pesquise também no Euro NCAP, que já testou praticamente toda a frota chinesa. As estrelas podem salvar sua vida — e a de quem está no habitáculo.

A compra da qualidade

Os brasileiros já não compram carros apenas pelo tamanho do porta-malas. Em breve, rejeitarão modelos que ignoraram a modernidade dos motores turbo ou das suspensões multilink traseiras.

A chegada de oito marcas chinesas ao mercado brasileiro em 2025 colocou à disposição do consumidor veículos eletrificados com ótimo nível tecnológico, perceptível na dirigibilidade superior.

O Correio do Carro testou: BYD Dolphin, Mini Dolphin, Song Pro e Seal. Da GWM, versões do excelente Haval e do Ora. Da Omoda, os SUVs Omoda 5 e 7. A Geely disponibilizou os EX5 e EX2. A Volvo, por meio da Iesa, cedeu o ótimo XC40 Recharge.

São veículos fáceis de dirigir, que demonstram a praticidade do carro elétrico e sua compatibilidade ambiental. O carro elétrico prepara mais um salto tecnológico à medida que a autonomia aumenta e conceitos como carregadores ultrarrápidos se popularizam.

A chegada dos chineses também populariza suspensões com múltiplos modos de condução e pacotes ADAS que elevam significativamente a segurança ativa e passiva. Nada indica que o interesse pelos carros chineses arrefecerá em 2026.

Brasileiros agradam

Em 2025, a indústria automobilística brasileira foi estimulada a evoluir com a chegada dos chineses. Marcas como Renault e Volkswagen reagiram positivamente ao “tsunami chinês” e lançaram produtos de sucesso.

O Renault Boreal, SUV médio-grande, mostrou em longos testes qualidade geral excepcional, silêncio a bordo surpreendente e dirigibilidade que elevou o patamar tecnológico da Renault. Já é um sucesso de vendas.

Outro destaque é o belo Volkswagen Tera. Testado por quatro dias em cidade e rodovia, mostrou excelente dirigibilidade, design atraente e reforçou a competência tecnológica da marca. Ambos receberam cinco estrelas nos testes do Latin NCAP.

Volkswagen e Renault têm trajetórias globais de sucesso. Dizer que “aprenderam” com os chineses seria depreciar as marcas europeias. Melhor afirmar que precisaram caprichar ainda mais para não ficar atrás.

Design redundante

No mercado brasileiro, onde Onix ou Kicks ainda soam como novidades, a falta de design elaborado teve origem na baixa relevância global do mercado nacional e na crônica falta de recursos do consumidor.

Carros básicos como Uno e Corsa foram aceitos sem restrições. O mais impressionante foi ver modelos evoluírem muito pouco ao longo de décadas. O maior exemplo dessa letargia criativa foi o Volkswagen Gol, que manteve praticamente o mesmo design do nascimento ao desaparecimento.

Hoje, a velocidade com que a indústria chinesa lança novos modelos é espantosa. A oferta de múltiplas versões e segmentos desperta interesse pelo “carro chinês”. Observe o belo Seal, sedã esportivo da BYD, que já foi reestilizado para 2026, mesmo sendo um acerto estético desde o início.

Apesar da variedade, analistas do Primeiro Mundo criticam a predominância de formas arredondadas. Não são carros feios, longe disso, mas há uma repetição de linhas sinuosas que pode gerar tédio. Modelos da Leap, por exemplo, são extremamente “redondos”.

Segundo críticos, a alta velocidade de produção faz com que as montadoras evitem riscos no design. A cópia ainda é socialmente aceita na China, país sem tradição histórica no design automotivo, que aprendeu com designers europeus e norte-americanos.

O excesso de modelos semelhantes, com interiores dominados por telas gigantes e tecnologia voltada ao infotainment, pode saturar o consumidor e gerar problemas de diferenciação estética.

Em 2025, o consumidor brasileiro teve muitas opções — nem todas acertadas. A GAC exagera nas formas; a MG copiou o lendário Mazda Miata. Na China, isso não é visto como crime. A Land Rover perdeu todas as ações contra a cópia descarada do Evoque pelo Landwind X7, vendido por um quarto do preço do original.

Potência sem preparo

Talvez motoristas de Porsche se tornem mais responsáveis em 2026. A marca na Alemanha está impressionada com o alto número de acidentes no Brasil, alguns fatais.

No último fim de semana, duas mulheres se acidentaram com um Porsche em Santa Catarina. A motorista havia ingerido álcool. O Porsche é um carro ultrarrápido que não permite erros. É como um cavalo bravo: se o cavaleiro não sabe domá-lo, será derrubado.

No Brasil, muitos compram carros de alta potência sem qualificação adequada. Diferente da Alemanha, onde milhões de motoristas passam por treinamentos do ADAC e convivem com altas velocidades nas Autobahnen.

A nova geração de elétricos chineses já roda a 300 km/h na Alemanha. Na China, a potência crescente também mata — falta histórico e preparo.

No Brasil, o mau uso da velocidade não está restrito aos Porsches. Na Freeway, veículos médios trafegam facilmente a 170 km/h. A velocidade média já ultrapassa 140 km/h, apesar do limite de 110. Esse limite não serve mais para nada.

Os especialistas da Porsche precisam estudar sociologia. O mau uso do automóvel no Brasil remonta ao sentimento de impunidade. É o mesmo que coloca uma mulher alcoolizada ao volante de um Porsche ou uma jovem sob um carro para morrer lentamente.

A impunidade continuou em 2025. E não esperem nada melhor em 2026.

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