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Ferrari Luce enfrenta os chineses

Scuderia lança elétrico em meio a polêmicas e em busca de novo mercado

Linhas fluidas, superfícies limpas e proporções equilibradas marcam o visual do Luce, que aposta na sofisticação em vez da agressividade típica dos superesportivos
Linhas fluidas, superfícies limpas e proporções equilibradas marcam o visual do Luce, que aposta na sofisticação em vez da agressividade típica dos superesportivos Foto : Ferrari / Divulgação CP

A Ferrari apresentou, na semana passada, em Roma, seu primeiro carro elétrico, denominado Luce. Mas, se a Ferrari pensava que esta "Luz" iria brilhar como brilha e resplandece a "Via Láctea" da marca, composta por estrelas de luminosidade máxima como os míticos Ferrari F40, LaFerrari, F8 e outros ícones, a recepção inicial mostrou-se mais complexa.

Entre os modelos que ajudaram a construir a mística da Ferrari estão o LaFerrari, o F8 e a 458 Speciale, considerada pela crítica como um dos melhores esportivos de motor V8 central já produzidos. Há também o soberbo 296 GTB, um híbrido equipado com motor V6 biturbo associado a um motor elétrico, capaz de entregar 830 hp. O GTB é considerado uma Ferrari mais "tranquila", acessível a um público mais amplo ao volante. Ainda assim, existem Ferraris exigentes até mesmo para Lewis Hamilton. São carros que "constrangem" motoristas comuns.

Luce representa uma nova era para a Ferrari, reunindo propulsão elétrica, eletrônica avançada e soluções de engenharia desenvolvidas para manter o DNA esportivo da marca | Foto: Ferrari / Divulgação CP

O colunista de automobilismo do CP esteve a bordo de Ferraris algumas vezes, a convite da Fiat, em uma época anterior à Stellantis. Sem dúvida, era uma fase mais cordial com a imprensa. Os testes sempre ocorreram em pistas fechadas, com uma exceção: quando o diretor da Super Carros, em Gramado, cedeu ao piloto de testes do CP uma Ferrari muito bem conservada.

Fui colocado no "fogo" porque iria para um circuito urbano sem qualquer teste prévio da Ferrari Modena, lançada em 1999 e que se tornou um sucesso de vendas. Equipada com um motor V8 aspirado de 400 hp, a Modena acelerava de 0 a 100 km/h em 4,3 segundos e atingia 280 km/h.

Passada a tensão inicial, a Ferrari Modena mostrou, aos poucos, por que as Ferraris são carros esportivos excepcionais em dirigibilidade, ou handling. Mas também lembram ao motorista que são máquinas sérias, destinadas à alta velocidade. Era impossível explorar seus limites em um circuito urbano.

Um dos diretores da Super Carros não quis que um instrutor me acompanhasse. Disse apenas:

— Conheço teu currículo, Renato. Vai sozinho e aproveita.

Até hoje agradeço a ele por aquelas duas horas inesquecíveis.

A performance exigente e ultrarrápida da Ferrari sempre foi acompanhada pelo rugido rouco, quase felino, dos motores aspirados e turbinados V6, V8 e V12. Com um denominador comum: todos superpotentes e com enorme potencial para uma pilotagem muito além dos limites da maioria dos motoristas.

Primeiro Ferrari elétrico adota uma linguagem estética futurista, combinando aerodinâmica refinada e elegância italiana para atrair uma nova geração de clientes | Foto: Ferrari / Divulgação CP

Nos testes que realizei, por exemplo, na pista próxima à unidade industrial de Betim, o "freio mental", o bom senso e até o Bom Deus estiveram comigo. Também voltei à sede da Super Carros intacto. Ufa...

Esse teste ocorreu há mais de dez anos. A Super Carros continua ativa e proporciona adrenalina aos clientes que pagam para pilotar uma Ferrari ou uma Lamborghini. Sob o olhar atento de um instrutor que vai ao lado — e isso é absolutamente necessário. Qualquer abuso pode resultar na interrupção imediata da experiência.

Supercarros são prazerosos, mas traiçoeiros. Suas reações são rápidas demais para um motorista "normal".

O tempo passou e hoje a Ferrari batalha para manter vivo o conceito de legacy: a hereditariedade, o legado de avanço tecnológico, as vitórias históricas nas pistas e a mística da perfeição mecânica construída por tecnologias de produção futuristas utilizadas em sua fábrica de Maranello, na Itália.

Mas esse conceito de legado sofre ataques das montadoras chinesas, que decidiram enfrentar a Ferrari em seus principais mercados.

O carro que recentemente bateu recordes em Nürburgring é chinês. O Xiaomi SU7 Ultra percorreu o circuito em tempo impressionante, acendendo a "luz vermelha" na sede da Ferrari. Equipado com três motores elétricos e potência superior a 1.500 hp, acelera de 0 a 100 km/h em menos de dois segundos e alcança velocidades próximas dos 350 km/h.

Seu design insinuante e sua performance extraordinária o transformam em um potencial competidor da Ferrari nos mercados globais.

Outros supercarros produzidos na China sinalizam que os chineses também querem o mercado da ultra performance — e possuem "armas" para conquistá-lo.

Por enquanto, as Ferraris continuam nas mãos de uma elite global. Mas até quando?

Se os filhos do petróleo, os jovens árabes que estacionam suas Ferraris na Champs-Élysées, em Paris, passarem a se interessar pelos supercarros chineses, isso poderá representar um golpe significativo para a Ferrari.

E o heritage, a herança histórica da marca, como ficará?

A Xiaomi lançou o SU7 Ultra em novembro de 2024. Até pouco tempo antes, era conhecida mundialmente como fabricante de celulares. O primeiro SU7 chegou ao mercado em 2023 e foi um sucesso imediato.

A eletrificação chega a Maranello com cerca de 1.000 hp, desempenho de supercarro e velocidade máxima próxima dos 300 km/h | Foto: Ferrari / Divulgação CP

Os números estratosféricos de desempenho convenceram muitos consumidores, especialmente na Europa, de que era possível adquirir um automóvel ultrarrápido por menos da metade do preço de uma Ferrari com desempenho semelhante.

Hoje, o SU7 Ultra custa em torno de R$ 700 mil e registra forte demanda na China e na Europa. Milhares de unidades já foram vendidas, inclusive na Itália, terra da Ferrari, agora ameaçada pela voracidade capitalista da China.

O grande temor da Ferrari é ver o "Xeique Boy", herdeiro das fortunas do petróleo, estacionar um Xiaomi SU7 na Champs-Élysées.

Quem já presenciou ao vivo a cena dos jovens árabes estacionando displicentemente suas Ferraris e Lamborghinis entende o que representam luxo e poder na indústria automobilística. Um poder que, até hoje, pertenceu a marcas míticas como Ferrari, Porsche e Lamborghini.

A Ferrari continua sendo um símbolo único de conquista e poder.

Mas o recente lançamento de seu primeiro carro elétrico, o Luce, demonstra que a tradição, sozinha, já não sustenta uma marca no mercado.

O sucesso da BYD em mercados ecologicamente avançados do norte da Europa — como Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca — comprova isso. São países cujos consumidores possuem elevado poder aquisitivo, alto nível educacional e forte consciência ambiental. Não por acaso, os carros elétricos dominam as vendas na região.

A eletrificação tornou-se uma tendência global.

É lamentável que o belo Luce receba críticas tão negativas. Afinal, trata-se de um automóvel altamente tecnológico, com um design suave e sofisticado, bastante diferente da linguagem agressiva e musculosa das Ferraris tradicionais.

As críticas contundentes refletem um tradicionalismo que precisa dar lugar à nova realidade: a ascensão da China e da eletrificação na liderança tecnológica da indústria automobilística.

Para a Ferrari, dói reconhecer que um Xiaomi SU7 foi mais rápido que muitos de seus modelos mais velozes.

A Ferrari finalmente entendeu que o Xiaomi SU7 Ultra precisa ser combatido com um carro elétrico de desempenho superior.

A imprensa europeia que já avaliou o Luce afirma que ele possui uma dirigibilidade espetacular. Seu motor elétrico, com cerca de 1.000 hp, capaz de levá-lo aos 300 km/h, representa a essência da competitividade deste Ferrari futurista.

O Luce é performático e ecológico.

E merece receber um simples e sincero:

Bem-vindo, Luce. Parabéns, Ferrari.