No suntuoso prédio do Jockey Clube de São Paulo, inaugurado oficialmente em 1941, a chinesa Geely apresentou seu primeiro produto a ser comercializado no Brasil: o Geely EX5. O crossover de porte médio pode recusar com facilidade a denominação de “SUV”, já que suas linhas arredondadas, fluidas e suaves não têm as características de um SUV “raiz”, como o “parrudo” Haval da GWM. Sob muitos ângulos, como pela traseira, o EX5 mais parece um hatchback esportivo com traseira de “caída rápida” ou “fastback”.
As razões pragmáticas do marketing das montadoras chinesas fazem com que qualquer veículo se torne um “SUV”. Embora os chineses tenham carros convincentes na beleza de design que definitivamente não são “SUVs”, como o fluido, belo e sensual Seal da BYD. Então, nem dá para mudar a “nomenclatura”, e o Seal é definitivamente um sedã aerodinâmico e muito veloz.
Para a CM do CP, o Geely EX5 é um crossover, na medida em que mescla tendências diversas em seu design atraente. Que segue a formatação deste estágio da indústria automobilística chinesa, que aposta nas linhas sinuosas que superam as retas e eliminam os ângulos mais “agudos”. No EX5, o design “bland” ou suave pode ser visto também em veículos da concorrência como o Aion Dolphin e Chery. Os SUVs se espalham pelas demais marcas chinesas, que são tsunami no mercado brasileiro, totalmente receptivo aos chineses.
Mas o “bland”, suave ou terno — como explica o dicionário da língua inglesa — parece ser um carro muito flexível no uso. Tão flexível que até admite no habitáculo um casal “margarina” da TV chatice. Que não tem nada a dizer. O marketing da Geely afirma que o casal escolhido representa os casais jovens do Brasil. No vídeo, quem fala é o carro. Melhor assim, porque a dupla soa totalmente “fake”.
Melhor substituí-los pela “vida real” que veio intensa no teste de 60 quilômetros pelas ruas e avenidas de São Paulo. Ao volante, o editor do Blog de Carros e Motos do Correio do Povo tinha mais uma vez a responsabilidade profissional de testar o EX5, numa espécie de mergulho urbano, nos desafios da megalópole. A Geely se associa à Renault em escala global. A Geely produziu seu primeiro veículo em 1998. Era o sedã Haoking, direcionado ao mercado chinês. Em 2014, a Geely iniciou as exportações para o Brasil. Inicialmente foram comercializados o sedã médio ECT e o compacto GC2. Testados pela editoria de Carros e Motos do Correio do Povo, os dois modelos mostraram fragilidade tecnológica, que prenunciava que a Geely devia optar por outro caminho se quisesse ser bem-sucedida. A Geely comprou a tecnológica Volvo da Ford em 2010. A Volvo, com alto conceito no primeiro mundo, foi a “ponte” para a globalização da Geely, que teve vendas de 2,2 milhões de veículos no mundo em 2024, com 800 mil unidades somente da marca Volvo. A velocidade do sucesso desta Geely eletrificada impressiona.
Em meio ao trânsito desafiador e perigoso da megalópole que contém mais de 7 milhões de veículos em circulação, o Geely EX5 era um “porto seguro”. O carro é dotado de um “handling” ou dirigibilidade superior, que propiciava ao “piloto de testes” uma evolução segura entre os desafios constantes do sistema de trânsito agressivo e confuso, que não dá trégua à mente.
Para que o motorista volte vivo ao ponto de saída, o EX5 disponibiliza dose farta de sistemas de segurança que monitoram a direção segura. O sistema ADAS de segunda geração contribuiu para as 5 estrelas que o EX5 crossover ganhou nos testes de impacto do Euro NCAP. O ADAS insere câmeras de monitoramento em 360 graus, controle de cruzeiro adaptativo, frenagem automática de emergência, assistência à manutenção de faixa, detectores de ponto cego, “clover leaf” ou estrutura de dissipação de energia — um auxiliar valioso em casos de colisão. Enfim, o ADAS é composto de 16 sistemas que visam à preservação da vida. Os chineses, aliás, foram reprovados por mais de 20 anos nos testes de impacto do Euro NCAP. Quando romperam a barreira da reprovação, se tornaram campeões em segurança, e hoje os carros “made in China” recebem elogios dos especialistas em segurança a serviço do Global NCAP, o instituto de validação veicular de atuação mundial, que tem no Brasil o exigente Latin NCAP.
O Geely EX5 tem 430 quilômetros de autonomia, propiciados pelo motor com 218 hps de potência e 32,6 mkgf de torque. As 4 horas de avaliação no trânsito da cidade de São Paulo e áreas periféricas tiveram como lugar comum a difícil circulação numa cidade onde transitam mais de sete milhões de veículos. Nesta realidade complexa, a análise do Geely era prejudicada na agressividade de um sistema de trânsito que funciona precariamente na base do acelera e ultrapassa. Freia forte para não colidir. Cuidado quando o motoqueiro paulista, imprevisível, surge à frente. Então reacelere com o forte torque de 32,6 kgfm do EX5, que gera acelerações reativas, mas não assustadoras. A engenharia da Geely modulou a aceleração, retirando um pouco da impetuosidade da “corrente contínua”. Isso propicia uma rodagem mais suave, sem “sustos” para o motorista, que não terá as “costas” grudadas no encosto em acelerações bruscas. Que são tensas, cansativas para a mente. O EX5 no teste mostrou uma aceleração consistente e equilibrada, que facilita o uso urbano.
No pavimento irregular de São Paulo, com raros trechos de asfalto perfeito, o Geely EX5 mostrou a eficiência das suspensões independentes nas quatro rodas, que ampliam a estabilidade direcional e lateral. O Geely passou por São Paulo alternando os modos “Conforto” e “Sport”, com prevalência do “Sport”, que torna a dirigibilidade mais consistente. O modo “Comfort” está longe de ser decepcionante, e a dirigibilidade ou “handling” do EX5 está acima da média de muitos elétricos chineses. O Geely inspira confiança.
Bonito e suave por fora, ultra confortável no habitáculo, o EX5 quer ser convincente também na autonomia — que é pesadelo para os motoristas que se aventuram em viagens. Na versão Pro, segundo o Inmetro, a autonomia ultrapassa os 410 quilômetros, graças às baterias de 60,2 kWh de capacidade. As recargas feitas com potência de até 100 kW no carregador rápido permitem que 50% da carga seja feita em 20 minutos. A versão menos potente permite maior autonomia em relação à versão mais potente e mais cara: são 430 quilômetros de autonomia contra 349 km de autonomia, segundo o Inmetro. É erro da Geely, pois o proprietário vai pagar mais para rodar menos.
Mas há muito mais acertos neste EX5 do que erros.
Nem o trânsito desafiador de São Paulo conseguiu retirar a tranquilidade do “piloto de testes”, privilegiado pelo ar digital automático de duas zonas, com saídas traseiras, bancos dianteiros com controle elétrico, ventilação e massageador — que distrai, mas faz bem ao corpo e à “psique”, tensionados pelo trânsito. Preso nos constantes congestionamentos, mas “massageado” no banco elétrico, o piloto de testes se viu em meio à beleza da serra gaúcha. Foi apenas um “flash” da mente sob “stress”, que logo sumiu quando os sensores e câmeras externas detectaram um motoqueiro que se “esfregava” no retrovisor do lado direito. Avançou o motoqueiro, que arranhou o espelho do EX5. Mas carros tecnológicos que chegam logo se acostumam aos “maus modos” do trânsito do Brasil, que desafia as mais complexas tecnologias. Como o ADAS integrado ao EX5, que com algoritmos e IA deseja que o motorista volte ileso para a família. Se a família estiver a bordo, que seja preservada.
