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Jaguar só quer o futuro

Carros & Motos testa último felino britânico a combustão para debater novos rumos da montadora

Luxo e performance são marcas dos felinos britânicos
Luxo e performance são marcas dos felinos britânicos Foto : Renato Rossi / Especial CP

Já abordamos o conceito de "heritage" ou tradição de uma marca por décadas. O conceito de "heritage" voltou a ser usado pelas marcas tradicionais ocidentais, na medida em que as marcas chinesas relativamente "jovens" passaram a ser dominantes no mercado global. Por exemplo, a Leap Motor, que se associou à Stellantis em 2023, produziu seu primeiro carro em 2019. A Leap tem sucesso no mercado europeu, que é tradicionalista. Há um público jovem que ignora a "tradição" das marcas. A Leap simplesmente não tem tradição e tem aceitação plena.

É a diluição da informação instantânea nas mídias sociais, sem fonte checada, que se torna verdade inquestionável. Um exemplo de instantaneidade é a chinesa Xiaomi, que vende milhões de celulares de boa qualidade no mundo. A Xiaomi resolveu produzir um "carro esportivo" SU7, que levou apenas dois anos, de janeiro de 2023 a março de 2024, para ser produzido em série. O SU7, testado por renomadas publicações europeias, recebeu fartos elogios. Não satisfeita, a Xiaomi colocou ao volante um piloto europeu, que fez tempo inferior ao do Porsche Taycan elétrico no circuito de Nürburgring.

Modelo Type 00 será totalmente eletrificado | Foto: Jaguar / Divulgação CP

O ousado e belo SU7 custa 50% a menos do que um Porsche e já vende mais que o Taycan na Alemanha, o país que sempre prezou o "heritage", a "glamorosa" herança de suas marcas. A publicidade do SU7 está nas telas dos "iPhones", que tornaram a Xiaomi trilionária. E o SU7, ao contrário dos carros esportivos ocidentais, já comprou passagem para o futuro por ser elétrico. A rival Audi, "pressionada" pela concorrência chinesa, resolveu continuar na combustão e engatou marcha a ré, mas pode pagar um alto preço diante da legislação ambiental europeia, que não suportará motores a combustão a partir de 2030.

Há três semanas, o piloto de testes da CM teve à disposição um Jaguar E-PACE 2018 em perfeito estado de conservação. O Jaguar pertence à Savarauto Multimarcas, que comercializa veículos importados seminovos com currículos impecáveis. A revenda fornece até mesmo um documento jurídico, o "Laudo Cautelar", que atesta a qualidade do produto. O E-PACE foi lançado em 13 de julho de 2017, em um cenário utilizado em um filme do célebre James Bond, que imortalizou o ator Sean Connery. A imprensa inglesa aprovou o E-PACE como um "legítimo" Jaguar, com manobrabilidade ágil e precisa, muito conforto e luxo interno. A confiabilidade do E-PACE novamente colocava a Jaguar no "topo" das marcas de luxo. A versão mais potente e maior, o F-PACE, foi apresentada no Salão de Frankfurt, em setembro de 2015. Mas o maior sucesso em vendas ficou com o E-PACE. No teste da CM, o E-PACE mostrou uma performance "agressiva", próxima dos cupês esportivos da Jaguar. Surpreendia o alto nível de estabilidade lateral e direcional em um veículo com alto centro de gravidade e tração 4x4. Foi emocionante e segura a experiência com o E-PACE. Apesar da aprovação do público e da imprensa, o F-PACE e o E-PACE foram descontinuados, o que ampliou sua procura nas lojas de seminovos pelo mundo.

ERA PURO HERITAGE

Em dois dias de teste em circuito urbano e rodoviário, o E-PACE e sua destreza incomum lembravam ao piloto de testes que era um Jaguar e que sua história começara em 1935, quando o sedã esportivo 2.5 litros "Saloon" foi o primeiro carro da "dinastia" a ostentar o nome "Jaguar". O lendário XK120, lançado em 1948, foi o carro mais veloz em produção em série por muitos anos. A mística da marca, ao passar das décadas, teve altos e baixos. A Jaguar inglesa foi comprada pela Ford em 1999 e revendida para os trilionários indianos da Tata Motors em 2000. A Tata Motors investiu bilhões de dólares e recuperou o prestígio da Jaguar com modelos de ótima qualidade. A Tata dotou os Jaguar com tecnologia de ponta, incluindo sistemas de auxílio à condução e uma tela "enorme" no centro do painel.

A indústria automobilística convive com uma permanente disrupção de conceitos gerada pelas montadoras chinesas, que dominam a eletrificação do automóvel. As marcas tradicionais sentem que, além da "tradição" ou "heritage", há fatores mercadológicos e tecnológicos que determinam o sucesso ou fracasso das marcas. E a concorrência chinesa passa por cima do conceito de "heritage". Pragmáticos, os chineses se valem da produção de muitos milhões de unidades direcionadas ao mercado da China, que assimila anualmente mais de 30 milhões de veículos, gerando a vantagem da "economia de escala", o que permite que uma BYD ofereça bons produtos a preços competitivos em escala global. Hoje, carros de entrada na China oferecem o pacote de segurança "ADAS", que integra: assistente à linha reta, controle de velocidade adaptativo, freios automáticos emergenciais, detecção eletrônica de ponto cego, aviso de colisão frontal, reconhecimento de sinais de trânsito, monitor da atenção do motorista, entre outros equipamentos. A BYD vai colocar esses equipamentos em toda sua linha no Brasil sem cobrança adicional.

Tudo muda na Jaguar

Carros e Motos do CP sabia que pilotava um "clássico da Jaguar", já que o excelente E-PACE não está sendo mais fabricado. A Jaguar passa por uma profunda reestruturação, na medida em que sentiu que o "heritage" ajuda, mas não decide a compra de um veículo de uma marca "histórica". Hoje, é necessária maior ousadia. E as marcas devem se voltar a um público cujos rostos parecem estranhos e exóticos. A publicidade da Jaguar, que corre o mundo, mostra a mudança de rumo da marca "clássica" através de um grupo de jovens cujo exotismo nas roupas e nas faces de diversas nacionalidades deve ser aceito sem restrições. Parecem marcianos. E Elon Musk quer ir logo a Marte. Talvez esses jovens sejam mais estranhos que os marcianos, que, quem sabe, optem pelo terno verde e gravata luminosa. É brincadeira. Mas o exótico e o diferente integram a nova identidade global já captada pelo marketing das montadoras.

A Jaguar mostrou seu novo design na "Miami Art Week" em dezembro de 2024. O novo Jaguar a ser comercializado em 2026, o "Tipo 00", significa a "transformação física" da marca. É uma "obra de arte", segundo a Jaguar. Com um capô superlongo, que excede a tradição dos capôs longos da marca, tem perfil "fastback" e utiliza rodas de 23 polegadas. O Tipo 00 foi apresentado em suas cores "cativantes", ainda segundo a Jaguar: o vibrante Miami Pink, que foca a energia da arquitetura Art Déco (visível em hotéis de Miami), e o sofisticado London Blue, uma homenagem ao "heritage" ou nobre herança britânica da marca. O Tipo 00 está sendo "adaptado" a um gosto global. Portanto, o design, que contém forte dose de "extravagância", sofrerá reduções estéticas sem descaracterizar a visão impactante e futurista do 00. Aliás, a Jaguar, numa jogada de alto risco, abandonou o "heritage", trocando-o pelo "desconhecido". O "00" pode ser um sucesso ou não. É o preço a pagar pela ousadia.