Carros & Motos

Leap é quase a van familiar

C10 soa espaçoso e convidativo para os passageiros

Design robusto com linhas suaves, amplo espaço interno e acabamento caprichado
Design robusto com linhas suaves, amplo espaço interno e acabamento caprichado Foto : Renato Rossi / Especial CP

Ate 2019 a Leapmotor batalhava um lugar no mar cheio de grandes tubarões que é o mercado automobilístico chinês. Atualmente, com mais de 120 marcas que buscam espaço no mercado móvel multidão com rodas que dá sinais de saturação. Em 2024 a produção automobilística chinesa já superava a capacidade de absorção de um mercado que consome mais de 20 milhões de unidades anualmente. É o maior mercado do mundo na quantidade de marcas e modelos. Nem todos com a mesma qualidade ou aceitação. A Leap, ao lançar o esportivo T03 em 2018, foi esnobada pelo consumidor chinês e até pela tímida imprensa especializada da China. Sempre temerosa de criticar ações da indústria automobilística que recebe mais de 300 bilhões de dólares em subsídios do Governo. O automóvel na China é política de estado que visa a vitória global das marcas chinesas. Estão próximas disto. Mas o preço tem sido alto no estímulo a uma superprodução chinesa que hoje busca a todo custo mercados de exportação para que não aconteça a catástrofe do mercado que não assimile a produção excessiva. Basta ver as revendas da BYD no Brasil e no mundo para entender o reflexo negativo da superprodução. Na China a supercompetição queima preços e leva revendedores à falência. O Governo deve restringir dramaticamente o número de montadoras para no máximo 15 marcas até 2030.

A Leap, estimulada pelos fartos subsídios e com tecnologia diferenciada, após o fracasso do T03 em 2018 reformulou sua estratégia de produção de SUVs populares e muito baratos e passou a produzir SUVs de pequeno porte com nível tecnológico superior e preços mais elevados. O primeiro sucesso da Leap veio através do C11 lançado em 2020, mas direcionado unicamente ao mercado chinês. O C10 foi introduzido em 2023 e foi o primeiro modelo da Leap direcionado aos mercados do mundo. Mas a Leap ainda é novidade no mercado e só ganhou projeção graças ao investimento de 1.5 bilhão de dólares da Stellantis na Leap. É uma associação que visa ampliar a força da Leap no mercado global. Dá direito de exportação, venda e manufatura da Stellantis em relação à Leap. O poder do Stellantis, proprietário de marcas de repercussão global como Jeep, Ram, Fiat, Citroën, Peugeot e Vauxhall, tem sido uma espécie de catapulta para a Leap estar no mundo.

Graças ao Stellantis, a Leap está no Brasil, onde se associa a grupos econômicos que já representam marcas do Stellantis. É o caso do Grupo Savar, que abriu uma grande revenda para a Leap em área nobre da cidade de Porto Alegre. Ao lado da Leap está a revenda Jeep e Ram do mesmo grupo. Foi justamente a Savar Leap que não é prepotente e esnobe, que gentilmente cedeu o Leap C10 para ser testado. O C10 é SUV de porte médio cujo design tem fortes traços de van familiar. O teto é elevado e as medidas generosas: 4m74 de comprimento e generoso entre-eixos de 2m83. O primeiro sentimento que surge no habitáculo é a amplitude. O Leap C10 soa espaçoso e convidativo para os passageiros. Há um clima receptivo a bordo, assim como há capricho no acabamento interno e no uso de materiais de qualidade. A versão testada tem acabamento preto uniforme com toques em gloss. Isto mostra que a Leap, que iniciou carreira com SUV humilde de 11 mil dólares, só evoluiu e muito por si própria. E mais ainda ao lado do poderoso Stellantis. Hoje está muito além dos 11 mil dólares.

Conjunto híbrido com motor elétrico ágil e extensor a gasolina | Foto: Renato Rossi / Especial CP

Na tecnologia, o C10 tem motor elétrico traseiro com 215 hp e motor dianteiro 1.5 a gasolina cuja função é ser um extensor de autonomia. O torque vem mais do motor elétrico e é forte nos 32,6 kgfm. No teste, a potência elétrica comandava as ações em trânsito urbano, onde o Leap C10 se mostrou ágil e veloz. Faz de 0 a 100 em 8.2 segundos, uma ótima marca para veículo familiar. A autonomia através dos dois motores chega aos 950 quilômetros. Os passageiros não sentirão nenhuma angústia elétrica a bordo do C10. A angústia elétrica é aquele sentimento de insegurança que surge na estrada escura quando a bateria de íon-lítio anuncia que você, com certeza, ficará na estrada. E ninguém quer ficar parado à beira do caminho numa estrada do Brasil em que os bandidos logo chegam. Sem rede decente e ampla de eletromobilidade, ficar sem carga na bateria é alto risco.

Portanto, a tecnologia do Leap que induz o motor a combustão a recarregar constantemente a bateria de íon-lítio é garantia de que o motorista chegará ao destino com este C10. No teste de 100 km, limitado à cidade, ficou evidente que o SUV da Leap tem dirigibilidade agradável, tranquila, não direcionada a uma possível esportividade. O direcionamento é tranquilo, familiar na essência. O design de linhas suaves, mas robustas, passa a impressão de veículo possante e seguro. O Leap C10 ganhou cinco estrelas nos testes de impacto do EuroNcap, um resultado que se tornou norma na indústria automobilística chinesa. Segundo o Governo, todos devem ser veículos seguros e protetores da vida no trânsito. A China, com mais de 200 mil mortes no trânsito anualmente, quer veículos seguros.

Bom de reta e curva, o C10 integra uma suspensão MacPherson na dianteira e braços múltiplos na traseira. As suspensões multilink ampliam a dirigibilidade ou handling de qualquer veículo. Aliás, é lamentável que montadoras no Brasil ainda coloquem eixo rígido na traseira que visa economia nos custos de produção, mas sacrifica a dirigibilidade e a segurança dos ocupantes. Na síntese, não se pode negar que veículos com nível elevado de qualidade estética e dinâmica, como o Omoda 5, Leap C10, Geely EX5, recém testados em CM do CP, significam mais um avanço desta criativa e competente indústria automobilística da China. Que só tem um problema a ser resolvido: não pode retroceder de volta à combustão. Mas picapes a combustão produzidas na China chegam ao mercado brasileiro como uma evitável marcha a ré ecológica. Mas não eram montadoras verdes? O petróleo é verde?

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