Foram dez dias prazerosos, à beira da possibilidade cada vez mais tangível do carro elétrico. Como referência desse futuro “limpo” e ambientalmente seguro, um dos melhores carros elétricos do mundo: o Renault Megane. Se carros elétricos como o Megane e centenas de outros modelos, já em comercialização, forem aceitos sem restrições ou críticas infundadas que poluem a mídia, prevalecerá o senso comum de que o mundo quer ir além do combustível fóssil, poluidor há mais de um século.
No habitáculo absolutamente silencioso, o Megane rodou 800 quilômetros, oferecendo parâmetros para uma condução suave. Em vez de alta velocidade — que não é o foco do carro elétrico e, pelo contrário, pode reduzir a autonomia em até 40% — o que se destacou foi a eficiência energética. Durante o teste, a tela digital central de 9 polegadas, em alta definição, exibiu em tempo real o “mapeamento” da performance do motorista. Na escala de 0 a 100%, o desempenho chegou a 90%, resultado de um uso suave do acelerador, que ampliou a autonomia da bateria de íon-lítio de 65 quilowatts. A autonomia declarada pelo Inmetro é de 337 quilômetros, mas, com condução leve e sem pressão excessiva no acelerador, o Megane alcançou 410 quilômetros.
A condução de um carro elétrico exige adaptação gradual ao comportamento dinâmico, diferente do veículo a combustão. No carro elétrico, não há intermediação de componentes mecânicos que reduzem a performance, nem os inúmeros atritos entre peças móveis que também impactam o desempenho. O carro elétrico tem 50% menos componentes em relação aos veículos a combustão, o que é mais um fator tecnológico a seu favor.
No Renault Megane, como em outros elétricos, o torque da corrente contínua é forte, com 30,6 kgfm. As retomadas de velocidade são muito mais vigorosas, o que é comum na performance dos elétricos. No entanto, acelerações bruscas de “pé embaixo”, comuns nos carros a combustão, devem ser evitadas no elétrico, onde a corrente contínua de centenas de watts requer um uso mais sensível. Nos mais de 800 quilômetros do teste, a suavidade no manuseio foi a norma. As suspensões — MacPherson na dianteira e multilink na traseira — são versáteis e se adaptam a diversos tipos de pavimentos. Embora o Megane não seja totalmente imune a vias deterioradas, o efeito no habitáculo é minimizado pela eficiência das suspensões e pela rigidez torsional da nova plataforma CMF-V, que garante uma condução segura em linha reta e em curvas, preservando o “conforto de marcha”.
O Megane elétrico oferece quatro modos de condução: Eco, Comfort, Sport e Individual. No teste, foram utilizados os modos Comfort e Eco, que reduzem um pouco a agressividade da corrente contínua, trocando-a, no modo Eco, por uma sensível diminuição do torque, estendendo a autonomia. Em determinado momento do teste, com apenas 30 quilômetros restantes de autonomia, foi necessário ativar o “modo regenerativo” por meio das “borboletas” laterais no volante. Nesse modo, o sistema de freios gerou energia adicional por fricção, o que ampliou a quilometragem e permitiu chegar de São Leopoldo a Porto Alegre para acessar uma estação de recarga. Na revenda Renault do Grupo Iesa, todos os boxes de recarga estavam ocupados, mas, ao lado, na GWM Iesa, o gerente Isaac Colombo gentilmente ofereceu uma vaga em um carregador rápido, completando a carga em duas horas — um tempo de recarga razoável, considerando que, em um carregador residencial de 7,4 quilowatts, o tempo médio de recarga seria de 5 a 7 horas.
A facilidade na condução urbana do Megane provém de suas dimensões, com 4,20 m de comprimento, altura de 1.519 mm e um entre-eixos generoso de 2,70 m, que faz o veículo parecer maior visto de dentro. Externamente, é um hatch de traços de cupê esportivo, com design equilibrado e sedutor, chamando a atenção no trânsito. O ego do piloto de testes certamente ficou satisfeito com a recepção. Próximo ao solo, graças à espessura da nova bateria com química NMC (Níquel, Manganês e Cobalto), da fabricante coreana LG, o Megane apresenta um centro de gravidade rebaixado, ampliando a estabilidade direcional e lateral.
O Megane é herdeiro da “revolução elétrica” da Renault, iniciada em 2011, quando a marca apresentou no Salão do Automóvel de Frankfurt uma linha de carros elétricos, incluindo o hatchback Zoe, o microcarro urbano Twizzy, o sedan Fluence e a van comercial Kangoo. A eletrificação à época custou cerca de 14 bilhões de euros, sob a liderança do então CEO do Grupo Renault, o dinâmico Carlos Ghosn, figura de destaque na indústria automobilística europeia. Infelizmente, a Renault não deu continuidade plena à produção de elétricos devido aos problemas enfrentados por Ghosn na Renault-Nissan. Acusado de desviar milhões enquanto presidia a Nissan no Japão, ele perdeu credibilidade e teve sua carreira interrompida. Esse episódio foi traumático para a Renault, mas o passado está no retrovisor, e a marca está de volta à eletrificação.
No Salão de Paris, encerrado em 20 de outubro, a Renault manteve sua presença firme frente à intensa concorrência das montadoras chinesas, que travam uma “batalha sem tréguas” para dominar o mercado global de elétricos. A Renault exibiu modelos como o sedan Embleme, o hatchback Renault 4 — uma reinterpretação do icônico Renault 4, que foi um dos carros mais vendidos na França e na Europa por três décadas — e o novo Twingo elétrico, exemplar em concisão e praticidade. Lançado em 2021, o Megane permanece uma das principais atrações da marca, consolidado pela imprensa europeia como um dos melhores carros elétricos do mundo, com elevado nível de vendas.
Foram 800 quilômetros rodados em dez dias, com apenas duas recargas completas na bateria de íon-lítio de 60 quilowatts, recarregada em pouco mais de 1h30min em um carregador ultrarrápido. Esse carregador, disponível em uma das áreas do Grupo Iesa, foi essencial para a experiência de condução. O carregador rápido é, sem dúvida, a opção preferida para o motorista de um carro elétrico, que não precisa esperar seis horas ou mais em um carregador lento. No entanto, a experiência de teste também revelou que, além dos carregadores nas revendas, há poucas opções para recarga em locais públicos. As que existem, em mãos de particulares, são abusivas no custo e mal instaladas.
Para que o carro elétrico seja uma opção viável para o futuro, é necessário pensar em uma política de eletromobilidade, em vez de prospectar petróleo na Amazônia.
