Desta vez o culpado nem foi o mordomo. Foi o dono do castelo. Porque nos bastidores da Alemanha, se sabe que o grande mentor na falsificação do software dos carros da Audi, que permitia uma falsa economia de combustível, foi o ex todo poderoso, Presidente Mundial do Grupo Volkswagen, Martin Winterkorn.
Confesso que a costumeira arrogância de Winterkorn me incomodava nos Salões Internacionais. Certa vez o segui e ao seu séquito de "puxa sacos", todos invariavelmente vestidos com bem cortados ternos pretos, pelas vias do Salão de Paris de 2008. Os coreanos naquele Salão botavam suas mangas longas de fora . E Peter Schreyer, o genial e genioso designer alemão que fora demitido da Volks, alguns anos antes, já havia se vingado o suficiente de seus ex-patroes: bastava percorrer a área de exposição da Kia e Hyundai para saborear o veneno sinuoso e belo de "Schreyer" no design inovador e sensual de carros da Hyundai e Kia.
Em 2008 os coreanos já ameaçavam com seus modelos inovadores a modelos tradicionais europeus. Mas neste dia Martin Winterkorn não estava com cara de homem santo. Parecia o diabo em pessoa. E havia um alvo a ser alcançado: o belo e bem sucedido i30, cujas vendas em ascenção já ameaçavam a hegemonia do Golf na Europa. Eu ali, ao lado da caravana, seguia o mestre do mau humor, à época impregnado do glamour de ser um dos homens mais poderosos da industria automobilística. Cercado de seguranças alemães, muito altos e muito fortes que não gostavam de jornalistas, por ordem de Winterkorn .
O dirigente sempre foi muito criticado na imprensa alemã, justamente por seu autoritarismo e decisões tantas vezes erradas que não deviam contestadas. Martin Winterkorn chegou no i30 e driblando os seguranças, fiquei a dois passos dele. O vi vociferar em alemão algo para os assessores quando fechou a porta do i30."Mas esta porta bate sem fazer barulho. E mais silenciosa em relação ao Golf", disse ou gritou. Alguém ao meu lado traduziu do alemão para o inglês. Depois movimentou bruscamente o volante do I30 para cima e para baixo, tambem na profundidade. Emitia ordens aos assessores que freneticanente anotavam suas criticas e recomendaçoes. Bateu a porta umas dez vezes e vociferou a cada batida. Estava obcecado com a porta do I30, não se sabe a razão. Sentou no banco do carona , no banco de trás. Se tivesse levado junto martelo e chave de fenda desmontaria o I30, ali mesmo. Ou o destruiria , porque parecia raivoso.
A imprensa internacional que também o seguia, repercutiu a visita a Hyundai. Há a foto histórica de Winterkorn abrindo e fechando a porta do I30. Um jornalista norte americano de forma genial escreveu sobre o comportamento compulsivo de Winterkorn , definindo como show midiático sem substância. Será que Winterkorn com todo o poder da Volks não poderia desmanchar parafuso a parafuso o I30 na sede da empresa em Wolfsburg? Questionou o jornalista. Ele era assim mesmo, um homem que também teve múltiplos acertos na Volks, mas cujo ego irrefreável pôs tudo a perder. Nunca viram Winterkorn desculpar-se, me disse um jornalista alemão.
Ao chefiar um Grupo com mais de 400 mil funcionários, sentiu se um Deus, à prova de erros. Ao estimular a instalação de um software cuja função nada nobre era burlar os testes de emissões das agencias de proteção ambiental dos Estados Unidos da America e Europa, Martin Winterkorn errou miseravelmente. Ele colocou a poderosa e ótima Volkswagen numa posição de inferioridade diante das rivais. Difícil para a Volkswagen emergir ilesa deste poço sem fundo da desconfiança do consumidor primeiro mundista.
Por Renato Rossi
