Uma visita a revendas que enfrentaram a “tempestade”, que trouxe junto o rompimento de diques mal conservados e comportas que deixaram a água entrar na cidade, que devia estar protegida e não estava. Com “entrada livre”, o lago Guaíba encontrou seres humanos à mercê da força das águas, numa luta desigual. O nível da água subia sem parar e inundava enormes bairros periféricos como o Sarandi e municípios vizinhos como Canoas, que teve a progressista comunidade da Mathias Velho inundada e destruída. O dique que circunda a comunidade rompeu.
“Eu me senti ilhado em todos os sentidos", afirma o especialista em Mercedes Benz, Leonardo Severo, que viu a água bravia invadir a revenda Savarauto Mercedes Benz, na avenida Souza Reais. “Ao mesmo tempo a água invadia minha casa na Mathias Velho”, lembrou. “Já fora da revenda inundada, me comunicaram que meus pais tinham sido evacuados pelos socorristas. Era uma espécie de trauma familiar”, explica.
“Depois de três semanas na casa de um irmão, voltei para casa para ver que tudo tem que ser refeito na casa inundada. Vejo o enorme esforço do Grupo Savarauto que refez a revenda Multimarcas e que, no máximo em duas semanas, estará com a revenda Mercedes operacional”, completou. “E uma espécie de renascimento”, afirma Leonardo.
Em poucas horas, a avenida Souza Reis, importante polo automobilístico, restou com grandes vidraças quebradas, móveis arrebentados, telões ultra sofisticados vindos da Alemanha destruídos na revenda Savarauto Mercedes Benz.
Na Iesa BYD, a água que invadiu o setor de “estoque” destruiu 68 carros zero quilômetro. O Grupo Iesa teve sete lojas atingidas e mais de 300 carros com perda total. A bela revenda da Kia, da tradicional Sun Motors, também foi quebrada e ferida com dezenas de carros perdidos. A tragédia atingiu a mais de 300 revendas, num total de 700, no Rio Grande do Sul.
Na quarta feira a tarde sob um sol de esperança surpreendia ver revendas que estavam semidestruídas já recuperadas na estética e funcionalidade e plenamente operacionais. A mesma Iesa BYD, que perdeu 68 carros, vendeu 33 unidades na segunda feira.
“O alto número em vendas mostra que os mais de 230 mil carros alagados e destruídos na enchente começam a ser substituídos. Em geral os proprietários receberam o valor do seguro e compraram o carro novo. Há também este sentimento do que o pior já passou”, salienta o gestor comercial da Iesa Byd Ricardo Kappel.
No entanto, o executivo faz um alerta. “Não basta somente a resiliência diante da tragédia. É necessário a partir de agora ter plano de prevenção, porque esta imprevisibilidade do clima define um novo padrão global, que deve ser enfrentado com planejamento e comprometimento com a defesa da vida e do patrimônio”, assinala.
Na revenda Savarauto Multimarcas, o gestor comercial Elisandro Falleiro salienta que “há um longo caminho a frente até a recuperação total do Rio Grande do Sul. Por enquanto muitas revendas já abriram suas portas aqui na região da Souza Reis e na avenida paralela, a Edu Chaves, o que nos deixa felizes. Mas é necessário o engajamento de forças econômicas e recursos humanos para que seja rompido esse círculo vicioso da poluição ambiental, gerada pela ação predatória do homem sobre a natureza. Se nada for feito teremos trágicas ‘reprises’”, concluiu.
