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CHINESES REAVALIAM ESTRATÉGIAS
A imprensa global noticia os graves problemas estruturais que afetam a indústria automobilística chinesa. O maior deles, segundo analistas, é o crescimento excessivo da produção de veículos, que ignora fatores geopolíticos externos e decisões equivocadas relacionadas à economia chinesa. A crença no crescimento contínuo do PIB mostrou-se enganosa. A concessão excessiva de subsídios à produção e a falta de regulação do mercado interno fizeram com que a China tenha hoje um excesso de marcas automobilísticas, muitas delas redundantes. E o país não sabe o que fazer com o excedente de produção.
A BYD continua como líder do mercado chinês e também ocupa posições de destaque em outros mercados do mundo. Mas prossegue fortemente subsidiada pelo dinheiro estatal. O regime comunista mantém sua obsessão de tornar a China líder global na produção de veículos. Essa busca por vencer a qualquer custo tem como contrapartida uma produção de risco. É o caso da BYD, que compra matérias-primas e componentes para seus carros com contratos de longo prazo e recorre a empréstimos de bancos internacionais. É uma estratégia arriscada, mas que permite à montadora lançar dezenas de modelos em um curto espaço de tempo. Logicamente, porém, esses modelos precisam encontrar mercado. Caso contrário, a BYD poderá não ter recursos para cumprir seus compromissos financeiros.
O mercado interno, principal alicerce da BYD, recuou a partir de 2025. Hoje, a marca procura mercados externos capazes de absorver o excedente de produção. É o vai e vem dos gigantescos navios de transporte, com capacidade para levar pelo menos 9 mil carros por viagem. Os investimentos bilionários da BYD em publicidade e a oferta de produtos com descontos generosos são práticas adotadas pela montadora no Brasil e no mundo. O excesso de modelos lançados chama a atenção dos consumidores, mas também está associado a um cenário de endividamento crescente. Segundo a publicação norte-americana Automotive News, o lucro líquido da BYD caiu mais de 16% nos primeiros oito meses de 2026, com tendência de redução ainda maior da lucratividade em 2027.
Na China, a hiperprodução transformou o Salão de Pequim, realizado de 24 de abril a 3 de maio de 2026, numa espécie de parque de diversões do automóvel. Os 1.451 novos modelos apresentados pareciam pressupor que a China, em breve, precisaria vender carros na Lua, em Júpiter e pelo Cosmos afora, já que a Terra parece um mercado insuficiente para absorver a hiperprodução chinesa.
Em 2026, há sinais de saturação nas revendas da marca na China e em outros mercados. A produção excessiva provocou uma guerra de preços que já levou centenas de concessionárias à falência. No Brasil, o excesso de ofertas é ótimo para os consumidores, que recebem descontos generosos. Mas a lucratividade dos revendedores é reduzida. Além da BYD, as concessionárias brasileiras trabalham com outras marcas chinesas e ainda vendem as marcas tradicionais, cada vez mais esquecidas por parte dos consumidores.
No mercado europeu, a BYD enfrenta a reação de fabricantes que produzem veículos elétricos de qualidade, como Renault e Volkswagen. Já a Stellantis, com Peugeot e Fiat, acelera o passo elétrico. O CEO da BYD, Wang Chuanfu, em declarações à imprensa norte-americana nesta semana, definiu o mercado chinês como “eliminatório”. Isso significa que a competição desmedida deverá reduzir drasticamente o número de montadoras na China em breve.
Quanto ao futuro da BYD, Wang Chuanfu afirmou que a produção global será revista para baixo a partir de 2027, para restabelecer o equilíbrio entre oferta e demanda em escala mundial.
COROLLA SESSENTÃO
A Toyota poderia oferecer ao mercado um mote publicitário bastante eficiente para o Corolla, que completa 60 anos em 2026: “Corolla, o carro do seu bisavô”. É verdade. Desde seu lançamento no Japão, em 1966, gerações de consumidores pelo mundo tiveram um Corolla, têm um Corolla ou ainda terão um, já que o sedã continua em produção. O modelo ultrapassou a marca de 58 milhões de unidades produzidas e comercializadas em inúmeras unidades industriais espalhadas pelo mundo. Mas que mistério esse sedã médio possui para ter uma trajetória de sucesso global?
Não há mistérios nem mágicas relacionados ao Corolla, desenvolvido para ser um automóvel de custo acessível, funcional e adequado à mobilidade humana. Desde o lançamento, o modelo passou por diversas gerações, evoluindo gradativamente em forma e conteúdo tecnológico. O mérito da Toyota foi justamente promover essa evolução sem alardes, percebida pelo consumidor, que sabia que o Corolla de hoje seria melhor do que o da geração anterior.
Essa evolução foi particularmente acompanhada pela Editoria de Carros e Motos do Correio do Povo, que, desde 1985, testou todas as gerações do Corolla lançadas no Brasil. Mas as características de seu comportamento dinâmico sempre foram as mesmas: a sólida plataforma, que proporciona rodar macio e seguro nos mais variados pavimentos; o conforto interno, relacionado tanto à ergonomia dos bancos quanto à posição privilegiada ao volante; o comportamento impecável nas retas e a precisão nas curvas. E, acima de tudo, a relação de parceria que o Corolla sempre estabeleceu com seu dono. É o “cachorro” querido e fiel, que normalmente ultrapassa os 300 mil quilômetros rodados com manutenção básica. Afinal, o maior valor do Corolla sempre esteve relacionado à sua confiabilidade mecânica.
Mas o Corolla não é passado. A Toyota do Brasil relembra os marcos do modelo no País, começando pelo início da produção na unidade industrial de Indaiatuba, em São Paulo, em 1998. Foi um marco significativo, porque a fabricação nacional ampliou a visibilidade do modelo no mercado brasileiro.
Um dos capítulos mais importantes dessa trajetória aconteceu em 2019, com o lançamento da versão híbrida flex, que permitiu maior economia de combustível com etanol ou gasolina e o auxílio da propulsão elétrica. Seis décadas depois, atualizado em forma e conteúdo, com diversos equipamentos e sistemas gerenciados por inteligência artificial, o sedã elegante e extremamente eficiente continua como referência em qualidade e desempenho na indústria automobilística global.
Os chineses, que surgem como donos do mundo, sabem disso. A publicidade do BYD King transforma o gerente de uma concessionária Toyota em um “semi-infartado” ao saber da chegada do modelo chinês ao mercado. Na realidade, o gerente da concessionária Toyota estaria tranquilo, porque sabe que o Corolla é muito melhor do que o “reizinho” chinês. É mais estável, confortável e seguro. O CM do CP testou um King. Um sedã que não supera a medianidade.
JAGUAR DE NOVO PARA OS MUITO RICOS
A Jaguar, tradicional marca inglesa, perdeu muito de sua credibilidade ao ser vendida para a Ford Motor Company, em 1989, encerrando o ciclo inglês de uma fabricante que produziu alguns dos carros esportivos mais belos e cobiçados do mundo. Quando a Ford comprou a Jaguar, os puristas e fãs da marca temiam que a montadora colocasse os ingleses para comer Big Macs no McDonald's. A preocupação era que a Jaguar deixasse de ser uma marca de nicho para se tornar uma fabricante de luxo acessível a uma parcela maior dos consumidores norte-americanos.
Eram os anos 1990, quando a indústria automobilística norte-americana e a própria Ford exerciam grande poder global. Pois não deu outra. O espírito do “novo-rico dono do mundo” prevaleceu. A Ford, em pouco tempo, comprometeria a imagem sofisticada da marca inglesa com o Jaguar X-Type, lançado em 2001. O sedã médio utilizava praticamente a mesma mecânica e plataforma do Mondeo, modelo destinado à família de classe média.
O CM do CP teve a sorte e o prazer de testar o chamado “Baby Jag” em Detroit, a convite da Ford. Mas foi decepcionante sentir aquele Jaguar se comportar como um Mondeo: um sedã de qualidade mediana e desempenho igualmente mediano. A imprensa especializada norte-americana simplesmente detonou o Baby Jag, que acabou encalhando nos showrooms.
A Jaguar perdeu prestígio progressivamente, até ser vendida à indiana Tata Motors, em 2008. Mas a Tata também não conseguiu fazer a marca decolar, e nenhum modelo notável foi lançado até 2025. Os veículos apresentados ao longo desse período, incluindo os SUVs, eram bons produtos, mas não tinham a aura de esportividade e a diferenciação de desempenho que caracterizavam a Jaguar.
Em outubro de 2026, sob o comando da Tata Motors, a Jaguar apresentou em Nova York o Type 01, um esportivo elétrico que rompe completamente com tudo o que a marca produziu ao longo de sua trajetória, iniciada nos anos 1930. Aliás, o Type 01 não se parece com nada além dele mesmo. Não há referências claras à herança da marca, e nenhum detalhe estético remete diretamente a algum Jaguar do passado.
É um modelo imponente, de linhas quadradas, com 5,24 metros de comprimento e 2.700 quilos de peso. O conforto interno foi definido pela crítica europeia como espetacular. O Type 01 integra uma nova plataforma elétrica que servirá à futura geração de veículos elétricos da Jaguar. O sistema opera a 859 volts e permite o uso de motores elétricos que entregam 1.016 hp e 1.365 Nm de torque, com aceleração de zero a 100 km/h em 3,2 segundos. A autonomia anunciada é de 700 quilômetros, e a recarga rápida permite adicionar 300 quilômetros de autonomia em apenas 13 minutos.
O Type 01 é produzido na Inglaterra, mas seu mercado preferencial é o norte-americano, devido ao grande número de multimilionários do setor de tecnologia que podem pagar US$ 130 mil pelo modelo. O novo Jaguar, cuja missão é tornar a marca novamente desejável e competitiva, será comercializado mundialmente. A Jaguar, que já é representada no Brasil, pretende vender o Type 01 no mercado brasileiro a partir do segundo semestre de 2027.
KIA TEM O SPORTAGE
A Kia já viveu dias melhores, antes que a nova onda chinesa, com ares de tsunami, atingisse o Brasil. Aliás, a marca não chegou a mostrar no mercado brasileiro todo o seu potencial como fabricante competitiva de excelentes produtos. Convém lembrar o sucesso de crítica e vendas do Sportage, lançado nos Estados Unidos em 1995. Até hoje, o modelo é considerado um marco da Kia e foi elogiado em um distante Salão de Genebra, nos anos 2000, pelo então diretor de design da marca, o lendário alemão Peter Schreyer.
Com sua inevitável roupa preta, botinhas roqueiras e óculos também pretos, de aros minúsculos e redondos, Schreyer mais parecia um roqueiro inglês do que um designer alemão. Ele entrou na Kia em 2006, e diversos sucessos da marca, como o excelente sedã Optima, o Kia Forte, também conhecido como Cerato em alguns mercados, e o tremendamente criativo Soul, tinham o toque de seu talento.
O Soul, lançado em 2008, proporcionou uma entrevista valiosa com Peter Schreyer no Salão de Genebra. Ele estava de bom humor e reconheceu o repórter. Quando estava de mau humor, era melhor nem chegar perto. Uma repórter japonesa tentou entrevistá-lo em um desses dias e acabou sendo afastada do grupo de jornalistas que cercava o designer. Em Genebra, Schreyer dedicou atenção exclusiva a este repórter e falou sobre a modernidade do Soul. Na ocasião, em 2008, afirmou que o conceito de SUV conquistaria o mundo.
Parte da genialidade de Schreyer está no design do Soul, que ainda conserva seu poder de atração em 2026. Quanto ao Sportage, embora não fosse uma criação original de Peter Schreyer, a evolução do SUV aconteceu sob sua supervisão.
O Sportage nasceu com o conceito body-on-frame, ou carroceria montada sobre chassi, ainda eficiente em veículos utilitários. Desde seu lançamento, em 1995, demonstrou eficiência dinâmica, dirigibilidade confiável, grande estabilidade e interior caprichado e confortável. O modelo evoluiu ao longo das gerações e ainda apresenta bons níveis de vendas, principalmente no mercado norte-americano, onde os SUVs chineses não têm a mesma presença que em outros mercados.
Por muito tempo, diversas gerações do Sportage passaram pelas avaliações do CM do CP. E sempre se mostraram mais evoluídas. Hoje, o Sportage vende pouco no Brasil devido à concorrência chinesa. Mas é muito superior ao SUV Hyundai Creta e também ao Volkswagen Taos. Enfim, o excelente e evoluído Sportage ainda tem seus fãs pelo mundo afora. Ótimos veículos não morrem.
