Foram dois testes que expuseram sem restrições de utilização os dois novos modelos desta nova entidade denominada Renault - Geely. Os franceses desejam expandir seus mercados pelo mundo em tempos de dominação chinesa expressa nas dezenas de marcas que chegam ao mercado brasileiro. A Geely acaba de comprar uma participação de 26% na Renault. Portanto, a Geely chega ao mercado brasileiro com muito mais força em relação à chegada solitária. A chinesa Leap, que atuava sozinha desde 2019, se associou ao Stellantis num plano de distribuição global de seus veículos, cujo design dos veículos chineses tem mais sinuosidades do que ângulos retos. A exceção é o BYD Mini Dolphin, conformado em ângulos retos.
O Mini Dolphin é sucesso de vendas no Brasil por ser “diferente”. O recém-lançado Geely EX2 faz companhia ao EX5, que chegou ao mercado há dois meses atrás. O EX2, assim como o EX5, é formatado em ângulos suaves, com frente arredondada poderosa que agrada aos sentidos. Mas o Geely EX2 não tem design inovador e prevalecem mais uma vez as sinuosidades que aproximam o design do EX2 do interessante Ora 3 da GWM, Dolphin da BYD ou Aion da GAC. São carros projetados para as grandes cidades do mundo e o Geely EX2 tem apenas 4 metros de comprimento. Os demais chineses são SUVs de grande ou médio porte, como a linha Song da BYD ou Haval da GWM. Em geral, custam muito e são cansativos em trânsito urbano.
Coube ao Boreal iniciar os testes de rodagem na manhã de terça-feira da semana passada na cidade de São Paulo. O teste do Boreal teve mais de 400 quilômetros de rodagem pela rodovia Carvalho Pinto e, após, pela rodovia sinuosa e perigosa que liga a capital à cidade turística de Campos do Jordão. Campos do Jordão está a 180 quilômetros de São Paulo, com mais de 20 milhões de habitantes. Chegamos a Campos do Jordão no final da tarde da terça-feira e nos deparamos com a intensidade de alto risco de um sistema de trânsito formado por ruas estreitas e sinuosas e constantes subidas e descidas: Campos do Jordão tem montanhas a cercá-la. As estradas vicinais sinuosas sobem montanhas e chegam a hotéis turísticos que recebem milhares de turistas a cada ano. Estas estradas escondidas, com curvas desafiadoras sem pavimento, foram um desafio a mais para o Boreal. Um teste exigente de suspensões, que já tinham sido testadas na sinuosa SP-123, que é o trecho final de subida até Campos do Jordão, na altitude de 1680 metros de altura.
Na chegada a Campos do Jordão, o Boreal havia cumprido a primeira fase do teste e feliz estacionou no portal da cidade “enfeitado” com belos bonecos que saúdam o Natal próximo. A estas alturas já havia a certeza de que a Renault acertara: produziu um ótimo SUV. Restavam as considerações finais.
Destino cidade
Para o Geely EX2 o desafio foi, mais uma vez, enfrentar o trânsito de São Paulo, sempre tenso, sempre agressivo. Não dá ser diferente quando mais de 7 milhões de veículos transitam por vias que mais parecem artérias entupidas que necessitam de “cateterismo” urbano. Definitivamente, São Paulo é lugar desagradável para testar qualquer veículo. A “sustentabilidade” do Geely EX2 ficou reduzida diante de uma cidade onde 95% da frota é a combustão. São Paulo, como o resto do Brasil, tem uma rede de recarga para carros elétricos insuficiente. E carregadores caseiros têm sido vetados em um grande número de prédios na capital, devido à incompatibilidade entre a corrente contínua do carro elétrico e a corrente alternada.
Ainda há o temor de incêndio da bateria de lítio nas garagens dos prédios. Esta é uma situação rara e atípica, que demonstra que há muita desinformação sobre o uso do carro elétrico. E a publicidade da Geely optou por um casal artístico com filhos “perfeitos”. O clima é de “conto de fadas” e não ajuda na compreensão da real qualidade, praticidade e segurança do EX2. A publicidade mostra ao público que o pequeno porta-malas na frente é na verdade um “fronta-malas”. Um eufemismo desnecessário.
O EX2, na síntese, está abaixo em dirigibilidade em relação ao EX5, que é mais robusto e consistente diante do péssimo pavimento que praticamente está em todas as cidades brasileiras. O EX2 é mais sensível em relação às imperfeições dos pavimentos em comparação ao mais robusto EX5. Assim mesmo, mantém suficiente conforto de marcha que preserva o motorista. Para tirar dúvidas quanto à manobrabilidade, o piloto de testes praticou um “slalom” na pista de testes improvisada na área do aeroporto de Campo de Marte. O CP imprimiu um ritmo forte no slalom, onde o Geely EX2 mostrou seguro comportamento dinâmico nas manobras bruscas à direita e à esquerda na ultrapassagem de cones. A excelente estabilidade é característica dos SUVs elétricos da Volvo, que é marca da Geely, mais caros e sofisticados em relação ao pequeno EX2. A Geely espalha uma tecnologia consistente em sua linha elétrica e a combustão. Mas é desagradável ser elétrico numa São Paulo movida a combustão com frota elétrica diminuta. Assim é em todo o Brasil. As montadoras chinesas entenderam logo que esta disparidade entre elétrico e combustão vai prosseguir no Brasil no mínimo pelos próximos 20 anos. Os chineses já deram um assustador “cavalo de pau” e passaram a oferecer carros híbridos que invariavelmente têm motor a combustão. Num mundo onde o bom senso projetava o carro elétrico como um sólido pilar na contenção do aquecimento global, a esperança se dissipa no passadista hibridismo. E convém lembrar que o primeiro carro híbrido foi lançado pela Toyota em 1997.
Tecnologia necessária
Voltamos ao primeiro teste do Boreal. E temos que louvar a coragem da Renault que lança um SUV de porte médio a combustão quando as rivais são híbridas em sua maioria: o sucesso da linha Song da BYD ou o Haval da GWM são líderes de mercado. Não será fácil o caminho do Boreal, que não poderá apresentar os argumentos dos concorrentes que anunciam autonomia acima de 1000 quilômetros e média de consumo de mais de 30 quilômetros em trânsito urbano. O Boreal consome 11,2 km por litro de gasolina na estrada e 10 km por litro na cidade.
Assim mesmo, a Renault, que domina a eletrificação, não apelou para o hibridismo. Não por uma questão tecnológica — é questão mercadológica — mesmo porque a assistência técnica para carros a combustão, ao menos no Brasil, é 40% mais barata em relação a veículos híbridos, que têm duas fontes de propulsão. Convém lembrar que a Renault foi pioneira na produção em série de carros elétricos com linha completa, com Zoe, Kangoo elétrico, Fluence elétrico, etc., apresentada no Salão de Frankfurt de 2011. A linha elétrica mostrou que a Renault chegara cedo demais à eletrificação. E voltou para a combustão, ainda majoritária na linha da montadora.
Os ambientalistas gostariam que o Boreal fosse elétrico. Mas então custaria bem mais que o Boreal a gasolina, cujo preço inicia na versão Evolution em R$ 179.990 e chega aos R$ 215 mil da versão topo de linha Iconic. São preços competitivos diante da concorrência no segmento. Mas o Boreal contrapõe o pensamento ecológico associado ao automóvel que deseja a total eletrificação no plano global. O problema é que o veículo a combustão é ainda necessário e eficiente. Dotado de motor 1.3 turboflex com 163 hp, o Boreal impressiona pela agilidade e torque de 27,5 kgfm, que facilita o uso urbano. Há sempre torque e potência disponíveis em uso rodoviário e urbano. No teste prevaleceu o uso rodoviário. Na rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro, ou SP-123, de São Paulo a Campos do Jordão, que o Boreal mostrou seu notável equilíbrio dinâmico. O SUV não inclina em excesso em curvas graças ao acerto das suspensões. O que surpreende é que o Boreal utiliza eixo de torção na traseira, que poderia gerar instabilidade. Mas a engenharia da Renault fez um ótimo trabalho no eixo traseiro do Boreal. A suspensão dianteira é uma tradicional MacPherson com regulagem que propicia precisão na dirigibilidade. Há fatores tecnológicos em prol da direção segura: controle adaptativo de velocidade com Stop & Go, assistente de linha reta, frenagem automática emergencial, detecção de obstáculos com câmera 360 graus, alerta de tráfego cruzado traseiro, detector de ponto cego, também auxiliado por câmeras e sistemas geridos por centenas de sensores.
O alto nível de informatização no Boreal pode ser manuseado nas telas táteis de 10 polegadas que contém multiplicidade de recursos, incluindo o sistema Open RLink desenvolvido em parceria com o Google, que oferece serviços “nativos” com Google Maps e Google Assistente. No resumo, o Boreal é um veículo de alta qualidade construtiva e dinâmica. É possível que a Renault lance uma versão elétrica.
