Foram 9 dias em teste com o Geely EX2, cedido pela Renault e Geely do Brasil. Afinal, a francesa e a chinesa se associam no Brasil para produzirem veículos para as duas marcas nos mercados do Brasil e da América Latina. Afinal, os chineses sabem que a produção localizada é muito mais eficiente em relação às importações, que não aproveitam o potencial humano e tecnológico do país "hospedeiro".
Mas a entrada da Geely como produtora local tem sido rápida e efetiva, na medida em que em breve o Geely EX2 será um produto "brasileiro", com alto nível de nacionalização de componentes. O EX2 será produzido numa unidade industrial do Complexo Ayrton Senna da Renault. Convém lembrar que um carro elétrico tem 70 por cento a menos de componentes em relação ao carro a combustão. A produção do carro elétrico é o caminho para o silêncio, que no EX2 é quase "absoluto". Ao contrário de uma Ferrari ou Porsche, filhos pródigos de marcas que gastam milhões de dólares para que seus carros "urrem" como leões selvagens, famintos e maldosos. Porque carro a combustão que "urra" excita o proprietário que deseja domá-lo. Afinal, o homem das cavernas levou milhões de anos para evoluir, mas apenas um século para se viciar em barulhos variados de alta intensidade, associados, no correr das décadas, aos carros esportivos. Que associaram o ego às orelhas, poderosos captadores sonoros. O ego que entra pela orelha.
Na BR-101, na velocidade legal, o silêncio quase total no habitáculo não transparecia os mais de 120 por hora. No EX2, o silêncio é o amigo que gera tranquilidade na alma e suavidade a bordo. No carro elétrico, o silêncio estimula a concentração do motorista, que tem suas percepções ampliadas pelos sistemas eletrônicos de ajuda à condução, que não permitem, por exemplo, que o EX2 deixe a linha reta. O hatch da Geely tem impecável estabilidade direcional e convincente estabilidade lateral, embora seja um carro com distância elevada em relação ao solo, devido ao pack de baterias colocado junto à plataforma. Apesar de sua sofisticada tecnologia, o Geely EX2 não renega sua origem "caseira", na medida em que o motorista chinês adora o giro leve do volante, que contraria a preferência do motorista brasileiro, que gosta de volante com esterço mais firme. A leveza do esterço exige cuidado em curvas, porque surge a sensação do carro "solto", que balança mais do que devia e que pode ser instável. É só uma impressão, porque o EX2 é muito estável. As leves oscilações da carroceria são resultado da opção da engenharia chinesa em gerar um alto nível de conforto para os ocupantes. Um extremo conforto de marcha.
Para quem se inicia no carro elétrico, o EX2 pode ser a melhor escolha. Afinal, combina agilidade na performance com uma sensação de segurança contínua, sustentada por suspensões que integram uma multilink na traseira, que amplia esta percepção do carro seguro. O EX2 tem modos de condução que vão do Eco ao Comfort e Sport.
No modo Sport, os 216 hp parecem muito mais no torque arrebatador, enquanto o controle eletrônico enrijece o volante. Neste modo Sport, o consumo de energia é maior. Não é para ser utilizado de forma constante.
O EX2 rodou em cidade e, mais ainda, na BR-101, em diversas viagens de Porto Alegre a Imbé, a 120 quilômetros de Porto Alegre. O piloto de testes, a serviço de CM do Correio do Povo, mora em Imbé e se deslocou para Porto Alegre, vice-versa, por diversas vezes. Nas viagens foi constatada uma autonomia de 370 quilômetros à velocidade média de 100 quilômetros horários. Mas, para garantir a volta segura, a velocidade era reduzida para 80 quilômetros horários. Em qualquer carro elétrico, a alta velocidade é sempre inimiga da autonomia.
Aliás, este é o desafio da Geely e das concorrentes: ampliar a autonomia do carro elétrico. Uma meta que em breve será alcançada. Foram percorridos mais de 1.200 quilômetros em 9 dias. Além da análise da performance do EX2, foi evidente que o Brasil necessita de uma estrutura ampla e consistente para a eletrificação da mobilidade. Mas deve haver o apoio do poder público.
Porque não dá para confiar somente na exceção que é o número de carregadores que se expande nas grandes cidades. Mas ainda são poucos os carregadores instalados em edifícios e condomínios, que sustentam uma frota em contínua expansão. No teste, o EX2 foi recarregado em pontos privados com poucos carregadores. Alguns ao ar livre, em lugares perigosos da cidade.
Aliás, qual a via pública isenta de perigos no Brasil? E não viaje com carro elétrico para lugares distantes nos finais de semana. Neste caso, a espera pela recarga será longa. No teste, a busca por um carregador nos pontos de recarga do grupo que representa a Geely foi infrutífera. Todos os carregadores ocupados. Finalmente surgiu um ponto de recarga privado que, milagrosamente, tinha um carregador disponível. Mas foi uma experiência desagradável, que justamente denuncia a carência de carregadores.
A IDADE DA PEDRA
A modernidade do carro elétrico e sua grande eficiência energética se chocam, literalmente, com o primitivismo do sistema viário do Brasil. No último dia do teste, um triste episódio deprimiu o piloto de testes e causou danos materiais.
Num trecho em obras, sem sinalização, em avenida da praia de Imbé, o EX2 se chocou contra um bloco de cimento deixado, irresponsavelmente, na lateral da pista de rolamento. Uma manobra à direita para dar passagem a veículo que pressionava pela traseira induziu ao choque da roda dianteira direita contra o bloco de concreto.
Sorte que o EX2 vinha a 20 km por hora, porque entraria no estacionamento de supermercado. Assim mesmo, o forte "estouro" que veio da plataforma trouxe o medo instantâneo de que algo atingira a plataforma do carro. A saída rápida do habitáculo para verificação imediata do que acontecera. Ali estava um bloco de cimento que, pelo impacto, se alojou entre a roda e o guarda-lama. Visível o dano no braço da suspensão dianteira. Final do teste: carro danificado, tremendo estresse e a certeza de que grande parte das vias no Brasil ainda está na era da pedra lascada.
O estágio primário que os desbravadores encontravam nas trilhas pedregosas e barrentas lá por 1850. Nada mudou. O pior é que, nestes casos, o culpado é quem dirige. O bloco de cimento, que podia ter gerado o capotamento num grave acidente, é absolvido. Uma semana após o acidente, o bloco de cimento continua meio escondido na via em construção. E não parece envergonhado.
