Carros & Motos

Um ano de crises, transformações e reflexos no mercado automobilístico

Impactos geopolíticos, econômicos e sociais abalam marcas globais, desafiam o trânsito brasileiro e redefinem a dinâmica do setor

Polo foi líder do mercado
Polo foi líder do mercado Foto : VW / Divulgação CP

Ano difícil para as grandes marcas globais, que viram as vendas encolherem nos maiores mercados do mundo devido às diversas crises geopolíticas, as quais geraram distorções no mercado mundial. Os terroristas huthis direcionaram mísseis a navios carregados de componentes mecânicos, eletrônicos e carros no Mar Vermelho, uma passagem marítima vital e crítica para o comércio global, localizada nas margens de países com presença de terroristas, como Somália e Iêmen. Essa passagem é fundamental para o trânsito de veículos, pois conecta os produtores na Ásia e China com a Europa.

As interrupções causadas pelos ataques com mísseis de grande poder destrutivo geraram um efeito colateral danoso, e o consumidor global pagou mais caro pelo carro chinês em 2024 devido à mudança de rota. Agora, os grandes navios passam pela costa africana e cruzam para o Mar Mediterrâneo pelo perigoso e tormentoso "Cabo da Boa Esperança". Essa alteração aumentou o preço do frete em milhares de dólares. Convém lembrar que, pela rota do Mar Vermelho, da Ásia para os portos da Europa e Estados Unidos, passam mensalmente 33% do tráfego global de contêineres, além dos enormes navios "roll-on/roll-off", que carregam, em média, 5 mil veículos por viagem.

A BYD opera uma frota desses navios, frequentemente vistos nos portos de Vitória e Rio de Janeiro. A empresa evita o porto de Santos para que não sejam colocadas toneladas de cocaína nos cascos, já que 2024 também foi o ano da "droga do PCC" no Brasil.

Os rebeldes Houthis, apoiados pelo Irã, são inimigos mortais de Israel e, nos ataques a navios, retaliaram ações israelenses em Gaza. Mencionar a rota do "Mar Vermelho" expõe a fragilidade do sistema de transporte diante de um mundo cada vez mais bélico e complexo. Por exemplo, marcas como Tata Motors, Tesla, Volkswagen, Mercedes-Benz e BMW, entre outras, foram prejudicadas pelo "GPF" (Geo Political Factor). Esse "fator geopolítico" impede que componentes produzidos na China, Taiwan ou Vietnã cheguem às unidades industriais dos fabricantes no Ocidente.

Por enquanto, nada indica que essa "disrupção" será interrompida, pois as causas permanecem. E ninguém acredita que haverá paz no Oriente Médio.

BYD Song ficou entre os mais vendidos | Foto: BYD / Divulgação CP

Em 2024, o mercado global recuou, e os carros elétricos "desceram a ladeira". Essa expressão irônica reflete a economia de carga de íons de lítio da bateria, mas o recuo nas vendas denuncia problemas nas maiores economias do mundo. A China, por exemplo, enfrentou problemas estruturais em 2024. O setor imobiliário chinês apresentou um excesso de oferta para uma baixa demanda, o que levou à crise. Empresas da construção civil, que empregam milhares de trabalhadores, tiveram que demitir, algo atípico e temerário para o governo chinês, sempre preocupado em manter emprego para 1,4 bilhão de pessoas.

O recuo no poder de compra assustou os chineses, poupadores natos, que postergaram a compra do "carro zero". A China planejava vender mais de 30 milhões de unidades no mercado interno, mas vendeu muito menos. O excedente de produção foi estimado, no segundo semestre de 2024, em mais de 10 milhões de unidades. Assim, o governo comunista, que gere e domina a economia, saiu em busca de mercados disponíveis no mundo ou livres de pesados impostos sobre a produção chinesa, como os 100% aplicados na Comunidade Europeia.

Nos Estados Unidos, o carro chinês pode ser taxado em 200%, em mais um ato unilateral e agressivo de Donald "Crazy" Trump, como a imprensa norte-americana o apelidou. O Brasil, entretanto, ainda é um porto seguro e receptivo ao carro chinês, refletindo no "tsunami" de novas marcas que chegam, como Zeekr, Omoda, Jaecoo, Polestar, Geely, Neta e Leap Motor.

Resta saber se haverá poder aquisitivo no Brasil, assolado por dólar especulativo e juros abusivos, para dividir entre tantas marcas. A BYD importou, em poucos meses de 2024, mais de 120 mil unidades, mas agora vê seus carros nos entrepostos aduaneiros dos portos, sem compradores. Os estoques dos revendedores crescem diariamente, e a crise na BYD se agrava. A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) pede a volta imediata do imposto de importação de 35%, o que pode frustrar as expectativas dos chineses e induzir uma mudança de estratégia no Brasil.

A produção local da BYD e GWM só deve começar em 2026. É melhor não arriscar previsões, especialmente em um mundo cada vez mais instável, onde clima e economia estão interligados.

Mesmo porque, em um mundo cada vez mais instável no clima e na economia – fatores que se relacionam –, as previsões têm vida curta, como o preço do dólar, que oscila conforme alguém faz um comentário no "bar da esquina". O final de 2024 é surrealista, digno do retorno do genial Salvador Dalí, o "pai do surrealismo".

Trânsito piorado

A publicidade sobre carros no Brasil sempre teve a cobiça e a inveja como "essência filosófica". O efeito social dessa mensagem é totalmente equivocado e vai além da venda do carro. A geração na faixa dos 30 anos ou mais encara o automóvel como "minha cidadela", que não pode ser ameaçada. Assim, surgem os "enfrentamentos à bala" em banais brigas de trânsito. O "sagrado" direito de ver o carro como um "valor absoluto" faz com que o motorista brasileiro não admita ser questionado por uma colisão traseira ou um arranhão na porta.

Recentemente, o pontapé de um motociclista no retrovisor de um Porsche, em São Paulo, resultou numa perseguição implacável e na morte do motociclista, esmagado contra um muro. Portanto, embora existam novas tecnologias nos automóveis voltadas à segurança ativa e passiva, o comportamento de muitos motoristas ainda reflete uma mentalidade pré-histórica, onde prevalecia a "lei do mais forte".

É necessário conscientizar cada vez mais que o automóvel deve ser visto como um bem social em cidades, onde dirigir deve ser um ato de socialização e, muitas vezes, de resignação e paciência. Quer uma pista livre? Quer correr? Alugue um autódromo. Em cidades e rodovias, a alta velocidade, devido ao fluxo intenso de veículos, sempre representará risco de morte.

O mau comportamento do motorista brasileiro estagnou há décadas. O ego inflado, narcisista, insiste em atos carregados de imaturidade e impulsividade, que, na maioria das vezes, levam à morte precoce. Em 2024, mais de 50 mil pessoas morreram em acidentes de trânsito no Brasil, e nada indica que esse número será reduzido em 2025.

Por outro lado, há veículos mais seguros à disposição. Os testes de impacto promovidos pelo Latin NCAP demonstram que há uma nova geração de carros seguros no mercado. O brasileiro precisa repensar sua preferência por carros "bonitos" ou SUVs com o maior porta-malas, considerando que um saco de supermercado não é um airbag.

Kardian foi novidade com foco em segurança | Foto: Renaut / Divulgação CP

Não há justificativa, hoje, para um consumidor não se informar sobre os resultados dos testes de impacto do Latin NCAP, disponíveis na internet. Nos últimos meses, soubemos que o Citroën C3 Aircross é um SUV "zero estrela" nos testes de impacto, portanto, inseguro. Já o Renault Kardian recebeu "cinco estrelas" na proteção de adultos e crianças. O BYD Dolphin também alcançou cinco estrelas nos testes, com total credibilidade do Latin NCAP.

São veículos que podem ser adquiridos por oferecerem maior segurança em acidentes. Evidentemente, em colisões de alta velocidade, nem mesmo cinco estrelas podem garantir a vida, mas medidas preventivas que promovam um trânsito mais seguro devem ser implementadas. Por exemplo, a inspeção veicular obrigatória deve ser estabelecida de forma definitiva, promovendo a retirada gradual de veículos inseguros e potencialmente mortais.

Talvez uma fada preocupada deixe algum parque da Disney e venha para o Brasil. Com sua "vara de condão", faria um "pirilimpimpim" para mudar o comportamento do motorista brasileiro, reduzindo o número de mortes para menos de 20 mil em 2025. O problema é que essa fada não vive no mundo real. E provavelmente nem deixaria a Disney, com medo de ser demitida. É provável que a violência no trânsito de 2025 seja a mesma de 2024, ou pior, já que mentalidades não mudam por mágica.

"Voz do povo, voz de Deus." Às vezes, a "sabedoria popular" funciona, mas não no mercado automobilístico brasileiro, onde o ditado que louva a humildade – "os últimos serão os primeiros" – não se aplica. Veículos que ocupam posições inferiores no ranking dificilmente têm futuro garantido.

Os dez primeiros colocados refletem o conservadorismo e a limitação de recursos do consumidor brasileiro, que prefere adquirir veículos "testados e aprovados" no mercado, com alto grau de confiabilidade. A chamada publicidade "boca a boca" promove ou estigmatiza modelos.

Os três primeiros colocados são veteranos: Polo, Strada e HB20, que passaram 2024 sempre entre os mais vendidos. O Polo, lançado nesta geração em 2017, se destacou como um carro prático, econômico e com sólida performance. Sucesso da Volkswagen.

A Strada, um veículo prático que soube evoluir, ganhou em 2024 um motor 1.0 turbo flex com 130 hp, ampliando o prazer de dirigir. Sua estética evoluiu com uma bela grade frontal hexagonal e faróis elipsoidais estreitos, conferindo esportividade à dianteira. Os bancos mais largos e ergonômicos e o acabamento interno refinado também ajudam nas vendas.

O HB20, lançado em 2012, continua a evoluir em tecnologia e design, mantendo-se como uma boa relação custo-benefício para o consumidor brasileiro. Em dezembro, vendeu 13 mil unidades.

Mais Lidas