Em quatro dias, duas realidades da combustão e da eletrificação passaram pela CM do CP. Nos testes do elétrico Ora Skin, um carro urbano com design "enfezado" que até parece um mini Porsche, constatamos o sucesso do modelo tanto na China quanto no Brasil. Em seguida, testamos o conceito "Heritage" de um veículo clássico movido a gasolina, que ainda tem admiradores, especialmente no mercado norte-americano. Afinal, o Jeep Wrangler é o mito "off-road", testado na versão 2019, cedida pela revenda Savarauto Multimarcas.
O Wrangler 2019 é considerado a melhor versão desde o lançamento do modelo nos Estados Unidos, em 1987. Inicialmente produzido pela divisão Jeep da Chrysler, depois pela FCA (Fiat Chrysler Automobiles), o Wrangler passou a ser fabricado pela Jeep, uma marca que integra o Grupo Stellantis desde o final de 2021. Já o Ora é uma novidade no mercado global, graças à expansão da indústria automobilística chinesa. Ao contrário do Wrangler, importado sem pretensões de ser "made in Brazil", o Ora pode ser produzido no país, na unidade industrial da GWM, em Iracemápolis, interior de São Paulo. Essa grande e tecnológica fábrica iniciará sua produção no Brasil no primeiro semestre de 2025. O primeiro produto da GWM será o SUV de porte médio Haval, um híbrido que já é sucesso mundial.
É verdade: a indústria automobilística chinesa, graças à qualidade dos seus produtos, está sendo aceita quase sem restrições no mercado global.
CM do CP testou inicialmente o Wrangler 2019, impecável na conservação e surpreendente na performance. Ele remete ao conceito "heritage", do veículo que foi lançado em 1987 nos EUA e que continua a ter ampla aceitação. A Jeep data de 1941 e pode ser chamada de "heritage" porque seus veículos ajudaram as tropas aliadas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. O Wrangler é pura herança, uma herança orgulhosa que os chineses ainda não possuem.
Durante dois dias e mais de 300 quilômetros rodados com o Wrangler, o "conceitual" ficou de lado, já que o foco era testar sua performance com motor a gasolina. O futuro dirá se o Wrangler a combustível fóssil continuará em produção, decisão que dependerá de legislações ambientais cada vez mais restritivas, as quais podem encurtar substancialmente a permanência dos veículos a combustão no mercado global. O Wrangler foi lançado no Salão do Automóvel de Chicago, em 1986, e está agora em sua quarta geração. Melhor não contestar a tradição da marca Jeep, saudada pelo presidente Eisenhower no pós-guerra. O mítico presidente referiu-se ao glorioso Jeep como "uma das três armas decisivas dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial", contrastando com a destrutividade da "bomba atômica".
O Wrangler testado foi da versão Sahara 2019, que continua em produção. O modelo passou por uma profunda reformulação estética e tecnológica em 2018, que se mantém como referência na linha Wrangler 2024. Em 2018, a linha recebeu o potente motor 2.0 turbo intercooler de quatro cilindros, com 272 cv e 400 Nm de torque. Até hoje, essa é uma "usina de força" com ampla faixa de torque, permitindo retomadas enérgicas de velocidade sem esforço. O câmbio automático de oito velocidades aproveita integralmente a potência e o torque. O Wrangler é veloz em rodovias e ágil no trânsito urbano, também devido às suas medidas compactas: 4.237 mm de comprimento, 1.894 mm de largura, 3.008 mm de entre-eixos e 1.860 mm de altura. Essas dimensões ampliam a manobrabilidade do Wrangler na cidade, onde ele não se torna um "estorvo" em congestionamentos. Na sinuosa BR-116, o Wrangler mostrou um alto nível de estabilidade direcional e lateral, surpreendendo por ser um veículo construído em carroceria sobre chassi com dois eixos rígidos, mas com uma condução suave no asfalto.
O veículo não foi testado em seu "habitat natural", que são trilhas e terrenos intransponíveis para veículos comuns, mas o acabamento interno é refinado. Esta versão 2019 já apresentava uma tela digital central e um "cluster" digital para o motorista. Os bancos são confortáveis e ergonômicos, e o amplo espaço interno sustenta a herança ou "heritage" com modernidade, sem esforço.
Já o Ora Skin, cedido pela Iesa GWM, vem de um país com "heritage" por todos os lados, com monumentos, construções e crenças que já duram cinco mil anos. No entanto, a China não tem essa mesma "heritage" quando se trata de sua indústria automobilística, que é recente em comparação às indústrias europeias e norte-americanas, ambas com mais de cem anos de história. Henry Ford, por exemplo, já tinha uma linha de montagem em 1910. A indústria automobilística da China, especialmente sua eletrificação, começou a ser planejada em 2001, nas primeiras diretrizes do governo comunista para a eletrificação total da frota. Entre 2011 e 2018, a China consolidou a eletrificação da indústria com investimentos trilionários divididos entre o governo e a iniciativa privada. A GWM, fabricante do Ora, produziu seu primeiro carro elétrico, o GWM C30 EV, em 2015. Se a Muralha da China tem 3.000 anos, o carro elétrico chinês tem apenas alguns anos, mas com criatividade e determinação, parece um adulto talentoso.
O Ora Skin sintetiza o esforço chinês para produzir alguns dos melhores carros elétricos do mundo, o que surpreende, já que, até recentemente, os chineses produziam carros a combustão de baixa qualidade, como o notório JAC T3, que fez sucesso no Brasil após seu lançamento em 2011, mas gerou arrependimento nos compradores. Hoje, a mesma JAC produz SUVs e hatches elétricos com qualidade, mostrando uma clara evolução.
O Ora Skin percorreu 250 quilômetros em dois dias e ainda restava carga na bateria de íon-lítio. A autonomia do Skin, segundo a GWM, é de 277 quilômetros, mas de acordo com o Inmetro, é de 232 quilômetros. Ao que parece, os técnicos do Inmetro têm "pé pesado", pois a autonomia fornecida pelo órgão governamental é sempre inferior à obtida em uso normal. Em um teste anterior com a versão esportiva Ora GT, foram percorridos 400 quilômetros em três dias. No carro elétrico, a forma de dirigir deve ser suave; pouca pressão no acelerador pode ampliar a autonomia em mais de 30%.
Foi uma experiência prazerosa com o Skin, um carro de tecnologia avançada, que inclui sistemas de auxílio à condução, como o "assistente de linha reta", frenagem automática de emergência, freios a disco nas quatro rodas, além de câmeras e sensores que alertam o motorista para obstáculos, ampliando o nível de segurança ativa. A condução do Ora é sempre precisa. Ele foi ajustado para o mercado europeu, especialmente para franceses e alemães, que exigem precisão e rigidez no volante e suspensões.
No Ora Skin, e ainda mais no GT, a precisão nas manobras é garantida por um conjunto mecânico formado pelo motor, volante e suspensões, com uma performance surpreendente. O pequeno Ora, com seu torque poderoso, faz de 0 a 100 km/h em 7,4 segundos. Para comparação, o Fiat Pulse Abarth, com motor a gasolina de 185 cv, faz de 0 a 100 em 7,6 segundos. Essa diferença se deve à eficiência da "corrente contínua" dos carros elétricos, que traciona o veículo sem as intermediações mecânicas que reduzem a potência na combustão.
Estar entre essas duas realidades em uma semana — o ícone da gasolina, o Wrangler, e a alternativa elétrica do Ora — foi uma experiência enriquecedora. Transitar entre um passado e presente que exigem inovações, e um futuro que se abre para novas possibilidades com o carro elétrico, foi uma jornada prazerosa, assim como são os prazeres de dirigir tanto o Wrangler quanto o Ora.
