O novo single da banda porto-alegrense de hardcore/metal Diokane traz uma abordagem tão contundente quanto necessária sobre a maior tragédia climática gaúcha. “Cheiro de Enchente” expõe o drama no Estado também pela percepção do caos a partir do forte odor do lodo, do lixo e dos detritos que se acumularam pelas cidades durante e após as inundações de maio de 2024.
Segundo os integrantes, a composição é um relato do que se viu e sentiu durante a catástrofe, com base, principalmente, no que foi testemunhado ou mostrado na imprensa do RS. Para retratar com ainda mais força e expressão artística o tamanho da tragédia, a música chega acompanhada de documentário e clipe com imagens da catástrofe e depoimentos de quem sofreu diretamente as consequências.
Descrever a percepção olfativa do que se sentiu em meio ao caos é uma tarefa complexa, conta a banda, formada por Homero Pivotto Jr. (voz), Billy Valdez (baixo), Rafael Giovanoli (guitarra) e Gabriel ‘Kverna’ Motta (bateria). De acordo com os músicos, várias recordações sobre o assunto estão registradas na canção, como a fetidez que cessou conforme as estruturas que resistiram às chuvas foram secando e sendo limpas, mas deixou as marcas da inundação histórica. O single resgata, além das paredes ainda encardidas com as indicações da altura em que a água chegou, a memória de quem sofreu com a força da natureza e com a falta de urgência do poder público para prevenir ou mitigar desastres climáticos.
A composição foi gravada no estúdio Black Stork, com produção de Thiago Caurio, baterista da Atomic Elephant. A mixagem e a masterização ficaram sob responsabilidade de Renato Osório, guitarrista da Atomic Elephant e produtor que já trabalhou com Híbria, Distraught, Leviaethan e outros. A arte da capa é de Rafael Giovanoli.
O vocalista da banda Pull The Trigger, Tiago “Taz” Freitas Severo, participa da faixa. Ele é morador da Vila Farrapos, zona norte de Porto Alegre, e perdeu praticamente tudo que tinha na residência em que morava com os pais e a filha, precisando sair resgatado por um barco. Taz canta junto o refrão: “O cheiro da enchente / mal-estar evidente / da náusea à dor / desamparo latente”.
Testemunhos da destruição
A produção audiovisual de “Cheiro de Enchente” é dirigida por Billy Valdez, com fotografia, operação de câmera e assistência de direção de Leandro Monks. Além de depoimentos de vítimas, traz cenas do cataclismo misturadas com takes da banda tocando.
As imagens do grupo ao vivo foram captadas no Áudio Porco, estúdio no bairro Cidade Baixa, região central de Porto Alegre. No local, o refluxo do esgoto e a água que o sistema de bombeamento não deu conta de escoar fizeram com que o líquido empesteado chegasse a 1 metro e 20 centímetros dentro do estabelecimento, que fica abaixo do nível da rua. O estrago obrigou o empreendimento a interromper os serviços por cerca de 60 dias e demandou investimento não previsto para reformar o mobiliário atingido.
Assim como Moisés Augusto Rodrigues, proprietário do local, relata o que vivenciou na época e o medo de novas catástrofes, outros diversos personagens da vida real contam o trauma que passaram naquele maio de 2024, como as perdas de vidas, moradias, negócios e de suas memórias.
A banda, criada em 2016 e que tem no repertório o EP “This is Hell We shall Believe”, de 2018, lança novo trabalho carregado de força artística na composição e ao mesmo tempo de sensibilidade no tema ao dar voz a quem viveu a agonia da tragédia histórica. A música e seu clipe chegam para causar desassossego e potente reflexão, em sintonia com a proposta da Diokane, que, assim como a expressão em italiano “diocane” que deu origem ao nome do grupo, é raiva canalizada em forma de som e expressão ruidosa que surge do descontrole.
Veja o documentário/clipe:
Ouça também nas plataformas:
Curta o Cena Rock também no Instagram e no Facebook
Contato: alecia@correiodopovo.com.br
