O filme “O Liberdade”, de Cíntia Langie e Rafael Andreazza, é umdocumentário sobre o bar “O Liberdade”, de Pelotas (RS), que, durante
o dia atende a trabalhadores e, nas sextas e nos sábados à noite, é um
reduto de músicos de chorinho. O documentário registra com
sensibilidade a dedicação dos músicos que se apresentam no local.
Entre eles, o cavaquinista Joaquim Assumpção Avendano Júnior,
conhecido como Avendano. O filme acaba por ter imagens raras deste
músico, que aprendeu a tocar cavaquinho praticando solitariamente por
5 anos e ouvindo os discos de Waldyr Azevedo, com quem depois trocou
inúmeras cartas. Avendano se reuniu a outros amantes do chorinho para
formar o grupo que encantava a boemia do Liberdade, mas veio a falecer
em junho de 2012, de maneira que o filme se tornou, portanto, um
tributo ao instrumentista.
Este longa-metragem, que é o primeiro de Cíntia Langie (também
professora da UFPel), faz um trabalho de resgate histórico deste grupo
de Pelotas, mas consegue mais do que isto: capta a atmosfera musical
do lugar. Além de um ótimo trabalho de pesquisa, esta produção também
tem como ponto forte a sua montagem, também assinada por Cíntia, que
consegue imprimir dinamismo ao filme, afastando-o do gênero de
documentários enfadonhos. Esse dinamismo da edição se pode ver, entre
outras coisas, quando o som das entrevistas com determinado músico
corre enquanto imagens em diferentes pontos da cidade surgem perante
os olhos, em locações importantes de Pelotas, como o Theatro Guarany
ou no clube comercial, ou quando dançarinos entram em cena. Foi uma
boa escolha, visto que, se os músicos falassem sempre no mesmo lugar,
no caso, o bar, o filme poderia ter ficado cansativo.
O som captado diretamente por Lauro Maia e Davi Mesquita e finalizado
por Maia também é de excelente qualidade e deve dar origem a um CD. A
diretora comenta que uma de suas inspirações foi o filme “Buena Vista
Social Club”, de Wim Wenders, sobre um grupo musical cubano.
O longa-metragem também conta com uma participação de Vitor Ramil
cantando uma música e do violonista Yamandu Costa dando um depoimento
e tocando um chorinho. A diretora conta que a escolha de Yamandu foi
uma estratégia para dar legitimidade à qualidade dos integrantes do
grupo pelotense. "Foi nossa solução para que não ficasse apenas um
filme apenas com músicos pelotenses falando", explica Cíntia.
"O Liberdade", que recebeu o prêmio de Melhor Documentário do Mercosul
pelo Júri Oficial no 16º Festival Audiovisual do Mercosul
(Florianópolis/Brasil), é portanto uma boa surpresa. Traz boa música e
personagens simples, mas extremamente simpáticos e carismáticos. É um
filme que faz com que se preste atenção no nome de Cíntia Langie para
seus próximos trabalhos.
Por Adriana Androvandi
