Para quem tem interesse por artes visuais, o documentário "Ai Weiwei: Sem Perdão", dirigido por Alison Klayman (EUA, 2013, 90 minutos), é uma das produções imperdíveis. O artista chinês, filho de poeta, passou 10 anos de sua vida nos Estados Unidos, onde estudou arte e se acostumou com uma vida cultural intensa. Ao retornar para a China, especialmente porque seu pai estava doente, ele estranhou a falta de exposições que não fossem as permitidas pelo governo e especialmente de debates sobre ideias e criatividade. Começou, então, ao lado de outros artistas, um movimento clandestino, vendendo livros onde se podia publicar qualquer coisa, e que depois ficariam famosos como os livros de capa preta, branca e cinza. Tudo isto o próprio artista conta no filme.Wei Wei foi ganhando notoriedade também pelo uso da Internet, escrevendo cerca de dois textos por dia em seu blog e usando redes sociais como o twitter. Internacionalmente, era convidado para grandes mostras na Europa. Sua participação como consultor artístico para a construção do estádio "Ninho de Pássaro", sede das Olimpíadas de Pequim em 2008, o catapultou ainda mais à fama de personalidade da cultura chinesa.
Como a China é um país com regime fechado e ditatorial, onde a plena liberdade de expressão ainda é um direito a ser conquistado, o filme é uma ótima oportunidade para conhecermos um pouco mais dessa nação, visto que nem sempre chega ao Brasil produções realizadas por lá ou sobre a sua realidade interna. Em uma luta para transparência, o protagonista do filme se tornou um ativista político dentre os mais críticos ao sistema governamental chinês. E usa arte para fazer denúncias e divulgar ideias. É o caso de uma exposição em que usou mochilas escolares para homenagear estudantes mortos no terremoto de 2008 em Sichuan, na China. A frase de uma mãe de luto pela perda da filha se tornou um slogan da mostra: “Ela viveu feliz por sete anos”. WeiWei culpa o governo por obras mal feitas em diversas escolas, o que teria sido responsável pelo maior número de perdas. Aliás, o número de vítimas nunca foi divulgado pelo governo chinês. Por isso, WeiWei, com apoio de voluntários, fez uma pesquisa própria em várias localidades. O resultado, colocado em listas com os milhares de nomes, se tornou uma de suas obras contestatórias. "Eles merecem ser lembrados", afirmou.
Com esse comportamento confrontante e por vezes polêmico, WeiWei foi preso em 2011. O longa-metragem apresenta o período até a sua saída da prisão, enquanto alterna imagens da montagem de algumas de suas exposições, além de fotografias, memórias e da rotina do artista.
O próprio filme apresenta um fato que parece servir de metáfora para a vida de Wei Wei. Ele conta que, em sua casa, moram cerca de 40 gatos. E apenas um deles aprendeu sozinho a abrir portas. Dentre tanto artistas e escritores chineses, alguns ainda presos, coube a WeiWei se tornar um expoente da luta pela liberdade de expressão na China contemporânea e abrir portas para gerações seguintes.
