O cineasta brasileiro Luiz Villaça apresenta uma história de amor em meio a um mundo em constante transformação na cidade de São Paulo no seu novo filme, "De Onde Eu Te Vejo", em lançamento nos cinemas nesta quinta-feira. Após 20 anos juntos, o casal Ana (Denise Fraga) e Fábio decide se separar. Mas acabam morando na mesma rua, em apartamentos que ficam de frente um para o outro. Isso gera situações inusitadas, como conversas pela janela e crises de ciúme mútuas. E reforça a dificuldade de comunicação nas relações, um paradoxo em um mundo que nunca esteve tão "conectado". Esta comédia romântica parece de início um tanto previsível, mas a partir da metade do filme a trama amplia suas camadas e se torna mais poética e profunda.Além da relação de ambos, a narrativa serve como um fio condutor para diversas outras questões contemporâneas. Entre elas, a mudança da própria cidade, com a destruição de velhos casarões para dar lugar a novos prédios. Uma metrópole que se verticaliza cada vez mais e com isso acaba por destituir a memória de seus bairros agride moradores que guardam boas recordações desses lugares. Esta sensação é vivida pelo casal, de diferentes maneiras.
Ela, uma arquiteta que queria construir prédios arrojados, agora trabalha para uma construtora e tenta convencer donos de antigas casas a vender seus terrenos. Aqui o filme ganha pinceladas melancólicas e participações especiais. É o caso de Juca de Oliveira, que encarna um dono de cinema de calçada que fechou as portas. A cena do homem de cabelos brancos com latas de filme em película ao fundo de seu escritório e com um documento em suas mãos para a venda do espaço é de sensibilizar mesmo quem não é cinéfilo. A profissão do marido também passa por alterações: repórter de um jornal impresso, vê as redações desse gênero sendo enxugadas, inclusive com a demissão de uma colega (Marisa Orth) de longa data.
Em meio a um mundo de tantas incertezas, apesar do advento da ciência e do racionalismo, pululam personagens que buscam em elementos como astrologia ou doutrinas esotéricas alguma orientação para viver melhor, mas às vezes se tornam escravos delas e se enredam em regras autoimpostas. Neste sentido, a filha adolescente (Manoela Aliperti) do casal parece, em alguns aspectos, mais centrada do que os pais. Quando a jovem passa no vestibular para uma faculdade em outro município, o casal enfrenta também o momento de deixar a filha seguir o seu rumo. Em meio à crise, Ana reencontra uma idosa octogenária que tinha visitado para o seu trabalho (em outra participação marcante no elenco, a de Laura Cardoso e que, surpreendentemente, se mostra aberta a novos ares. Isso ressalta em Ana a ideia de que o amor também pode se reinventar. Mesmo em tempos frenéticos.
