Tereza é uma idosa de 77 anos que ainda trabalha e tem sua independência, vivendo sozinha em sua casa. Interpretada com profundidade pela atriz Denise Weinberg no filme “O Último Azul”, a protagonista recebe um comunicado do governo de que atingiu a idade para ir para uma “colônia” descansar. Tereza tem uma filha adulta, que acaba concordando com esta proposta.
O longa-metragem é situado na Amazônia e apresenta um Brasil quase distópico, onde o governo cria mecanismos de controle sobre a população. Tereza não quer sair de sua casa e nem parar de trabalhar, mas é obrigada a obedecer, caso contrário pode sofrer punições. Ela pensa em fugir, mas para onde ela tenta viajar, todos os ambientes de venda de passagens pedem documentos e com isso descobrem sua idade e alertam sua filha.
Este sistema apresentado no filme eleva o capitalismo em um nível ainda pior do que possa já existir. A justificativa para o envio de idosos para esta “colônia” é para que os filhos, em idade produtiva no mercado de trabalho, não precisem se preocupar com os cuidados com os mais velhos, ou seja, fiquem mais livres para trabalhar (e serem explorados).
Antes de seu exílio compulsório, Tereza embarca em uma jornada para realizar seu último desejo. Ela decide arriscar, porque pouco ou nada se sabe sobre os que já foram para estas colônias. A partir daí, começa uma aventura que envolve resistência e amadurecimento. Neste ponto, este drama com pitadas de fantasia tem sua força acompanhando uma pessoa que luta por sua liberdade: Tereza é uma mulher que decide burlar o sistema.
As paisagens rodadas em cidades como Manaus, Manacapuru e Novo Airão levam o espectador e descobrir ambientes só acessíveis pela água, em uma região repleta de rios e afluentes, entre chuvas intensas. Nessa tentativa de realizar seu último desejo, Tereza vai cruzar com um homem que faz transporte de produtos (nem sempre legais) por barco. Este homem é interpretado por Rodrigo Santoro, que revela sua capacidade de se transformar a cada necessidade de uma nova atuação. Aqui ele interpreta um barqueiro pobre e rude, que encontra em Tereza o alento de uma figura feminina com quem pode desabafar. Ele não permanece todo o tempo com a protagonista, mas sua passagem é marcante. A idosa encontrará ainda outras figuras que tentam sobreviver à margem ou às escondidas deste sistema opressor.
Este drama carrega uma beleza estética e poética para falar sobre o valor da liberdade para cada indivíduo.
O diretor Gabriel Mascaro está baseado em Recife. Já dirigiu filmes como "Boi Neon" (2015), "Divino Amor" (2019) e "Ventos de Agosto" (2014). “O Último Azul” é seu filme mais recente e foi premiado com o Urso de Prata, do Grande Prêmio do Júri, na 75ª edição do Festival de Berlim 2025, entre outros troféus em diferentes festivais internacionais.
