
O documentário “Construindo Pontes” é o primeiro longa-metragem de Heloísa Passos, já reconhecida como diretora de Fotografia, que agora apresenta um trabalho autoral. Conforme revelou a própria cineasta, este filme começou quando ela ganhou de presente uma coleção de filmes em super-8 com imagens das “Sete Quedas”, conjunto de cachoeiras na fronteira entre Brasil e Paraguai destruído no início dos anos 80 para a construção da usina hidrelétrica de Itaipu.
Resgatar a história da cidade de Guaíra, que tinha no turismo aos saltos seu ponto forte, levou a diretora, radicada em São Paulo, a retornar ao Paraná, onde nasceu. E isso proporcionou um reencontro com sua família, especialmente com o pai, com quem tinha rompido havia mais de 30 anos. Por isso, o título do filme é especialmente feliz, no sentido de que Heloísa constrói uma ponte não só com o passado histórico da região, mas uma ponte com o seu pai.
A figura paterna, pela profissão que exercia (engenheiro que construía estradas), acaba muito associada ao projeto de progresso promovido pelos militares na época. Esse encontro revela pontos de vista diferentes entre gerações e posicionamentos políticos: Heloísa, libertária, e o pai, conservador. Os diálogos são reveladores, em particular quando se presta atenção na opção pelas palavras que cada um usa. Para citar um exemplo: o pai, Álvaro, chama o governo dos militares de “revolução”, já a filha, de “ditadura”. A diretora mostrou coragem ao expor questões familiares em frente à câmera. E, ao expor o seu microcosmo, acabou refletindo, como em um espelho, o macrocosmo da situação política no Brasil, que se encontra polarizado. E, em sentido inverso, se o país conseguir conviver respeitando as diferentes posições, como a cineasta e seu pai, já será um grande avanço.
