Cine CP

Realismo bem fantástico



Utilizar a realidade fantástica para abordar as questões de uma cidade complexa como Salvador, apontando para a existência de diversas cidades dentro de uma só, foi a proposta do diretor e roteirista Daniel Lisboa em seu primeiro longa-metragem, "Tropikaos". E conseguiu resultado instigante.  A produção foi rodada em 2013 e lançada em 2015 pela Cavalo do Cão Filmes, produtora que desde sua fundação em 2002 vem acumulando boas críticas e prêmios. Todas as cenas foram gravadas na capital da Bahia, nascimento do diretor. Destaque para lugares do centro da cidade, Comércio e Cidade Baixa. No centro da trama, intensa e envolvente, está a história de Guima (Gabriel Pardal), um jovem poeta em crise, que não consegue escrever seu livro de poesias e luta contra uma doença desconhecida causada pelo sol escaldante de sua cidade, Salvador. O uso do Sol como metáfora da opressão é ponto a favor do roteiro e da finalização do trabalho. Bem conduzida, a câmera vai mostrando isso no ar-condicionado, nos topos dos prédios que sufocam as ruas, no suor das praias lotadas e nas estruturas de poder. A ardência do verão pleno na cidade, o movimento de véspera de carnaval, onde o personagem se vê fora de seu eu mais verdadeiro, estabelecendo a relação com a “ultraviolência solar”. Vale um envolvimento na produção para entender ainda mais aspectos da cultura e da vida do ser brasileiro daquelas latitudes, que se reverbera em outras esfereas, extratos, mas se repete, em diferentes intensidades, em outras geografias.

 

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