Sons e emoções
O filme "O Solista", com direção de Joe Wrigth, é adaptado do livro homônimo escrito pelo jornalista Steve Lopez (Robert Downey Jr). Colunista do “Los Angeles Times”, ele escreveu uma série de textos sobre uma experiência pessoal que passou a emocionar seus leitores no jornal e depois em livro.
Certo dia na rua ele escuta uma música. Ao seguir o som, conhece um mendigo que toca um violino, Nathaniel Ayers (Jamie Foxx). Ao conversar com ele, descobre que o agora sem-teto estudou em uma conceituada escola de música de Nova Iorque, informação confirmada depois nos arquivos da instituição. Ayres não terminou o curso porque sua doença mental se manifestou e fez com que ele abandonasse tudo e fosse viver nas ruas.
O jornalista procura ajudar o músico, levando-o a um abrigo e incentivando-o a treinar sua habilidade com os instrumentos. Alguns leitores da coluna se emocionam e passam a escrever cartas ou mandar instrumentos de presente para Ayres.
No filme é interessante observar a questão do ritmo da história. No início, o jornalista vive envolto em barulho: na redação onde trabalha as pessoas vivem apressadas e não raramente falam ao mesmo tempo. Até um passeio de bicicleta de Lopez parece ser estressante. A partir do momento em que conhece o sem-teto e passa a apreciar sua música, a questão do tempo para o colunista muda. Solitário e estressado, ele passa a se permitir a contemplação da arte, a se abrir ao “outro”. Isso demanda negociações e paciência. Mas começa a compreender um pouco o amor que Ayres sente pela música e com ela alcança aquilo que a arte pode gerar: enlevo. No momento em que Ayres recebe de presente um cello, a devoção com que o músico toca o instrumento torna a sequência uma das mais belas dos filmes da temporada. Tratando de relações humanas, o longa-metragem mostra, além disso, que neste processo de desaceleração para compreender o outro, Steve Lopez acaba ajudando a si mesmo.
Outro ponto positivo do filme é apresentar uma face dos Estados Unidos que geralmente é varrida para baixo do tapete. No país capitalista por excelência, em que se valorizam os empreendedores, os que têm “utilidade” apenas para produzir e gerar capital, enfim os “vencedores”, “O Solista” exibe a informação de que há, apenas citando dados da grande Los Angeles, cerca de 90 mil sem-teto. Parte desse grupo é representado no filme, o que mostra uma contradição da “América”: no país da livre iniciativa, o que fazer com os sem-teto? Respeitar sua liberdade individual (porque às vezes viver rua pode ser tanto uma opção ou a falta dela) ou obrigar a desocupação das ruas? Além disso, as providências governamentais geralmente solucionam esse tipo de problema temporariamente, expulsando estas pessoas de um lugar para outro. O assunto é complexo. A questão chega a tirar o sono do jornalista. A conclusão a que se chega é que uma amizade pode ser um bom começo ou mesmo um fim.
