
O documentário “Human Flow: Não existe Lar se Não há para onde ir” é um filme árduo, mas necessário. O projeto e direção são do artista plástico, designer e ativista social chinês Ai Wei Wei. Este filme será melhor compreendido se o espectador assistir também ao documentário “Ai Wei Wei: Sem perdão”, de Alison Klayamn (2012), que conta a história do próprio Ai Wei Wei. Na minha opinião, os dois filmes formam um excelente díptico audiovisual.
Crítico ao governo chinês e já tendo sido agredido e preso em seu país, Ai Wei Wei já mostrou que é um homem que não se dobra frente a pressões. Vivendo atualmente na Alemanha, ele mesmo, portanto, é um refugiado por questões políticas. Por um ano, dedicou-se a realizar uma jornada pelo planeta para mostrar a realidade de outros refugiados, a maioria sem a mesma sorte do que ele.
Conforme dados fornecidos pelo próprio filme, mais de 65 milhões de pessoas em todo o mundo foram forçadas a sair de suas casas para escapar de guerras, mudanças climáticas, perseguições étnicas, políticas ou religiosas, em um fenômeno que está sendo considerado o maior deslocamento humano desde a Segunda Guerra Mundial. Ai Wei Wei circulou por lugares como Afeganistão, Alemanha, Bangladesh, Grécia, Iraque, Israel, Itália, Jordânia, México, Turquia e Quênia. O documentário assume o lado dos refugiados, acompanhando-os, no total, por 23 países, seguindo histórias que se resumem à procura de uma chance de recomeço. As imagens são alteradas entre as feitas pelo câmera oficial da equipe e do celular de Ai Wei Wei, que gosta de registar tudo também. Na edição, as cenas são mescladas.
A edição alterna momentos mais densos de depoimentos com paisagens, que ora amenizam ora corroboram os discursos de que a humanidade ainda está longe de ser o que poderia. E se o espectador que sente alguma empatia sente um alívio ao ver que alguns grupos conseguem ajuda, é chocante ver o tratamento que outros recebem, sendo barrados sem a menor cerimônia em certas fronteiras, como a da Macedônia, e deixados à própria sorte sem ajuda alguma, a não ser de algumas poucas entidades humanitárias que geralmente não conseguem dar conta da demanda. As duas horas e 20 minutos do filme podem parecem um tanto longas a quem não está acostumado aos documentários. Mas nunca é demais refletir sobre que mundo a humanidade está construindo. É um filme para repensar nosso tempo.
