Uma ilha de dar medo
“Ilha do Medo”, novo filme de Martin Scorsese, é um suspense carregado de terror psicológico que envolve e surpreende. Pode não ser tão visceral quanto o livro de Dennis Lehane no qual se baseia, mas é repleto de tensão, e fantásticas investidas do mundo do suspense psicológico capitaneado, na tela, pelo talento de Scorsese. O diretor conduz o público a uma viagem pelo universo de medos, traumas e lembranças dolorosas do personagem vivido por Leonardo DiCaprio, enquanto apresenta uma visão panorâmica da ilha que é penitenciária psiquiátrica e de seus pacientes/habitantes.
A história se passa em 1954, e a estética é perfeita ao remontar fatos que habitam o imaginário do detetive Daniels, herói de guerra, e tragicamente viúvo. Ben Kingsley (o eterno “Gandhi”) está convincente na pele do doutor Cawley, um médico brilhante que observa as descobertas da psiquiatria no campo dos medicamentos, em busca de tratamentos mais saudáveis do que os até então aplicados. Mas nada é o que parece em dias e noites de tempestade. Baseado no livro “Paciente 67”, de Lehane, “Ilha do Medo” mantém, do início ao fim, o clima de tensão psicológica, colocando em cena personagens fortes, carregados de uma dramaticidade complexa e criando um universo assustador.
Cada diálogo mais profundo pode ser tomado como tema para discutir a própria contemporaneidade da saúde mental, ou a medicamentação das emoções, dos medos e dos traumas. Do início ao fim, a trama do detetive Daniels é uma referência às vivências psicológicas de quem viveu o auge da paranoia da Guerra Fria. A narrativa do livro de Lehane, envolvida em uma atmosfera de ansiedade, é levada à tela pela lente apurada de um dos maiores cineastas dos últimos tempos.
