Uma lição pra história
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Uma lição pra história

A trama de "Jojo Rabbit", que coloca em cena uma sátira inteligente e provocante sobre o nazismo, se estabelece na Alemanha, durante a II Guerra Mundial

Por
Marcos Santuario

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Com um roteiro muito bem construído, “Jojo Rabbit” surge na tela envolvente e repleto de um crescente diálogo entre tela e espectador. Com música, ritmo e uma comicidade na medida da inteligência, o trabalho narrativo de autoria de Taika Waititi que, além de dirigir atua no filme.

A trama, que coloca em cena uma sátira inteligente e provocante sobre o nazismo, se estabelece na Alemanha, durante a II Guerra Mundial. Johannes Betzler (primeiro papel no cinema do jovem Roman Griffin Davis) é um jovem de dez anos, encantado pela suástica nazista e desejoso de pertencer a um grupo.

Apelidado, já no início da trama, de Jojo Rabbit, ele trata Adolf Hitler (vivido na tela pelo próprio Taika Waititi) como um amigo próximo, em sua imaginação. Queria mesmo era tê-lo como melhor amigo, mas se contenta com a companhia irreal. Caricato e sedutor, o Hitler imaginário aparece para o garoto e dialoga com ele, levando a trama por momentos ao universo do onírico, com fantasia, mas sem desviar o tom da narrativa original.  Os dois dialogam em tom hilário, sem deixar de ser intenso e provocador. Enquanto o maior sonho de Jojo é participar da Juventude Hitlerista, grupo pró-nazista composto por outras pessoas que concordam com os seus ideais, ele vai dando passos em direção ao objetivo.

Um dia, Jojo descobre que sua mãe, Rose, (Scarlett Johansson) está escondendo uma judia, a jovem Elsa, (vivida pela atriz Thomasin McKenzie) no sótão de casa. Remetendo, invariavelmente à ideia de uma Anne Frank, a menina judia que escreveu diário emocionante durante os dois anos em que ficou escondida para escapar dos nazistas, durante a II Guerra Mundial, começa a estabelecer-se entre os dois, uma relação que transcende o pessoal e ganha ares universais.

Do desejo de expulsão da invasora até o surgimento de empatia pela nova hóspede, o caminho pessoal trilhado por Jojo é repleto de uma saborosa reflexão sobre o absurdo e horroroso momento humano e psicológico, vivido pelos personagens. Jojo não pode denunciar Elsa à Gestapo, tampouco é capaz de fazer-lhe mal. Estabelece-se a convivência necessária.

A Rose, de Scarlet, é uma antítese ao absurdo nazista. Encantadora, ela representa esperança e resistência. Como mãe, acolhe e protege o filho fanatizado e a garota judia. Alimenta a jovem e amarra o cadarço do sapato do filho, com o mesmo grau de humanidade e amor. E dança, celebrando a vida.

Longe de trazer foco para a guerra em si, “Jojo Rabbit” mergulha neste relacionamento interracial, no qual os “inimigos” vão se conhecendo melhor. Os preconceitos vão sendo derrubados (os judeus não são demônios com chifres, como haviam descrito para Jojo − assim como se estabelece que o fanatismo do jovem pode ser superado, pelo conhecimento e pelo amor). Fica claro que a tal superioridade racial, seja ela qual for, é estúpida, e Waititi faz questão de escancarar isso nas quase duas horas de filme. 

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