Élio Carravetta revelou como está sendo planejada a pré-temporada 2016 do Inter. Foto: Guilherme TestaO ano de 2015 para o Inter foi marcado por várias discussões ligadas direta ou indiretamente a preparação física. Para entender como os profissionais do clube viram os principais temas da temporada, o Blog Diálogos entrevistou o coordenador da área, Élio Carravetta. Doutor pela Universidade de Barcelona e há mais de 20 anos no Colorado, Carravetta comenta no bate papo o rodízio no primeiro semestre, como foi o posicionamento dos funcionários brasileiros sobre os uruguaios, como repercutiu entre eles os casos de doping e a preparação para 2016.
Correio do Povo: O senhor foi contrário a contratação da comissão técnica do técnico Diego Aguirre? Como avalia a preparação física de 2015?
Élio Carravetta: Não fui contrário. Quando chegou a comissão técnica do Diego Aguirre, o vice-presidente da época (Luiz Fernando Costa) me chamou e pediu para que eu fizesse todas as intervenções em relação ao setor de preparação física porque era uma comissão técnica estrangeira. Veio o (uruguaio Diego) Aguirre. Por sinal, a performance do Inter como um todo, em termos de resultados, não foi ruim. O Inter conquistou o Campeonato Gaúcho e chegou na semifinal da Libertadores da América. Todas as intervenções que fizemos foram internas. Em momento algum contestando o trabalho, mas sempre mostrando alguns aspectos que são importantes dentro da realidade do treinamento no futebol brasileiro.
CP: Quais aspectos foram esses?
Élio Carravetta: As próprias características do futebol brasileiro, o calendário com uma grande densidade de jogos, aa própria geografia do Brasil em relação aos deslocamentos, que provocam um desgaste físico muito grande. A pressão emocional que o atleta sofre dentro do nosso contexto, que é muito forte. Estresse psicológico pela sequência de jogos. Tudo isso nos procuramos mostrar. Quem tem o comando é o treinador e a sua comissão técnica. A nossa posição sempre foi de colaborar, inseridos dentro daquele contexto. Quando falamos de excelência, em qualquer setor, ela precisa de intervenções. Precisa de dissonâncias e elas nos levam a crescer. Agora, essas dissonâncias não são pessoais.
CP: O senhor trabalhou no Inter com as duas comissões técnicas estrangeiras da última década. Quais as diferenças?
Élio Carravetta: Foram duas comissões técnicas uruguaias, mas com características diferentes. A liderança do Jorge Fossatti era diferente da Diego Aguirre. A proposta da comissão técnica do Aguirre foi diferente da do Fossatti. Cada um teve os seus méritos. Todos tentaram fazer o melhor para o Inter. Faço questão de salientar que o Alejandro Valenzuela, preparador físico do Fossatti, nos deixou um legado muito grande. Tanto na concepção teórica, como na prática. E naquela época, estava no Inter o Fábio Mahseredjian, preparador físico da Seleção e um dos expoentes dentro da área no país. Ele reconheceu e manifestou publicamente o grande aprendizado que tivemos com o Valenzuela. Duas comissões técnicas do mesmo país, mas cada uma com as suas características próprias. Tipos de lideranças diferentes. Cada um teve seus pontos positivos e negativos, como todos nós.
CP: Esse ano muito se discutiu o rodízio de jogadores. O torcedor tem dificuldade de entender a quantidade de vezes por semana que o treinador e o preparador físico têm para trabalhar com o seu grupo. Como funciona esse planejamento?
Élio Carravetta: O rodízio hoje no futebol brasileiro é importante. Tu não tem como evitar pelo calendário. Agora, tem um aspecto que também temos que levar em consideração: é um critério e uma concepção do treinador. Quando a gente fala de preparação física, e isso eu quero deixar bem claro, não existe a preparação física no futebol como as pessoas pensam de uma forma isolada. A preparação é técnica, é tática, é psicológica, é estratégica e é física. As demandas físicas, de acordo com o calendário, pelo tipo de treinamento, se dão através dos treinamentos técnicos e táticos. Se tu observar os treinamentos físicos isolados que tem no futebol para provocar a adaptação específica, eles são raros e são poucos. São 90% de trabalhos táticos para 10% de trabalhos especificamente físicos. Vamos supor, esse físico é associado a realidade do jogo, ao contexto do futebol. Então a grande adaptação se dá no trabalho técnico e tático. Por outro lado, também, no momento que tu mantém a tua equipe, você provoca adaptações, tanto táticas, como físicas, como adaptações relacionais e adaptações técnicas. Quando eu falo técnica, falo associada ao coletivo. Tu provoca essas adaptações através da continuidade de uma equipe. Só que em determinados momentos tu vai ser obrigado a fazer o rodízio, seja de 1, 2 ou 4 jogadores. Muitas vezes, em um jogo, que não tem uma determinada importância, se tu puder preservar mais jogadores tu vai preservar. Isso é um critério do treinador. Por outro lado, em termos de treinamento desportivo, quando falamos em treinamento desportivo, falamos em provocar adaptações. Adaptações não são somente físicas, metabólicas ou neuromusculares. Elas são cognitiva e relacional. Então para provocar essas adaptações, tenho que manter uma certa continuidade. Mesmo com o rodízio, tenho que manter essa rotatividade. Isso depende muito da concepção de treinador para outro treinador. Não costumo dizer assim “o fulano está certo ou o fulano está errado”, é muito difícil hoje fazer esse tipo de afirmação em relação ao que é certo ou errado. O certo é aquilo que muitas vezes te dá resultado, mas também, às vezes, tu alcança o resultado pelo errado, na concepção de alguns. E o certo, na concepção de outros. Isso é muito relativo.
CP: Por que o atleta precisa fazer uma recuperação física após os jogos?
Élio Carravetta: Isso é importante. Nós temos que entender que o futebol, que é diferente que as outras modalidades esportivas, em termos de um desgaste energético. Esse desgaste, tem alguns combustíveis que renovam determinados processos bioquímicos, relacionados aos movimentos. Então, tu tem que ter algumas reservas energéticas. Tem reservas que quando utilizadas tu não repõe. Tu custa a repor. Quando um maratonista corre uma maratona, muitas vezes ele consegue repor uma semana depois essa reserva. Um halterofilista, um fisiculturista, quando trabalha a exaustão de um determinado grupo muscular, muitas vezes nos programas de treinamento, ele vai trabalhar 5,6 ou 7 dias depois em cima daquele mesmo grupo muscular, para que ele possa ter uma recuperação total e para provocar as adaptações que são exigidas de acordo com o objetivo.
CP: Como funciona no futebol?
Élio Carravetta: Então, no futebol, quando um atleta tem um desgaste total em algum jogo extremamente competitivo, determinados componentes energéticos, mais especificamente o glicogênio, não é reposto antes de 72 h. Se tu trabalhar com o deficit dessa reposição, ela pode te trazer uma série de problemas: tu não vai atingir o mesmo rendimento. Ele pode te levar a fadiga mais rápido. Essa fadiga pode provocar lesões e, esse excesso, pode te levar ao sobretreinamento. A recuperação é fundamental. O futebol, em termos da ciência e da tecnologia, avançou muito. Agora, em termos de recuperação somos obrigados a respeitar esse período crítico. A recuperação é pra reestabelecer as reservas energéticas. Nós podemos colocar comparando ao automóvel. Pode-se comparar a relação do desempenho de um automóvel relacionado a gasolina. Vai chegar um momento em que o carro vai ter que parar e reabastecer. É o mesmo que se passa com o jogador de futebol. Diferentemente do tênis, que tem características, em relação a utilização dessas reservas energéticas bem diferentes, porque ele pode jogar até 4 h e não utiliza 30% ou 40% do que um jogador de futebol. É diferente também do basquete e futsal porque o futebol tem essas características em termos fisiológicos. Isto não sou eu que estou colocando, hoje qualquer tratado, por mais simples que possa ser, da fisiologia do exercício, estão evidentes essas afirmações.
CP: Foi o conjunto dos preparadores que levou essa norma para dentro do regulamento das competições da CBF, Fifa e Conmebol?
Élio Carravetta: Eu acho que isto é uma determinação que dentro da área da ciência da saúde. Como todos os profissionais da área, os médicos, fisiologistas, profissionais de educação física passam a respeitar esse intervalo entre um jogo e outro, justamente para o atleta ter a recuperação total. Ao mesmo tempo, quando uma equipe não tem a recuperação, quem perde muito é o torcedor porque a qualidade do espetáculo decai.
CP: Como o senhor avalia aquele período da parada para a Copa América antes da semifinal da Libertadores?
Élio Carravetta: Todo o período que tem para treinar ou recuperar é importante para os clubes em geral. Mas a parada, quando uma equipe está embalada em termos motivacionais e psicológicos, pode não ser positiva. Toda a parada, dentro da sequência de jogos e resultados positivos, não é boa porque a equipe tinha adquirido um determinado padrão de jogo em um nível elevado de competitividade e teria que retomar. Mas, em geral, vejo como algo positivo.
CP: Como o senhor viu a relação entre trabalho e lesões no Inter?
Élio Carravetta: Tivemos um período crítico, um número muito grande de lesões. Esses dias eu estava lendo as notícias do “El Mundo”, um periódico espanhol, e o número de lesões do Real Madrid é impressionante. E no futebol europeu também, justamente pelo nível de competitividade. Nós realmente tivemos lesões e jogadores que permaneceram inativos, ficando afastados por traumas e outros fatores fisiológicos. Eu acho que foi um ano inédito.
CP: A média de idade do grupo do Inter interfere na preparação física? Tem que ter um cuidado a mais ou é normal?
Élio Carravetta: Nós temos que entender as diferenças de idade cronológica. Por exemplo, se eu tenho meninos de 16 e 17 anos e atletas de 38, 39 ou 40 anos, tem uma diferença. Sempre quando tu trabalha com essas diferenças dentro de um clube, o trabalho tem que ser mais individualizado e tem que atender o atleta individualmente. O atleta, quando entra fisiologicamente, nos 25, 26 ou 27 anos, enfrenta o processo fisiológico degenerativo do envelhecimento. Normal. Ele perde em algumas coisas e ganha em outras. Então, tu tens que saber jogar com isso e também trabalhar respeitando as características individuais de cada atleta. Cabe ao treinador escolher aquilo que é melhor para a equipe.
CP: Como o senhor viu esse caso de doping nos jogadores do Inter?
Élio Carravetta: Se eu tivesse elementos, eu poderia até comentar, mas eu não tenho elementos para falar sobre esses dois casos. Não tenho elementos. Eu tenho algumas posições, como professor, dentro desta área, muito claras em relação a utilização destas substâncias que não são permitidas. Acho que o próprio treinamento em um alto rendimento já provoca sequelas. No momento que eu associar o treinamento com substâncias ilícitas, vou provocar maiores sequelas em relação ao meu atleta. Eu não acredito que os atletas tenham utilizado para o ganho de performance, que no no futebol é pequeno. Se fosse uma modalidade de força máxima e resistência, tudo bem. Nas no futebol tu otimiza a força para jogar, otimiza a resistência. Não se trabalha na maximização do rendimento físico. Eu acredito na inocência destes jogadores.
CP: O trabalho chega a ser afetado por causa dessas denúncias?
Élio Carravetta: Eu não vejo dessa forma. Se orientar algum atleta a utilizar qualquer substância, eu sou um “charlatão”. Eu não tenho condições e informação para medicar e orientar qualquer tipo de suplementação. A minha formação não me permite isso. Eu tenho, em qualquer situação, preocupação com o jogador de futebol, com o atleta e com a pessoa. Isso eu vou ter sempre, em qualquer situação: acidente de carro, lesão, cirurgia de um ligamento cruzado ou até uma situação na vida privada que possa prejudicar o atleta. Não convivo na vida pessoal com nenhum jogador, mas tenho uma relação visceral com o atleta e me gratifica o crescimento do jogador como um todo. Nós temos que entender uma coisa: quando tu trabalha em alto rendimento, não minimiza algumas coisas. Tu maximiza para o alto rendimento. Trabalha no alto nível de competição, esse é o nosso objetivo. Trabalhar em cima da agressividade controlada. Mas quando acontece alguma coisa, tu é obrigado. Tu se solidariza com o atleta e quer o melhor para ele. Eu digo, tanto para os jovens, quanto para os jogadores mais experientes, que eu torço para o sucesso deles. Não se pode esquecer o lado competitivo, aqui nós temos que ganhar tudo. Temos que ter uma excelência em termos de competitividade e isso é o mais importante, temos que nos qualificar ao máximo. Eu costumo dizer assim: “no momento em que eu perder a vontade de crescer e aprender, a vida não tem mais sentido”. É o mesmo caso para o jogador no futebol. No momento em que perder o interesse de crescer na profissão dele, como um todo, ele vai fazer alguma outra coisa, mas não vai jogar mais futebol.
CP: Como se planeja uma pré-temporada quando o primeiro jogo da temporada está marcado para o dia 13 de janeiro nos Estados Unidos?
Élio Carravetta: Sempre o planejamento dentro da área do treinamento esportivo, mais especificamente dentro do futebol, tem que levar em consideração a realidade. O contexto. Tanto cultural, como social, as qualidades individuais dos teus atletas e jogadores. E, acima de tudo, o calendário anual dos jogos e competições. Quando trabalhamos no planejamento temos que ter flexibilidade, principalmente se tratando de futebol. Pela sua própria natureza, é um desporto, comparado com outras modalidades, jogos esportivos coletivos, que predomina a incerteza e a imprevisibilidade. Elas se dão dentro de campo e muito fora. Temos que estar preparados justamente para trabalhar com essas variáveis. Todo planejamento tem que ter uma certa flexibilidade. A conscientização dos nossos atletas e esse ano deve ser maior ainda. Neste período de férias, eles terão que se manter em atividade. Não com atividade rigorosa e treinamentos rígidos, mas terão que se manter em atividade. Isso é fundamental.
CP: Como se manter em atividade se é um dos poucos períodos que os jogadores podem relaxar?
Élio Carravetta: É um período de transição. Então, nele, o jogador vai gozar o tempo livre. Não pode ter rigor. Quem se submete a programas de treinamento dentro do futebol, tem que ter um rigor disciplinar muito grande em relação a horário, tempo livre e alimentação. Ele vive norteado por normas rígidas. Então, no momento das férias, ele não precisa obedecer as normas e trabalhar de forma espontânea, desde que ele se mantenha em atividade. É diferente uma rotina de treinamento e diariamente ter espontaneidade para diferentes atividade, onde você vai se manter em movimento, que é a chave do sucesso de um jogador de futebol. Sem regras e sem normas. Irá predominar o lúdico, com a família e os amigos, e se exercitar. Essa consciência é muito importante para a próxima temporada.
CP: Vocês já estão fazendo o planejamento para 2016? Como será o período de 30 dias?
Élio Carravetta: O João Goulart, preparador físico do inter, já começou a fazer todo o processo de planejamento. Está levantando dados e estudando a periodização, organizando os conteúdos de treinamento e a distribuição desses conteúdos. Junto com a fisiologia, eles já trabalharam em cima das avaliações iniciais. Eu já participei de algumas reuniões, justamente pensando na preparação para a próxima temporada.
CP: Não tem alguma data certa? Depende do clube conseguir a vaga para a Libertadores?
Élio Carravetta: Em termos de conteúdos e avaliações, independente da Libertadores, tu tem uma semana que já tem que ter planejado, independente do destino e do calendário.
- Confira vídeos da entrevista:
https://www.youtube.com/watch?v=L3wQ7D3bn_4
https://www.youtube.com/watch?v=majaY1hPES8
https://www.youtube.com/watch?v=PPnQDB1mmGg
Por Carmelito Bifano
