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Beatriz Araújo: "Temos que priorizar os desassistidos, quem está lá na ponta de baixo"

Secretária de Cultura do RS fala do diagnóstico da pasta, equipe e focos da sua gestão

Por
Luiz Gonzaga Lopes

Beatriz Araújo, nova secretária de Cultura do Rio Grande do Sul

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No meio cultural, não há quem não conheça Beatriz Araujo. Fora da cultura, ela ainda precisa ser apresentada. Beatriz assumiu a Secretária de Estado da Cultura em 2 de janeiro. Natural de Pelotas, iniciou atividades na cultura aos 22 anos, em 1985, como assessora da presidência na Fundação de Cultura, Lazer e Turismo de Pelotas. Em 1992, deu início à trajetória como produtora cultural com a Ato Produção Cultural. Na área de preservação de patrimônio trabalhou no restauro do prédio da Bibliotheca Pública Pelotense, na recuperação do Theatro Sete de Abril e da casa de João Simões Lopes Neto. Foi duas vezes secretária de Cultura de Pelotas. A sua principal característica, segundo o próprio governador Eduardo Leite, é resolver problemas, planejar, organizar a casa. Às vezes, cria novos problemas para solucioná-los. Nesta entrevista, fala do diagnóstico da pasta, equipe e focos da sua gestão.

O que já conseguiu estruturar e planejar na Secretaria de Cultura neste primeiro mês de trabalho?

O planejamento está em stand by, porque a gente tem que ver como segue o planejamento estratégico do governo. Vamos ver o que o governador vai nos acenar para as secretarias coordenarem suas ações e finalizarem o planejamento. Chamei uns poucos colaboradores para que a gente possa começar a fazer o diagnóstico. Alguns colaboradores foram reconduzidos. A Fundação Theatro São Pedro e a Ospa, com o Antônio Hohlfeldt e o Evandro Matté. Do São Pedro, eu já tenho algum material do diagnóstico. Dos equipamentos, Casa de Cultura Mario Quintana, museus e institutos, a Ana Fagundes, diretora de Economia Criativa, está fazendo o levantamento físico, de estrutura, pessoal, programas permanentes. A partir daí, desenvolvo trabalho com o Departamento de Memória e Patrimônio, que terá o Eduardo Hahn no comando, para estabelecer as prioridades em manutenção, recuperação de patrimônio, dos equipamentos e, ao mesmo tempo, faço contatos com integrantes do governo que nos darão suporte para propostas de novos usos de alguns equipamentos culturais. A partir desta definição, em março ou abril, vamos buscar algumas contratualizações, Parcerias Público-Privadas (PPPs) com organizações sociais. 

Quando falas em condições adequadas, queres dizer que o diagnóstico apontou situações ruins?

A maior parte dos equipamentos culturais está em situação bastante crítica. Por exemplo, nós temos um museu que está fechado: o Museu Arqueológico do RS (Marsul), em Taquara. Tem uma ocupação por parte da prefeitura que já está irregular. Tenho que corrigir, rever a ação pública que existe contra a secretaria. Existem exigências que já foram cumpridas e a ação ainda não foi extinta. O que foi atendido já permitiria que o Museu estivesse de portas abertas. É uma sobrecarga de novas demandas do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Natural (Iphan) que inviabilizam a abertura. A Casa de Cultura Mario Quintana recebeu algumas intervenções, mas ainda não atende de forma adequada ao público, usuários e servidores. Temos demandas da parte física e da funcional. Não existe atuação integrada, transversalidade. Existem espaços que estão sendo disponibilizados para o público, mas não existe uma troca entre os próprios colaboradores da Secretaria da Cultura. Nós queremos que seja uma gestão compartilhada em todos os sentidos. 

Será que a Casa de Cultura Mario Quintana não poderia ter vocação maior para a literatura?

É o que estamos fazendo, buscando informações dos programas preexistentes. É importante que consigamos implementar nossa forma de gerir os equipamentos, com a necessária revisão nos usos. Em relação à Casa de Cultura Mario Quintana, cremos que tem que haver mais literatura, mais atividades da área. Ela é um espaço agregador, que recebe múltiplas atividades. A gente precisa pensar na vocação do equipamento, na missão dele quando ele foi pensado. Eu acompanhei de perto o trabalho do Sergio Napp. Eu vinha de Pelotas e visitava as obras da CCMQ. Voltava no ônibus suja até os joelhos. O Sérgio era generoso. Eu era uma guria na época e ele me mostrava tudo. Eu vim para a inauguração. Desenvolvi um projeto lá, o Jardim Lutzenberger. Uma herança do governo passado que acho bem bacana é o RS Criativo, que ocorre lá na Casa. Vai dar uma outra cara para o local, com as empresas que estarão sendo incubadas por lá. 

Qual será a marca da gestão, algo que parta como projeto do novo?

Vou fazer acontecer a Economia Criativa e Memória e Patrimônio. Na questão da Economia Criativa, o RS está um pouco atrasado em relação ao centro do país. Também estão focados na questão da Memória e Patrimônio. Acho que a gente já teria que ter feito mais. Nas cidades, a Secretaria de Cultura de Porto Alegre passa cuidando de um patrimônio que não é cuidado pelo cidadão, porque ele não se reconhece, existe um problema de informação, faltam programas de Educação Patrimonial para o público jovem e demais pessoas. Quando existe consciência do cidadão, não há problema de depredação. O pessoal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Estadual se sente preterido. Tive várias reuniões com eles e disse que o IPHAE vai ser a menina dos olhos da secretaria. Se tem algo que podes me cobrar futuramente são ações nesta direção. A gente vai estar sempre trabalhando com os jovens, novas tecnologias, novo perfil de empresas que atuam na Economia Criativa. No audiovisual, a geração nova te mostra que não precisa mais de fortunas e grandes equipamentos. Já determinei que vamos começar com um edital público para municípios que queiram desenvolver atividades com Educação Patrimonial. Será um dos primeiros editais da nova Sedac. 

O que já está delineado em relação aos sistemas, planos, planejamentos, conselhos, editais?

Tenho uma atenção muito grande para a participação da sociedade civil na gestão pública. No Conselho Municipal de Cultura de Pelotas, a sociedade civil é maioria absoluta. Respeito o Conselho Estadual de Cultura pelo mesmo motivo. Procuro sempre ter a participação dos coletivos, das organizações sociais, definir quais são nossas prioridades. Tenho procurado escutar pessoas neste primeiro mês. Tive reunião com os pontos de cultura. Eles se sentem desprestigiados, abandonados. São 92 pontos de cultura que fazem parte deste convênio, que começou em 2011, e deixaram de receber recursos. Vamos conseguir repassar os recursos do convênio com o governo federal e a contrapartida do Estado. O valor que falta para eles é em torno de R$ 6 milhões. A maior parte deste recurso estava depositado pelo governo federal e estava parado. A contrapartida do RS é de R$ 1,195 milhão, da terceira parcela. Conseguimos a liberação do recurso que estava parado. Tenho respeito por grupos que atuam nas suas comunidades. Vi um destes coordenadores dos Pontos de Cultura chorar depois do anúncio dos recursos. Ele viajava regularmente quatro horas para Porto Alegre e percebia uma falta de sensibilidade da Secretaria da Cultura. Temos que priorizar os desassistidos, quem está lá na ponta de baixo. Uma frase que eu ouço do governador Eduardo Leite é que “onde o mercado está presente, o Estado pode se retirar”. Assim, a gente vai atuar onde o mercado não está presente. Se os equipamentos estiverem bons e a gente tiver uma estratégia boa para despertar o interesse do mercado é isso que a gente vai fazer. Se eu tiver condições de inserir uma Parceria Público-Privada para poder direcionar o recurso da cultura para outras frentes menos assistidas é isso o que vou fazer. Este vai ser o exercício maior. 

E a definição total da equipe, do organograma da Sedac, quando terá?

Em janeiro, tivemos pouquíssimas nomeações. Até final de fevereiro, devo ter mais um grupo de colaboradores que serão chamados. Temos poucas diretorias. São quatro. Para o Departamento de Memória e Patrimônio, estou chamando o Eduardo Hahm, que se desligará da prefeitura. Pedi liberação do Luciano Alabarse. A Ana Fagundes é a diretora de Economia Criativa e dois que foram reconduzidos, Rafael Balle (Fomento) e Alexandre Leão (Administração). Devo ter um grupo de assessores especiais para atuar na transversalidade com os departamentos e equipamentos. Estes eu ainda não tenho. Serão quatro ou cinco assessores: acessibilidade, contratualização, regionalismo, jurídico e patrimônio. A gente entende que existe uma demanda reprimida em acessibilidade. Eu fiz um convite para uma profissional que atua na Ufrgs, que tem 20% da visão de um olho, para ser uma assessora especial nesta área. A gente poder entender melhor e oferecer mais espaço para que ela possa atuar em todos os equipamentos da secretaria. No regionalismo, o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclores foi extinto e tinha um orçamento de R$ 1,6 milhão por ano. Temos que ter o espaço da cultura regional. Devemos chegar nas comunidades e saber o que há de cultura local. Se a gente incentivar a cultura local, a gente está atendendo a demanda do governador de tornar o Estado mais atraente para talentos e segurá-los mais por aqui. Na questão das contratualizações, preciso ter uma assessoria bem qualificada para poder desenvolver estes projetos e buscar estas parcerias. 

Para quem ainda não te conhece, quem é a Beatriz Araujo?

Quem trabalha na cultura, já me conhece, mas minha opção foi sempre trabalhar nos bastidores. Comecei a trabalhar com cultura aos 22 anos, quando fui chamada, em 1985, para ser assessora da Fundação de Cultura, Lazer e Turismo, em Pelotas. A partir dali, fui contaminada pelo vírus da cultura, principalmente o dos teatreiros. A gente estava começando a fazer os festivais de teatro em Pelotas e depois fui para a direção do Theatro Sete de Abril. No início da década de 90, saí da coisa pública, criando uma empresa para desenvolver projetos em todos os segmentos, muito especialmente na área do Patrimônio, pela qual me apaixonei. Tenho projetos desenvolvidos em Pelotas, Rio Grande, Porto Alegre, Piratini. Quando surgiu a Lei de Incentivo à Cultura no RS, passei a atuar como uma das fundadoras da Associação dos Produtores Culturais do RS na defesa da própria lei, quando esteve em risco, e na democratização da LIC, com o apoio do Bernardo Souza, como deputado, que passou a atender aos produtores, por meu intermédio, pois eu já havia trabalhado na gestão dele como prefeito de Pelotas. Depois fui secretária de Cultura quando ele foi novamente prefeito. Minha atuação como secretaria é um tempo que eu tenho na vida para me doar. Eu abro mão do meu conforto, pois tenho uma empresa bem-sucedida em termos de projetos. Eu escolho os projetos, os clientes. Na coisa pública, é ao contrário. As demandas são apresentadas e tu tens que conseguir resolver. Quando fui secretária de Cultura em Pelotas, no governo do Eduardo Leite, fiz um acordo com ele de organizar a secretaria, estabelecer prioridades, fazer o planejamento dos anos seguintes e entregar a secretaria a um sucessor que eu escolhi, que continua até hoje e é um baita secretário. Minha missão é me adaptar a uma nova cidade, novo ritmo, mas com entusiasmo e responsabilidade de ser uma secretária de Cultura de um governador que prioriza a cultura. 

Para fechar, gostaria de ouvir uma história curiosa já vivida neste primeiro mês de gestão?

O que tem me tocado aqui é que sou uma pessoa desconhecida. Estou sucedendo o Victor Hugo, o Luiz Antonio Assis Brasil, que todo mundo sabe quem é. No meio cultural, o que eu percebo é que recebo as pessoas, elas apertam a mão, conversam bastante e ficam de 30 a 40 minutos. Quando as pessoas vão embora, elas me abraçam e me beijam. Tem uma coisa de entrar em sintonia. Tem gente que saiu daqui de olho marejando. As pessoas que eu convidei para trabalhar são apaixonadas. Isto é um privilégio. Não contamos com indicações de partidos. Aconteceu uma coisa engraçada, que falei para o governador. Eu estava conversando pelo WhatsApp com a Secretária de Planejamento, Leany Lemos, e a gente estava falando do quadro e do organograma da secretaria. Aí uma hora escrevi “até amanhã” e coloquei a figura dos três Zzz, lá pelas 23h10min. Ela me respondeu: “Saindo do CAFF”. Eu estava na cama e ela saindo do trabalho. Cheguei às 8h da manhã e chamei a minha secretária adjunta, Carmen Langaro, e disse que estávamos trabalhando pouco. Aí falei para o governador lá em Pelotas, no Festival Sesc de Música. Contei para ele que a Leany estava trabalhando até tarde. Então, ele me mostrou uma foto que tirou do apartamento dele no Centro do Centro Administrativo, dizendo que da janela ele vê quem está trabalhando de noite. No jantar, contou para a Leany. Quer dizer, ficamos com a sensação que trabalhar das 8h às 20h é pouco.