Diálogos

Dan Stulbach: "Vim ao primeiro Porto Alegre em Cena como operador de luz"

Foto: Heloisa Bortz / Divulgação / CP Foto: Heloisa Bortz / Divulgação / CP






Com Dan Stulbach no elenco, o espetáculo "Morte Acidental de Um Anarquista" integra a programação do 23º Porto Alegre em Cena, com apresentações neste sábado (21h) e domingo (18h) no Theatro São Pedro (Praça da Matriz, s/nº), com ingressos a R$ 80.  No domingo, também haverá uma sessão extra, às 21h, em homenagem ao ator Domingos Montagner, que morreu nesta quinta-feira. Esta apresentação terá entrada gratuita e as senhas de acesso serão distribuídas na bilheteria do teatro uma hora antes do início da peça. A irreverente comédia do dramaturgo italiano Dario Fo (Nobel de Literatura em 1997) gira em torno de um louco cuja doença é interpretar pessoas reais e é detido por falsa identidade. Na delegacia, se passa por um falso juiz na investigação do misterioso caso da morte de um anarquista. A polícia afirma que ele teria se jogado pela janela do quarto andar. A imprensa e a população acreditam que foi jogado. O louco vai enganando um a um, assume várias identidades e, brincando com o que é ou não é real, desmonta o poder e acaba descobrindo a verdade de todos nós. Fo partiu de um caso verídico: o “suicídio” do anarquista Giuseppe Pinelli, em Milão, em 1969, e escreveu este texto em 1970.

"Morte Acidental de Um Anarquista" ainda é atual, 45 anos depois de escrita. O personagem do Louco (Dan Stulbach), vê no ato de representar um juiz como ponto alto de sua "carreira", pois já se passou por médico cirurgião, psiquiatra, bispo e engenheiro naval, entre outros. No elenco, estão ainda Marcelo Castro, Henrique Stroeter, Riba Carlovich e Maíra Chassereaux. Em entrevista ao Correio do Povo, o ator e apresentador Dan Stulbach fala sobre o espetáculo, a relação com o Sul e o Porto Alegre em Cena e sobre a sua versatilidade nas atuações e também como apresentador de programas esportivos e humorísticos.

Correio do Povo: É impossível não te perguntar, qual a atualidade deste texto "A Morte Acidental de um Anarquista" com a política brasileira atual?
Dan Stulbach: Quando estávamos terminando as temporadas de "39 Degraus", eu e o Henrique Stroeter queríamos montar outra comédia daquelas que divertisse e fizesse pensar. O Henrique tinha visto a montagem de "A Morte Acidental de um Anarquista" com o Antônio Fagundes e eu já conhecia outros textos do Dario Fo. Estava montando "Meu Deus" com a Irene Ravache e começamos o projeto deste texto do dramaturgo italiano. A peça estreou faz um ano e meio. É o mais famoso texto de Fo. O interessante da atualidade do texto é que cada país faz uma analogia inédita. Li o texto em inglês e a montagem na Inglaterra fez uma analogia ao caso do assassinato do brasileiro Jean Charles, no metrô de Londres, em 2005. Nos Estados Unidos, há uma alusão à prisão de Guantánamo. Cada país tem uma possibilidade. A força da peça é esta. Ela é muito divertida. Tudo muito radicalizado, a plateia participa e decide o que vai acontecer. O público acaba rindo de si mesmo. A força da inteligência deste texto é isto, é investigada o suicídio ou assassinato de um anarquista mas reflete na atualidade, no que é forjado, no que parece e não é. Parece que foi escrito ontem. A vida não consegue ser abstrata. Onde eu for eu vou querer fazer o público pensar. Nesta peça eu sou o oposto do meu personagem em "Meu Deus". Naquela peça, eu era Deus, com uma atuação contida, muitas çAões internas. Antes, eu era o oposto em "39 Degraus". Agora eu faço cinco personagens, vozes.

CP: A tal versatilidade de Dan Stulbach, como tu podes explicá-la?
Dan Stulbach: Acho que o ator sempre tem aquela sina de querer viver várias vidas, por isso não tenho medo de me jogar no erro. Todos querem só acertar, acho que a gente aprende mais com os erros do que com os acertos. É a vontade do encontro com temas que gosto. Apresento o "Bola da Vez", na ESPN e também um programa esportivo na rádio CBN. Eu queria fazer perguntas diferentes sobre futebol e esporte em geral.

CP: O Porto Alegre em Cena, que recordações te traz?
Dan Stulbach: Para mim é enorme a emoção estar participando do Porto Alegre em Cena novamente, pois eu vim ao festival quando eu estava começando a minha carreira, na primeira edição, em 1994, operando a luz para o espetáculo "Áulis", do Celso Frateschi e do Elias Andreato, e atuando no "Pentesiléias", de Kleist, com a Bete Coelho. Eu tenho um livro assinado pela Dona Eva Sopher do Theatro São Pedro desde aquela época e depois ela me mandou o livro dos 150 anos. Tenho uma relação muito forte com Porto Alegre. Todo mundo acha que eu sou do Sul. Tinha uma bela amizade com o Nico Nicolaiewsky. Quando eu estava à frente do Teatro Eva Hertz, o Nico fez a última apresentação em São Paulo lá. Tenho uma ligação com a cidade e com a resistência que representa a longevidade deste festival. Os festivais promovem mais o encontro. Atualmente são menos grupos, pois está mais difícil fazer teatro. Tenho visto uma galera nova nos estados que resistem com boa cena local. Acho que Porto Alegre, Curitiba, Recife, Salvador e Belo Horizonte tem uma vida local teatral muito intensa. Eu adoro chegar em Porto Alegre e encontrar pessoas. Não sou de me isolar, fui criado deste jeito, montando e operando luz, querendo atuar, então sei a importância desta troca minha com que está começando.

CP: Qual o texto que te cativa muito e você ainda não conseguiu montar como ator?
Dan Stulbach: Uma das primeiras peças que montei ainda na escola de teatro foi o "Peer Gynt", do Ibsen. Gostaria de montá-la de novo, pois tem a trajetória de um homem, é completa, mas é mais difícil, pois necessita de um elenco grande e a produção seria complicada. Minha vontade seria de montar alguma coisa do Moacyr Scliar. Eu tinha uma relativa amizade com ele. Sei que já montaram "A Mulher que Escreveu a Bíblia". Talvez eu pudesse montar "O Centauro no Jardim".

CP: Para terminar, conte-nos sobre tua paixão pelo futebol e outros esportes.
Dan Stulbach: Adoro o futebol de verdade. Sou corintiano de coração e no Rio Grande do Sul não vou dizer o time, pois senão a outra torcida não vai ao teatro me ver, sei que a rivalidade é enorme, por isso é que o Gre-Nal é o maior clássico de futebol do país.

Por Luiz Gonzaga Lopes