Deby Brennand: "João Silva era uma força da natureza"
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Deby Brennand: "João Silva era uma força da natureza"

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Deby Brennand e o músico João Silva. Foto: Mariola Filmes / Divulgação / CP


O longa-metragem “Danado de Bom”, de Deby Brennand (Brasil, 74min), resgata a trajetória do músico brasileiro João Silva (1935 - 2013). Nascido em Arcoverde (PE), Silva foi para o Rio de Janeiro e, compondo músicas sobre o amor e o sertão, alcançou sucesso em parceria com intérpretes como o Trio Nordestino e depois Luiz Gonzaga. Entre suas músicas, podemos citar “Danado de Bom”, "Nem se despediu de mim" e “Pagode Russo”. Suas canções também foram eternizadas na voz de Dominguinhos, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Zeca Baleiro, entre outros. Em entrevista ao Correio do Povo, a diretora, que tem a veia artística na família (é neta do artista plástico Francisco Brennand), fala sobre a produção do filme.

Correio do Povo: Como surgiu o projeto para realizar o documentário sobre João Silva?
Deby Brennand: No início de 2006, a Roberta Jansen (produtora de João) procurou a Mariola Filmes para contar sobre o projeto. Ela havia descoberto o João através de um pesquisador e estava encantada com a história desse parceiro tão importante de Gonzaga, que estava no completo esquecimento. Foi aí que a Mariana me convidou pra dirigir e marquei um encontro com o João e a Roberta. Me surpreendi com a personalidade complexa e contraditória dele. Me identifiquei imediatamente e percebi a enorme responsabilidade que tinha ao realizar o filme.

CP: Como diretora, o que mais lhe impressionou sobre a personalidade do músico e poeta?
Deby Brennand: João tinha uma personalidade muito forte. Era alegre, falava muito sobre si, mas era tudo muito superficial. Pra chegar lá dentro levou tempo, tempo pra quebrar a couraça. No processo do filme, ele foi se abrindo aos pouquinhos e foi revelando uma sensibilidade que me encantou, muito mais do que já conhecia através de suas músicas. O que mais me fascinou foi o fato de ele ter sido um autodidata. Não era letrado, não frequentou a escola, aprendeu a ler e escrever lendo placas de cidade, jornais, como ele dizia: “juntando as letras”. Isso por si já parece contraditório, um compositor poeta ser iletrado. Mas pra mim tudo ficou claro quando o conheci. João era uma força da natureza. Nasceu com o dom da poesia e fez jus a ela.

CP: Pelos créditos se pode ver que a produção do documentário teve três fases: 2007, 2011 e 2015? O que dificultou a conclusão do filme?
Deby Brennand: No início ficava muito ansiosa com essa questão do tempo, mas acredito que cada filme tem seu tempo, e o tempo desse foi bom pra amadurecer meu relacionamento com João e isso fez bem ao filme. Contudo, a maior dificuldade foi escolher, dentro de todo o material, quais histórias iria contar. Tínhamos um roteiro pronto quando João faleceu em 2013. Ainda tinha programado filmagens com ele. Tivemos que refazer do zero. Comecei a reescrever com Henry Grazinolist. Foi aí que a Jordana Berg chegou e me ajudou a decidir o caminho. Uma outra questão foi a fotografia. Quando começamos não havia câmeras em HD de fácil acesso. Ainda se filmava com mini DV e decidi continuar até o fim com essa estética nas entrevistas. Fizemos imagens em 16mm ao longo de todo o processo, que conversa bem com as imagens de arquivo. Temos imagens que fizemos em 16mm que as pessoas acham que são de arquivo.

CP: Infelizmente João Silva não pôde ver o filme pronto. Como foi lançá-lo sem a presença do artista?
Deby Brennand: Foi muito difícil para mim ter que passar por este momento sem ele. Acredito que ele estaria emocionado e muito feliz, porque era o que ele queria: ser reconhecido como “artista”. Ele brincava muito comigo sobre isso. Ainda não tenho muita experiência, este é o meu primeiro longa. Mas tenho muito orgulho dele ser sobre João.

CP: Quais seus próximos trabalhos para o cinema?
Deby Brennand: Fui convidada pra dirigir um documentário sobre Frei Damião de Bozzano, um frade italiano radicado aqui no Brasil, em Pernambuco, que por muitos nordestinos é considerado santo e que agora está em processo de beatificação no Vaticano. Ele passou a vida realizando missões e ocupou-se em disseminar as santas missões pelo interior do Nordeste. Eram cruzadas missionárias, de alguns dias de duração, pelas cidades nordestinas. Tem vários milagres relacionados a Frei Damião e a sua história é muito interessante. Começamos a filmar no próximo semestre.

CP: O cinema pernambucano vive uma fase de efervescência que tem sido elogiada Brasil afora. Enquanto cineasta pernambucana, como você enxerga este momento?
Deby Brennand: João Vieira Jr, produtor pernambucano, disse que “O cinema de Pernambuco é, acima de tudo, um cinema brasileiro que quer dialogar não só com o estado, mas com o país e com o mundo, sem perder o DNA nordestino”. Eu vejo e sinto exatamente assim. Durante muito tempo, pelas dificuldades de patrocínio, que sempre foi mais concentrado na região sul e sudeste, nós tivemos que nos reinventar, fazer produções com o mínimo de recursos e com muita criatividade pra suprir isso. Essa é uma escola que, apesar de ser mais difícil, enriquece muito o aprendizado. Ter que fazer funções diferentes em situações inusitadas estimula muito a criatividade e o conhecimento. Hoje estamos vivendo um bom momento. A participação do Estado incentivando o audiovisual colabora muito pra que as produções sejam realizadas. E temos boas produções a caminho.

por Adriana Androvandi