Diálogos

Falcão: “O problema na organização do futebol brasileiro é que os dirigentes acham que sabem tudo”

Falcão criticou organização do futebol brasileiro. Foto: Cristiano Munari Falcão criticou organização do futebol brasileiro. Foto: Cristiano Munari


Ídolo do Inter e atualmente técnico do Sport Recife, Paulo Roberto Falcão concedeu entrevista ao programa Na Marca do Pênalti, da Rádio Guaíba, que foi ao ar neste sábado. Entre outros assuntos, o Rei de Roma falou sobre os problemas na organização do futebol brasileiro. Ele criticou a forma como são feitas as eleições presidenciais na CBF e disse que falta humildade para os dirigentes brasileiros, que, segundo ele, não buscam conhecimento fora do país. Confira a entrevista na íntegra:

Rádio Guaíba: É mais difícil ser treinador ou comentarista?

Paulo Falcão: Trabalhar no futebol é muito mais difícil. Comentar, para ter um bom comentário, também gera esforços. Tem de estar sempre ligado para ter capacidade para falar do jogo, mas ser treinador é mais difícil. Quando se é treinador, as coisas não dependem só de você. Tem muitas variáveis que você não tem controle. O treinador controla o grupo, os jogadores, o preparador, mas tem que se preocupar com a torcida, com a imprensa, que são coisas que você não controla.

Rádio Guaíba: Qual a importância do treinador nos resultados de um time?

Paulo Falcão: O treinador começa a ganhar o jogo no início da semana. Sempre digo para os jogadores que na terça-feira inicia a partida de domingo. O trabalho do treinador é durante a semana. Eu não mudo o time de acordo com o adversário. Se for jogar contra o Barcelona, não dormirei uma semana. Não temos nenhum Barcelona, Bayern ou Real Madrid no Brasil. Não tem por que ficar mexendo no time independente do adversário. Tem que montar sua equipe do jeito que está acostumado a jogar e procurar dentro disso fazer o meu. Acho erro mudar. Se eu tornar o meu time mais defensivo, vou dar o recado para os meus jogadores de que nosso time é pior que o adversário. Isso vale para quando você joga contra um time do mesmo tamanho. Só deve mudar quando o adversário for muito superior. Muitas vezes o time joga com três volantes e o goleiro é o melhor em campo. Isso está errado. Se você coloca mais homens de marcação, a bola não pode chegar no seu goleiro.

Rádio Guaíba: Como você avalia sua passagem pela Seleção Brasileira?

Paulo Falcão: Assumi com a ideia de montar uma Seleção com jogadores que atuassem no Brasil. Hoje parece impossível, mas na época também. Fiz um laboratório nos primeiros seis meses e isso foi muito importante. Aí apareceram Cafu, Márcio Santos, Mauro Silva, Leonardo, Mazinho e outros. Muita gente foi revelada. O Parreira depois me agradeceu. Ele me disse que o trabalho feito por mim naquele período adiantou dois anos do dele. A safra naquele momento estava em crise. A final do Paulista daquele ano, por exemplo, foi Novo Horizontino e Bragantino. Tive de fazer uma renovação sem ter os jogadores. Hoje você tem Neymar, Oscar e outros.

Rádio Guaíba:  Por que o Brasil levou 7 a 1 da Alemanha?

Paulo Falcão: O 7 a 1 foi um escândalo. Ninguém esperava isso, nem a Alemanha. Eu tinha a convicção de que o Brasil não tinha como ganhar o jogo pelo que os dois times vinham apresentando, mas 7 a 1 eu não esperava. Nós tomamos três gols em quatro minutos. Eu comentei esse jogo e o narrador me perguntou o que fazer. Eu disse que tinha que parar o jogo. No entanto, lá na hora, no campo, o jogador tem um branco. Foi um dia que deu tudo certo para a Alemanha e errado para o Brasil. Pode se discutir alguma coisa de escalação, mas é algo que fica difícil explicar. Tem coisa que parece que está escrita.

Rádio Guaíba:  A geração atual do futebol brasileiro é fraca?

Paulo Falcão: A nossa safra é muito boa. O que precisa é tempo. O jogador europeu tem uma cultura tática maior, isso para o brasileiro leva mais tempo. Agora o fato de termos muitos jogadores na Europa facilita. Ou pelo menos deveria facilitar. Você olha jogadores como Oscar, Douglas Costa, Philippe Coutinho, William. Isso sem falar no Neymar. Todos esses são jogadores para fazer uma seleção muito boa, mas precisa tempo para trabalhar.

Rádio Guaíba: É mais difícil jogar na Europa ou no Brasil?

Paulo Falcão: Na Europa é mais difícil. Eles têm uma consciência tática maior, o lateral, o zagueiro e o volante, todos eles sabem onde têm de marcar. Eles não trocam de lugar toda hora, e não tem de trocar. Uma vez um jogador (brasileiro) me falou que teria pouco espaço para jogar assim. Eu mostrei o tamanho do campo para ele e o espaço que ele ocuparia. Mostrei que ele se deslocaria ocupando o espaço para criar e depois marcar. Não adianta você se mexer demais e ficar desorganizado para quando perder a bola. No time cada um tem de ter sua função, saber onde marcar e se posicionar. O time não pode perder a bola com os jogadores fora de lugar. É assim que entendo o futebol. Na Europa se tem muito mais marcação.

Rádio Guaíba: O que você acha da ida do Alisson para a Roma?

Paulo Falcão: Acho o Alisson muito bom goleiro. Já falava isso no ano passado. Ele vai ajudar bastante a Roma. O futebol lá é diferente, mas penso que ele não terá muita dificuldade. Ele teve a chance aqui em uma situação que Muriel e Dida tiveram problemas, entrou e se firmou. Acho um grande goleiro penso que vai se dar bem.

Rádio Guaíba: Qual a sua opinião sobre o atual momento da CBF?

Paulo Falcão: É difícil alguém que não esteja no sistema entrar. Já me convidaram para tentar lançar uma candidatura. Me informei e vi que era impossível. Existe uma estrutura que deixa impossível ganhar uma eleição. Isso é muito triste. O futebol deveria ser a coisa mais ingênua porque mexe com a paixão. O torcedor vai ao campo na expectativa de ver aquilo que ele até sonha em fazer na pelada dele de fim de semana. Esses escândalos tiram o encanto do torcedor, que vê isso e tem de cobrar. Os clubes precisam se fortalecer nessa situação. A CBF deve cuidar da seleção e os clubes criarem uma liga. O problema é também que os clubes não conseguem criar essa liga. As pessoas precisam ter humildade e reconhecer que não sabem fazer. Precisa buscar com quem sabe, viajar. Ninguém saí daqui. Nós (brasileiros) somos muito arrogantes em futebol. Você conversa com um dirigente e ele pensa que sabe tudo. Teve um final de semana que estava em um encontro de futebol e acabei desistindo. Se escuta tanta bobagem que dá vontade de ir embora.

Rádio Guaíba: Você já sofreu influência de dirigente na hora de escalar o time?

Paulo Falcão: Foi no Gre-Nal famoso do Olímpico (final do Gauchão de 2011). Ficaram falando para fechar, para não tomar gols. Eu botei o Juan na lateral e o Kléber no meio com a ideia de tentar sair para o jogo no segundo tempo. Acabamos levando um gol e eu não podia esperar o intervalo. Mexi com 20 minutos, tirei o Juan e botei o Zé Roberto. Acabamos terminando o primeiro tempo com 2 a 1. Depois ganhamos o jogo e o títulos nos pênaltis. Nesse jogo eu fui condicionado a colocar o time para trás. Isso não vai acontecer nunca mais. A gente vai aprendendo.

Rádio Guaíba: Você se arrepende de ter escalado o Ricardo Goulart contra o Peñarol na Libertadores de 2011?

Paulo Falcão: Foi cometida uma injustiça com o patrimônio do Internacional. Botei ele naquele jogo contra o Peñarol porque o Zé Roberto não estava à disposição. As pessoas rotularam ele de forma injusta. Depois foi bem no Goiás até chegar no Cruzeiro, onde foi craque do campeonato. Eu acreditei nele porque achei que era um jogador que iria crescer. O dono do passe queria vender o Ricardo por R$ 4 milhões, ninguém comprou. Depois daquele campeonato com o Cruzeiro, ele saiu por R$ 42, o empresário lucrou 21. O Inter podia ter comprado ele por R$ 1 milhão e não comprou. Eu consigo ver o jogador e saber se ele vai crescer. Na época (no Inter) tinha forçação para botar quatro ou cinco jogadores. Eu dizia que não iam vingar. Não pode ter obrigação de colocar a base, a base deve ser usada se tiver qualidade. O Sport tem o Campeonato Pernambucano e a Copa do Nordeste no começo do ano. Depois tem a Copa do Brasil ou Sul-Americana além do Brasileirão. O sexto lugar no Brasileiro para o Sport já foi uma grande coisa. Deixamos para trás muitos clubes grandes. Foram 59 pontos conquistados, a apenas um do Inter e três do São Paulo. Não foi pouca coisa. Não vou priorizar nenhuma competição no ano que vem.

Ouça a íntegra da entrevista:



Por Rádio Guaíba