Diálogos

Ian Anderson: “Você não pode expressar a si mesmo com uma fórmula pronta”

"Porto Alegre sempre nos recebeu muito bem" Foto: Divulgação / CP


O líder, flautista e vocalista do Jethro Tull, Ian Anderson, volta aos palcos gaúchos neste terça-feira. O músico apresentará o espetáculo “The Rock Opera” e celebrará os 47 anos de carreira internacional. Anderson é reconhecido por ter adicionado a flauta ao rock e segue como o maior expoente do gênero. O novo show conta a trajetória do agricultor Jethro Tull, que viveu durante o século XVII e serviu de inspiração para a banda. Com um repertório que inclui canções tradicionais, como “Heavy Horses”, “Farm On The Freeway” e “Songs From The Wood”, o espetáculo reinventa a história do personagem e a aproxima de um futuro próximo.

Correio do Povo: O que o público de Porto Alegre pode esperar do espetáculo The Rock Opera, da história, das músicas, dos arranjos?

Ian Anderson: Nós estamos contado a história de Jethro Tull (30.3.1674-21.2.1741), mostrando ao mundo contemporâneo quem foi o responsável e o grande pioneiro da agricultura científica, durante o período da Revolução Industrial. Quando pesquisamos sobre ele, encontramos grandes histórias, de uma bela visão de futuro que ele tinha. O mundo pensado por Jethro Tull está nesta Rock Opera. Todas as letras das músicas terão tradução em português. Despertei para esta ópera quando estava viajando pelo interior do Reino Unidos no último verão. Olhando pelo carro para os campos, para as máquinas e implementos agrícolas, me dei conta que tudo aquilo tinha resultado de uma ideia e pesquisando durante meia hora na internet, com o carro parado, vi que havia esta conexão do cara cujo nome batizamos a banda e que podíamos realmente contar esta história utilizando as nossas músicas e criando músicas e arranjos novos. Entre janeiro e março, criamos cinco músicas novas e o processo da ópera, costura, vídeos etc. Em março, fizemos os ensaios com todas as músicas, chamamos alguns convidados especiais e aqui estamos prontos para voltar ao Brasil e apresentar este espetáculo para vocês.

CP: Para o público mais jovem, os músicos que estão iniciando, existe alguma mensagem de estímulo para que cheguem a algum lugar com o que fazem, como creio que você chegou?

Ian Anderson: Minha mensagem para o público jovem, para os músicos iniciantes é que se encorajem para viver aquilo que querem, fazer aquilo que realmente acreditem, mesmo que seja um caminho mais difícil. Não tentem imitar alguém, copiar algo que já foi feito só porque dá certo, porque faz sucesso. O que é feito por outras pessoas não pode reproduzir a expressão interna. Você não pode expressar a si mesmo com uma fórmula pronta. Hoje temos estes programas de talentos na TV, que estão por toda a parte. Mas o que vemos são pessoas copiando Freddie Mercury, Rod Stewart ou Mariah Carey. Quem inicia tem que ter convicção na sua obra, naquilo que quer mostrar. Tem que ser confiante, fazer algo genuíno e o sucesso ou não vai depender de uma série de coisas, mas a consciência sempre estará tranquila.

CP: Quando você tomou a decisão de se desfazer de uma guitarra Fender Stratocaster por uma flauta?

Ian Anderson: O ano era 1967. O mês era junho. Guitarristas havia muitos e todos tão bons. Tínhamos Jimmy Page, Jimmy Hendrix, Eric Clapton, Ritchie Blackmore. Eu nunca iria conseguir render tanto ou ser um guitarrista ao nível. Era uma luta perdida. Me desfiz da minha Fender Strato e escolhi a flauta, que eu achava um belo instrumento. Era um mecanismo pequeno, compacto, parecia fácil de dominar. Seis meses depois, em dezembro, eu já estava tocando um par de notas e logo me apresentando no Marquee Club, em Londres, como flautista numa banda nova. O resto a maioria já sabe, foi o começo do Jethro Tull, com shows todas as quintas nesta casa no Soho até gravarmos o primeiro disco This Was. Foi uma decisão de tentar se destacar no instrumento e acho que acabou dando certo.

CP: Fora do Jethro Tull, você é uma personalidade muito interessante. Queria saber sobre um aspecto de sua vida que nem todos abordam. O seu hobby por colecionar câmeras e outros objetos. O que é fato, o que é lenda?

Ian Anderson: Eu não sou um colecionador. Tenho um hobby. Comprei algumas câmeras fotográficas. No início, eram as mais antigas, mecânicas. Eu devo ter umas 34 ou 35 câmeras. Eu gosto de fotografar, de ter amostras do engenho de cada uma em captar os momentos da vida, da carreira, dos shows. Desde 2001, tenho mais câmeras digitais do que mecânicas. Devo ter três ou quatro mais antigas. Agora é muito mais difícil conseguir os filmes. Prefiro usar as digitais, pois podemos disparar todo o dia, não tem todo o processo de revelação. Posso dizer que as câmeras são como guitarras e flautas, tenho algumas e vou variando conforme o momento e o gosto. O bom da digital é que você pode trabalhar melhor o tratamento da imagem, tem como mexer, utilizar mais filtros etc. Eu penso que também acaba sendo uma opção mais barata do que manter o hábito de fotografar e revelar com as câmeras mais antigas.

CP: Quais as suas recordações de outros shows em Porto Alegre e no Brasil?

Ian Anderson: São as melhores possíveis. É um público qualificado, que entende as nossas músicas, que participa ativamente de todas as apresentações. Daria para dizer que Porto Alegre sempre nos recebeu muito bem e todos com quem falei ou percebi lá do palco estavam em sintonia com o que estávamos fazendo. Ansioso para tocar novamente para este público.

Por Luiz Gonzaga Lopes