Diálogos

Jacques Wainberg: "Brexit é um sinal perigoso de que a nova Europa pode retornar aos parâmetros da velha Europa"

Professor Jacques Wainberg avalia que Europa divergências políticas graves com Brexit Foto: Divulgação / PUCRS Professor Jacques Wainberg avalia que Europa pode ter divergências políticas graves com Brexit Foto: Divulgação / PUCRS


A saída do Reino Unido da União Europeia marca uma nova era no Velho Continente e coloca dúvidas sobre a estabilidade da região. Líderes mundiais olham com desconfiança o resultado de um processo que dividiu a ilha nas últimas semanas. Para o professor Jacques Wainberg, mestre pela University of South Caroline e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, o referendo foi motivado, especialmente, pela questão dos refugiados. "Se criou um mal estar no Reino Unido. A entrada de refugiados deu a sensação aos nativos de que a posse do próprio território foi perdida", afirmou.

Correio do Povo: Como o senhor analisa a saída do Reino Unido da União Europeia depois de 43 anos de participação?
Jacques Wainberg: É um choque porque a construção da nova Europa ocorreu em cima da memória da guerra mundial, e a visão da nova Europa visava a construção de um território de paz, com de fronteiras abertas e baseado na permanência da democracia. O continente estava pacificado e enfrentava os problemas do mundo de maneira unificada, mas se criou um mal estar no Reino Unido. A principal queixa era a imigração. A entrada de refugiados deu a sensação aos nativos de que a posse do próprio território foi perdida.

CP: Qual a principal causa para este resultado do referendo?
Jacques Wainberg: O ápice desse "mal estar" foi com a questão dos refugiados e não me refiro aos que fugiram do Oriente Médio. Milhares de pessoas da Romênia, Polônia, oriundos do Sul da Europa, da chamada "Europa pobre" em busca de emprego e de uma vida melhor. Romenos e poloneses se aproveitaram deste ambiente de fronteiras abertas para isso e os nativos reagiram com o nacionalismo, uma emoção partilhada também por outros povos, como os franceses. Esta saída é um sinal perigoso de que a nova Europa pode retornar aos parâmetros da velha Europa, com divergências políticas graves.

CP: Qual o impacto da saída de David Cameron?
Jacques Wainberg: O David Cameron na realidade foi derrotado. Ele como primeiro-ministro jogou todas as cartas e fez apelos pela permanência, mas sendo derrotado ele se sentiu na obrigação de, digamos assim, se retirar. Ele não poderia estar à frente do governo que foi contra o posicionamento da população. Me parece que tomou uma decisão responsável e correta. Agora é preciso surgir um governo que possa assumir o país e tocar o processo adiante. As consquências dessa saída do bloco deverão ser avaliadas e ainda não se tem uma clareza de como isso pode ocorrer. Pode ocorrer um efeito dominó, com outros grupos nacionalistas se manifestando em outros lugares, como a Escócia, por exemplo. A Inglaterra junto com a França e a Alemanha eram os principais motores do continente e agora precisamos esperar para ver como isso vai se desenrolar. Pode haver um atraso no crescimento do país. É um momento de transição transição grave.

CP: Como ficarão os acordos firmados com o bloco no passado?
Jacques Wainberg: O principal clamor do povo é o controle das fronteiras. Há uma emergência no assunto e um olhar muito nacionalista. Alguns partidos que pensam assim estão encontrando eco na Europa. Políticos da Inglaterra acreditam que a saída do bloco é um retrocesso histórico e que pode reverter o processo aos patamares da época em que a Europa vivia em conflito. Muitos acordos irão sucumbir e o que está em jogo é a Otan. Não sei qual serão as consequências em relação a isso. A decisão da Inglaterra de não assumir a moeda da zona do euro foi importante e já há vozes na Itália que querem o retorno da antiga moeda.

CP: Qual o impacto em relação a imigração?
Jacques Wainberg: Acho que o que vamos perceber é que o controle de fronteiras ficará bem mais forte. Os ingleses convivem com a sensação de que a Inglaterra foi invadida e esse discurso tem sido usado na retórica de quem defendia a saída da União Europeia. Há uma fuga de jovens no Brasil e a Inglaterra é um dos alvos dessa fuga. Este fluxo de pessoas provocou uma reação muito forte e haverá repercussão econômica.

CP: Inglaterra fica mais frágil no enfrentamento do terrorismo ?
Jacques Wainberg: O terrorismo islâmico que vemos por aí não é mais aquele terrorismo de esquerda. O que está em jogo é uma guerra cultural, que junta segmentos do islã que lutam pela construção de um califado em outros países. É um conflito de grandes proporções e a Inglaterra já sofreu atentados terroristas. Esse assunto é um dado extremamente importante no xadrez europeu. Eu não sei se enfraquece a Inglaterra, mas a sensação da população é de que fica mais forte, até porque seria um contrassenso votar pela saída do bloco sabendo que ficar mais frágil. O que os ingleses querem é obter o controle das fronteiras e, por consequência, controlar a imigração.

Por Luiz Cordeiro de Mello