Diálogos

Jefferson Simões: "Coletamos testemunhos e fazemos uma bateria de análises químicas que representa a história do clima do passado"

As maiores revelações sobre a história do planeta e da humanidade podem estar, acredite, em blocos de gelo. Por meio de amostras retiradas das profundezas das geleiras, que estão derretendo devido às alterações climáticas, pesquisadores conseguem resgatar os elementos que compunham a atmosfera de períodos de até milhares de anos.

Desta forma, além de entender o que provocou as mudanças no passado, é possível projetar o futuro. Este é o trabalho que está sendo feito pelo Ice Memory, lançado em março na Unesco, em Paris. O projeto, desenvolvido por Itália e França, reúne cientistas de diversos países, como o glaciologista porto-alegrense Jefferson Cardia Simões, criador do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

Conhecido como o “pai da glaciologia” no Brasil, se formou em Geologia pela Ufrgs na época do lançamento do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), que teve sua primeira expedição em 1983. Desde então, Simões acumula 22 missões às duas regiões polares e, agora, é um dos pesquisadores sêniores da iniciativa ítalo-francesa que servirá de herança para as novas gerações.

Correio do Povo: Como funciona o Ice Memory?

Jefferson Candia Simões: Na técnica de testemunhos de sondagem de gelo, nós vamos tanto nas regiões polares, onde o gelo é mais estável e não está derretendo, como nas geleiras de montanhas. Coletamos esses testemunhos e fazemos uma bateria de análises químicas que representa a história do clima do passado, inclusive da química da atmosfera. O que nós estamos observando nesse momento de rápida mudança climática é que essas geleiras nas montanhas estão derretendo e, ao derreter, mesmo que seja parcialmente, nós perdemos esse registro, porque contamina as camadas que estão abaixo. Basicamente, a gente fura um poço vertical e quanto mais profundo você vai, mais antiga é. Alguns colegas europeus já chegaram a 800 mil anos, no Dome Concordia, que é a estação ítalo-francesa na Antártica, onde eles chegaram a mais de 3,2 mil metros de profundidade. Mas nosso problema não é esse, porque esse gelo é um gelo muito frio. Nosso problema são as montanhas. Muitas das geleiras das montanhas tendem, inclusive, a desaparecer nos próximos cem anos. E a questão chegou: como podemos fazer para preservar esse registro? Primeiro, para fazer análises e, segundo, a gente não sabe como vai ser o desenvolvimento científico, principalmente de técnicas que analisem essas amostras no futuro. A gente pensou na próxima geração, ou mesmo daqui três, quatro gerações. Então, veio esse conceito de Ice Memory, muito parecido com aquele que tem no Arquipélago de Svalbard, onde fizeram aquele depósito de sementes, de deixar para as próximas gerações. O nosso é um registro científico. Qual é o registro da variabilidade climática, no passado e neste momento? Isto está tudo armazenado nessas camadas de neve e gelo.

CP: O gelo funciona então como registro?

Jefferson Candia Simões: É um arquivo, porque a camada que está na superfície é a camada deste ano. Brevemente, ela já vai ser enterrada pela camada do ano seguinte e assim por diante vai acumulando através do tempo. As geleiras, ao contrário do que o leigo acha, não são rios congelados. Elas são formadas pela precipitação de neve que vai se acumulando ao longo do tempo, é claro, em um lugar que não derrete. Agora, se começa a derreter, você perde essas camadas. A neve reflete a composição química da atmosfera do momento que ela se formou. Então, uma neve que tem 500 anos reflete a época do descobrimento do Brasil, uma neve de 2000 anos, o auge de Roma, uma neve de 18 mil anos, o auge da otimidade do gelo e assim por diante. O cientista leva cilindros obtidos pela perfuração do gelo — no nosso jargão é testemunho de gelo, mas são cilindros, leva isso para o laboratório e faz uma série de análises. Algumas, a gente até faz aqui e outras têm que fazer em outros países.

CP: O que está sendo feito nessa fase inicial do projeto?

Jefferson Candia Simões: Essas amostras vão começar a ser coletadas. O primeiro exercício os franceses fizeram no Mont Blanc e coletaram dois testemunhos. Um vai ser analisado e outro vai para a Antártica. E a mesma coisa nós vamos fazer agora, com a participação brasileira, na Bolívia, no Nevado Illimani. É uma montanha de 6,2 mil metros. A esperança é que vá ter uma amostra de 150 metros, que deve dar uns 20 mil anos de idade. Uma parte vai ser analisada e a outra vai ser transportada para a Antártica e vai ficar armazenada lá, para as gerações futuras. Está sendo levado para lá, porque é um lugar frio. É no interior da Antártica, não é na periferia. Isso é interessante, o pessoal acha que a estação antártica brasileira fica na periferia da Antártica, onde a temperatura média é ao redor de -2,8 e -3 graus. Isso é quente para a Antártica. No lugar onde colocamos, a temperatura média é -50 graus, facilmente no inverno vai a -70. Um dos locais que vai ser armazenado é nessa estação ítalo-francesa ou franco-italiana, que se chama Dome Concordia ou Dome C, e fica no platô antártico. Talvez alguns testemunhos irão para estação russa de Vostok, outros para a estação norte-americana Amundsen-Scott, essa que fica bem no polo sul geográfico. É só questão de serem lugares muito frios, onde nós sabemos que pode haver aquecimento, mas que não vai fazer diferença nenhuma, pois vai continuar sendo muito frio.

CP: Qual a importância do estudo no processo de derretimento de geleiras?

Jefferson Candia Simões: O estudo é uma proteção contra o derretimento. É o melhor arquivo que nós temos da história do clima. Então, é um estudo da variabilidade do clima e da química da atmosfera. Nós, no Brasil, estamos interessados principalmente em um testemunho de gelo que está pertinho da Amazônia, a 350 quilômetros da floresta, e logo no caminho de onde vem a fumaça das queimadas de Rondônia. Nós temos, a leste, queimadas, desmatamento, ocupação urbana, desmatamento para a criação de gado. Uma das coisas que nós estamos tentando ver é se não está no testemunho de gelo o registro dessas mudanças ambientais, inclusive mudanças no ciclo de precipitação da Amazônia. Por isso, o nosso interesse específico nessa montanha.

CP: Qual é exatamente o perigo no derretimento das geleiras?

Jefferson Candia Simões: Simples: o nível do mar no presente é controlado pelo volume de água que está como gelo ou como água. Quanto mais gelo tivermos, mais o nível do mar baixaria. Nesse momento da história da Terra estamos observando um rápido derretimento das geleiras de montanha. Não do centro da Antártica e sim do sul da Groenlândia e das montanhas. Eu posso citar Andes, Montanhas Rochosas, Alpes, Himalaias, tudo isso está derretendo rapidamente e contribuindo para aumentar o nível do mar. Eu até brinco, mas falando a verdade, que não compro casa na beira da praia. Porque temos cenários de aumento do nível do mar nos próximos 80 anos de 30 centímetros até 1 metro e isso é na vertical, o que avança algumas quadras praia adentro. Isso é o cientificamente aceito. Porque se todo o gelo do planeta fosse derreter, o nível médio dos mares subiria entre 65 a 70 metros. Mas isso a gente sabe que não tem como acontecer na escala temporal humana e não temos evidência de que tenha ocorrido nos últimos milhões de anos. Mas essa variação de alguns metros ocorreu no passado, pode ocorrer naturalmente e nós estamos intensificando.

CP: Hoje já é comprovado que o homem intensifica o aquecimento global?

Jefferson Candia Simões: Sim, hoje 98% dos artigos científicos e todas as evidências apontam para a interferência humana. E, mesmo nesses 2% restantes, nós temos que cuidar que tem um discurso ideológico que ficou bem mais claro agora com o pessoal que adquiriu o poder no governo Donald Trump. Vários deles negam, por razões ideológicas e econômicas, propositalmente o impacto do homem, porque não interessa à indústria tradicional, principalmente de grandes veículos automotores e poluentes e à indústria do carvão, tocar nesse assunto. Claramente, a comunidade científica está muito revoltada com esse atual governo, porque, além de ser conservador, ele é burro.

CP: De que forma a humanidade afeta o equilíbrio do planeta?

Jefferson Candia Simões: O efeito estufa é um fenômeno natural, nós estamos falando da intensificação. E, hoje em dia, a principal contribuição ainda é o aumento de dióxido de carbono e metano, o CO2 e o CH4. O CO2 é, basicamente, a queima de combustível fóssil, mas é variável, tem vários usos. Não são só os veículos, é muito no consumo do carvão, muitas termoelétricas altamente poluentes. Por isso que principalmente a China está fazendo grande esforço de fechar termoelétricas enquanto que, no Brasil, durante os últimos governos, se fez o contrário, porque não houve planejamento. Já o metano tem várias fontes pequenas, mas o que preocupa mais hoje é que está sendo liberado com a aceleração do derretimento do solo congelado do ártico. Cerca de 30% do Hemisfério Norte tem o solo congelado, principalmente na Sibéria, no norte do Canadá e no Alasca. Esse solo está derretendo e liberando metano. Isso é uma preocupação. E interessante é que todos esses gases a gente mede nos testemunhos de gelo, dá para ver toda a concentração. Essa foi a melhor evidência do aumento do CO2 agora diretamente na atmosfera, mas a gente tem esse registro para os últimos 800 mil anos e nunca as concentrações de CO2 e CH4 estiveram tão altas quanto no presente. E, este ano, o CO2, principalmente, está começando a sair das previsões, está subindo mais rápido. Temos um aumento de basicamente 40% da produção de CO2 desde a Revolução Industrial.

CP: Como é possível mudar este quadro?

Jefferson Candia Simões: Nós temos que entender que o processo é muito recente na história do planeta. Nós não podemos também ser maniqueístas. Nós tivemos a Revolução Industrial, mudanças rápidas no modelo econômico, aumento da produtividade, só que os modelos de energias ainda são muito ineficientes. Além de não produzirem muita energia, eles são, muitas vezes, danosos ao mesmo ambiente, jogando poluentes, modificando a química da atmosfera. Então, nós temos que tomar ação. A ação não é parar tudo, é impossível parar tudo. A ação é ser mais eficiente no modo de produção energética, usar as técnicas alternativas, que estão se tornando cada vez mais baratas. Há 20 anos se achava impossível a energia eólica, hoje está cheio de parques eólicos. A energia solar também está barateando. É questão de uma década. Hoje já estão começando a aparecer miniplacas solares, porque é aos pouquinhos. Daqui a pouco, já não se carrega mais o celular com energia e assim vai. Não existe solução milagrosa e nós não podemos ser maniqueístas, a solução está em usar as tecnologias alternativas, todas elas. Não vamos substituir de uma hora pra outra o óleo e o gás, isso é bobagem, mas nós podemos diminuir o consumo e principalmente a proporção entre eles.

CP: Mesmo se desconsiderarmos a intensificação mais recente, veremos que desde sempre a humanidade destruiu o planeta?

Jefferson Candia Simões: Essa ideia de destrutiva ou não eu acho absurda, porque no momento em que se nasce já se está gerando impacto ambiental, a não ser se tu entrar num tipo louco de ambientalismo de gente que diz que devia acabar a espécie humana, porque daí o planeta seguiria. A grande questão é a seguinte em termos ambientais: a espécie humana cresceu em termos de ocupação e em termos de número de indivíduos. Já estamos com cerca de 7 bilhões de indivíduos. É interessante que alguns setores acham que falar em limite de população é neomalthusianismo. Thomas Malthus que dizia que tem um limite da população. Não tem, cedo ou tarde vai se chegar a 10, 11 bilhões de indivíduos. É claro que esse controle pode ser até natural. Em alguns países como o Brasil começou a decrescer a taxa de natalidade sem campanha nenhuma do governo, mas se tem limite, também tem limite de um tipo de consumo. O que nós sabemos, é claro, é que o planeta não pode, todo ele, consumir igual a um cidadão médio americano. Ele não tem esses recursos. E inclusive tem aquele ditado que só existe dois tipos de pessoas que acreditam que um planeta finito tem recursos infinitos: ou você é um estúpido ou você é um economista. Só hoje está entrando na economia ambiental que você tem limite físico, que este planeta é limitado, não se pode ir produzindo sempre sem ter limite. Pode-se melhorar muito a qualidade desse consumo com a tecnologia, mas mesmo essa tecnologia tem limite. Nós temos que dar limites, não podemos olhar para os Estados Unidos e almejar aquilo. É um estilo de vida que não nos leva a nada, está se comprovando que é falido, frágil e com uma escala de valores muito fraca. É isso que nós temos que pensar, isso só leva a um desequilíbrio.

CP: O derretimento de geleiras e a Antártica pode parecer algo muito distante de nós. Como mudar este pensamento?

Jefferson Candia Simões: O gaúcho em si é o que deveria, por motivos óbvios, mais pensar sobre a questão antártica, porque está no nosso cotidiano. A Antártica está mais perto do RS do que Roraima. Não precisa dizer, o gaúcho já sabe: cada frente fria que entra é formada ao redor da Antártica, a nossa circulação atmosférica oceânica é toda controlada pelos processos que ocorrem lá. Já sabemos que, conforme varia o gelo marinho, varia o clima aqui. Então, dependemos e muito da Antártica, nossa biodiversidade é controlada pelos processos que acontecem lá e, claro, como se espera, o sistema todo está integrado, não existe esse limite, nós estamos muito perto.

Por Henrique Massaro