Diálogos

Juarez Gutierrez: "Não podemos abrir mão de que seja um Carnaval organizado"

26diaf01 DESCRIÇÃO: Mostra de sambas enrredos Juarez Gutierres de Souza (pres. do Liespa) Foto: Fabiano do Amaral


Envolvido há mais de 20 anos com a organização do Carnaval de Porto Alegre, Juarez Gutierrez não se imagina fora da principal festa brasileira. Há quatro anos como presidente da Liga Independente da Escolas de Samba de Porto Alegre (Liespa), o comerciante enfrenta um dos maiores desafios dos 45 anos em que se dedica à cultura e à arte: o novo modelo de financiamento do Carnaval. Com a divulgação do governo municipal de que não poderá arcar mais com o investimento aplicado ao longo dos anos, restou a procura por verbas da iniciativa privada. Entretanto, apesar da incerteza que paira devido ao pouco tempo que possui para viabilizar o desfile das Escolas de Samba, Gutierrez  enxerga no novo modelo imposto uma oportunidade de crescimento.

Correio do Povo: Teremos um Carnaval atípico. Por questão de organização, estrutura e as modificações que estão ocorrendo por falta de recursos. Como estão as negociações para que ocorra o Carnaval deste ano?
Juarez Gutierrez: Nós, enquanto representantes do segmento do Carnaval organizado, não podemos abrir mão de que ele tenha as mínimas condições técnicas de desfile e, consequentemente, de estrutura. Nesse momento, o que nós temos certeza é que está se dando continuidade aos eventos pré-Carnaval. Há o compromisso do poder público de nos dizer quais as empresas e quanto elas aportarão para que este Carnaval - minimamente estruturado e com o menor prejuízo técnico de desfile - venha a acontecer. Diante das respostas que teremos, viabilizando dois terços da meta de R$ 3,5 milhões (metade dos R$ 7 millhões dos carnavais anteriores), vamos operacionalizar o Carnaval com toda a grandeza e com a melhor qualidade possível que se possa alcançar dentro dessa redução e, inclusive, com o conhecimento dos presidentes (das escolas de samba) sabendo que receberão cachês menores e nem por isso deixarão de fazer o Carnaval.

CP: Podem ocorrer mudanças no formato dos desfiles?
Juarez Gutierrez: Não podemos abrir mão de que seja um Carnaval organizado, que preencha todos os quesitos, tenha um corpo de jurados, seja julgado e tenha um campeão. Ou seja, o Carnaval organizado das escolas de samba é um Carnaval de competição. Ele não sendo neste formato vai se transformar numa outra coisa. Se é pra ser outra coisa, podemos simplesmente fazer qualquer coisa. Se o dinheiro não alcança para fazer minimamente isso, podemos fazer uma versão maior das próprias descidas da Borges. Podemos ampliá-las e fazer uma passagem de carnaval, mas não a competição. Competição precisa de estrutura mínima, de condição técnica dentro das escolas para que os quesitos sejam julgados dentro de um histórico de regulamento que não tem como ser modificado. O regulamento é consoante com o desfile de 2017, mas ele foi efetivado em 2015 e finda em 2018. Então não há como fazer essas modificações. Os poucos cortes que nós poderíamos fazer para adequar o orçamento é diminuir a obrigatoriedade de uma alegoria, diminuir a quantidade mínima de batuqueiros, o número mínimo de baianas, que são penalizações administrativas. Essa, que depende da Liespa, podemos até abrir mão, mas tudo que interfere na competição nós não vamos abrir mão porque estaríamos descaracterizando o produto Carnaval competitivo de Porto Alegre.

CP: Muitas pessoas são atraídas para os desfiles de Carnaval por causa da beleza. Haverá prejuízos neste sentido?
Juarez Gutierrez: No quesito plástico, ele não sofre nenhum dano maior, mesmo com orçamento menor. O que ocorre é a diminuição das propostas que estão sendo levadas, que é o contingente geral das pessoas que desfilam e quesitos que dependem de pontos administrativos que a gente pode abrir mão. Por exemplo, ao invés de 150 ritmistas poderão ser 120. Ao invés de 60 baianas serão 40. São hipóteses aleatórias que diminuem orçamento para a escola, que não será penalizada antes de entrar para a competição. Se quem idealizou o Carnaval não puder contar o enredo a que ele se propôs é outra coisa. É isso que às vezes, quem não é do Carnaval, não entende. Pode se ter uma apresentação mais diminuta, mas não pode ter interferências na parte técnica.

CP: Quais são as expectativas de retorno de um Carnaval normalizado?
Juarez Gutierrez: Conceitualmente, a plataforma comercial que montamos é de cinco anos. Ela é de 2017 a 2022. Buscamos uma nova identidade. Nós nos propormos a ser o maior Carnaval do Conesul e não mais discutirmos se somos o terceiro, quarto ou quinto do Brasil. Ela tem outro viés, de crescimento gradual e recuperação deste ano, que ficou com a instabilidade que estamos vivendo, com ápice em 2022, tendo como condição um Carnaval 100% privatizado e de uma forma crescente. Portanto, em quatro anos teremos a retomada do realinhamento do carnaval privatizado com essa perspectiva profissional, pensada e idealizada em busca dele.

CP: Então o Carnaval de 2022 será de retomada das melhores épocas?
Juarez Gutierrez: Será o Carnaval de retomada dos épicos tempos, de magnânimos carnavais. Nós já tivemos. A cada década temos dois ou três carnavais que são expoentes. No ano 2000, por exemplo, tivemos um Carnaval fantástico em que as escolas entraram com o mesmo enredo, com aporte e incentivo, então se diferenciava dos demais. Isso é sazonal e a cada década tinha duas ou três oportunidades no modelo antigo. Neste modelo novo, nós estamos recuperando os melhores carnavais e estaremos consolidando, no máximo, num período de quatro anos. Então, na realidade, não estamos buscando o Carnaval do ano passado como referência. O melhor que podemos fazer é nossa melhor referência e temos como fazer de forma privada e organizada a médio e longo prazo. A curto prazo teremos um Carnaval transitório e sem prejuízo técnico.

CP: Dentro da nova realidade, de investimento privados, qual é a expectativa?
Juarez Gutierrez: Nós podemos ter a sorte de 2018 já ser o carnaval que sonhamos. O que colocamos como meta é que, no máximo, até 2022 nós temos que retomar tendo como referência os melhores carnavais que já tivemos. Estamos dando esse tempo, de médio a longo prazo, porque como é um fato novo, uma forma nova de se relacionar com o empresariado não estamos sendo imediatistas, estamos tendo a cautela de saber que temos de dar passo a passo.

CP: Como as escolas de samba se comportam em relação às mudanças?
Juarez Gutierrez: Hoje as mudanças afetam muito mais pela incerteza de quanto será a captação do que pela disposição dos presidentes de seguirem fazendo o que sempre fizeram. Tanto que nós temos escolas que estão bem adiantadas, escolas que poderiam desfilar daqui três ou quatro dias e as que tiveram a cautela de começar seu trabalho mais tardiamente até pela insegurança do que se atingiria. Hoje, na média, temos a cada grupo, um meio pelotão em plenas condições de desfilar amanhã e outra metade no compasso das respostas. A grande verdade é que os artistas estão todos muitos bem preparados. Seja aqueles que cumpriram o seu cronograma na íntegra quanto aqueles que foram mais céticos e resolveram fazer com mais cautela e terão que correr mais neste final.

CP: As pessoas conseguirão aproveitar o Carnaval da mesma forma que nos outros anos?
Juarez Gutierrez: Creio que sim, até porque temos uma coisa importante: os R$ 7 milhões nunca foram repassados às escolas. Deste valor que a prefeitura sempre investiu, apenas R$ 2 milhões iam para as 26 entidades. Esse é o auxílio em forma de cachê que a prefeitura dava como aporte financeiro para as entidades carnavalescas. Diante desse quadro, não é um número absurdo de nós buscarmos. E como a infraestrutura tem que ser montada de acordo com cada evento, os aportes que vamos buscar é pra modular muito mais o evento. O cotidiano das escolas vai continuar existindo da mesma forma, talvez ainda mais gradual e crescente, porque nós não deixaremos de fazer a cobrança do município pela parte da inclusão social, formação de mão de obra e geração de emprego e renda. Isso são obrigações de Estado que nós vamos separar da constituição evento. Vamos continuar buscando aporte dentro do município para projetos que são desenvolvidos, assim como oficinas, aperfeiçoamento e formação de mão de obra. Parcerias com a prefeitura, sim, mas não para o evento. Ficou claro que a nova gestão não vai colocar dinheiro no desfile. O desfile de Carnaval nós somos extremamente a favor de que seja 100% privado. Em 2006, eu já propunha isso. Pra mim não é novidade.

CP: Que dificuldades e oportunidades surgem a partir do investimento privado no Carnaval?
Juarez Gutierrez: Até o momento a única adversidade é a incerteza. O produto é totalmente vendável e vamos provar, ao longo do tempo, que ele se paga enquanto desfile de Carnaval. O que não podemos deixar de dizer é que isso também é um ato de construção. Estamos chegando a 30 dias do evento e ainda batendo em portas, tentando dizer que precisamos fazer um desfile em 30 dias e que o contrato que tenho que assinar com meu fornecedor já passou da data. E pra eu assinar esse contrato, tenho de ter a certeza de que o empresário vai apoiar o Carnaval e realizar o aporte para pagar o terceiro. A instabilidade está no momento. Depois, nem o meu publicitário, nem nós do Carnaval, temos qualquer dúvida da viabilidade econômica. A oportunidade que nos surge, por exemplo, é a desburocratização documental. Hoje, se eu procurar um fornecedor e ele me prestar um serviço, eu posso marcar com ele amanhã, sem ouvir ninguém, e acertar com ele. Quando a prefeitura estava junto, eu dependia de ouvir o fornecedor, acertar com ele e, dependendo do tipo de item, tinha de ser licitado. Então, é muito mais difícil fazer o modelo anterior. Volto a dizer: não são os R$ 2 milhões do cachê que nos apavora. Buscaremos os R$ 2 milhões e talvez até um pouco mais. Estaremos ingressando dia 3 de abril com a nossa Lei Rouanet para o carnaval de 2018, orçada neste momento em R$ 5,690 milhões. Estaremos ingressando para termos ela aprovada antes da virada da primeira metade do ano, porque todos os planejamento de todas as empresas que colocam aporte através de leis de incentivos se dão até a metade de cada ano.

CP: O que se espera do Carnaval de Porto Alegre frente aos outros carnavais do país?
Juarez Gutierrez: Na realidade a gente nunca se preocupou em nos compararmos com o Rio de Janeiro ou São Paulo, que são as duas maiores referências de Carnaval, mas com a peculiaridade e singularidade do nosso Carnaval. Eu diria que nós estamos, proporcionalmente aos investimentos, no mesmo nível destes carnavais. Então a questão é muito mais de aporte mesmo. Nós temos que crescer é em questão financeira. No momento em que crescermos financeiramente, os nossos carnavalescos terão a capacidade de realizar carnavais tão épicos e gloriosos quanto os que se veem em qualquer lugar.

Por Marco Aurélio Ruas