Lenine: "Só chega à homogeneidade quem soube ser heterogêneo"
Lenine entra em êxtase quando começa a falar de qualquer detalhe que faça parte de seu processo de criação e de todo o universo da música que ele permeia há mais de 30 anos. Na estrada divulgando seu novo disco, "Carbono", o pernambucano traz à tona um trabalho que explora as múltiplas sonoridades, como já lhe é característico, dialogando com o frevo, o sertanejo e até mesmo o funk. No bate-papo descontraído com o músico, ele divaga sobre sua nova obra e como ele se submete, por inteiro, à formatação de seus trabalhos.
Correio do Povo: Você estudou engenharia química e seu novo álbum se chama “Carbono”. O que você trouxe da química para a sua música, especificamente neste disco?
Lenine: Não só neste disco, mas em toda a minha discografia eu traço a procura do homogêneo, uma lei básica da química. Estou falando do trabalho de ousar intuir as reações antes delas acontecerem. E só chega à homogeneidade quem soube ser heterogêneo, por mais paradoxal que isso possa parecer. É uma lei verdadeira, que eu exercitei durante toda a minha trajetória.
CP: Você diz que é um colecionador de palavras, e que antes de fazer um disco você escolhe o título. É mais fácil criar uma unidade entre as canções a partir do título? Por quê?
Lenine: A questão não é facilidade, e também não é que seja mais difícil. É uma equação diferente, com mais incógnitas. Não penso na dificuldade, mas sim no desencadear de ideias a ponto de ter uma narrativa. As onze canções não poderiam estar ali de outra maneira que não fosse aquela, e cada canção é um capítulo de uma história que eu tô contando. Em metade delas, inclusive, eu utilizo a palavra “Carbono” na letra.
CP: “Carbono” foi gravado em apenas dois meses, e você declarou que o concebeu já pensando com como apresentar as canções no palco. Como foi a experiência?
Lenine: Esse eu resolvi fazer simultaneamente porque quando chegou no final do ano passado e resolvemos amputar a turnê de “Chão”, a estreia do meu novo show já estava marcada para o dia 30 de abril, ou seja, eu tinha três meses para estar com o disco finalizado e até o momento eu só tinha o nome “Carbono” na cabeça. Mas esse lance de compor pensando no palco já vem de antes. Já no “Chão” eu trabalhava com toda essa conotação, pelo estímulo ter sido fazer um disco sem bateria e percussão e usar o som do cotidiano como ferramenta sonora e rítmica, e explorar no palco o 5.1 surround. Por já ter experiência, eu resolvi trabalhar com a mesma equação em “Carbono”.
CP: No repertório do show você foca nas canções novas e deixa de lado alguns hits da sua carreira. Como o público reage?
Lenine: O disco tem 11 canções, o show tem 22. Ou seja, metade deste repertório eu pincelei dos meus trabalhos anteriores. Mas foi o sentido da adequação do ambiente sonoro de “Carbono” que me levou a escolher as canções antigas, e não a exposição delas. No meio do show eu explico isso, ficou de fora tal e tal... mas eu abro espaço para duas, aquelas que ganharem no grito.
CP: Na letra de “Castanho” você canta “o que eu sou, eu sou em par, não cheguei sozinho”. É uma canção de amor ou um agradecimento aos seus companheiros de trajetória?
Lenine: Nessa música tem uma coisa muito íntima que estou falando, e as pessoas pensam que estou falando do amor. Mas “Castanho” corrobora um caminho coletivo, mais geral no sentido não do par, do viver a dois. Tem a ver com o dividir o fazer, de se somar várias assinaturas. Eu acho que o meu trabalho no palco, a minha música no palco é muito isso, várias “autoralidades”.
CP: Na faixa “Quem leva a vida sou eu” você faz uma espécie contraponto com “Deixa a vida me levar”, do Zeca Pagodinho. Como surgiu a ideia pra compor essa música? Vocês já conversaram sobre ela?
Lenine: Ainda não falamos sobre ela. Eu já mandei um recado pra ele, mas ele está envolvido no lançamento do seu disco. Mas a gente vai se esbarrar... Na verdade ali eu faço uma brincadeira com a palavra, ao invés de deixar a vida me levar, eu deixo ela me louvar. A harmonia dessa canção caiu do céu, eu fiz em uma tarde. A melodia chegou tão de repente que eu digo que ela foi “psicofonada”. Se eu não pegar, o cara ali da esquina pega. Tive a sorte de estar ali e pegar [risos.
CP: Você é bastante eclético, já tendo trabalhado com artistas de diversos estilos musicais. Mas o que o Lenine gosta de escutar quando está em casa, relaxando?
Lenine: Em casa não escuto nada! Onde eu ouço é no carro, escuto de tudo. Talvez pela minha trajetória exista uma certa confiança das pessoas, então recebo muitos discos. De 15 em 15 dias eu separo 10 ou 12 e fico ouvindo eles. Até porque o ouvir não pode estar relacionado a outra coisa, eu tenho que ter atenção. E naquele momento eu consigo fazer isso, posso fazer mecanicamente a direção e estar ali, prestando a atenção nas músicas.
CP: Você costuma escutar os seus próprios discos?
Lenine: Depois de prontos jamais! Nem o “Carbono” eu pude ouvir, porque pra fazer o show eu tenho que abdicar, pra eu poder mergulhar em outra coisa a partir daquilo que já fiz. Isso quer dizer um exorcismo, uma entrega. Aquilo já nem é meu.

