Música contra a dor

Música contra a dor

Sidney de Jesus

O médico gaúcho Paulo Bala

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Ser médico emergencista no cenário atual da pandemia requer muito equilíbrio emocional. Para aliviar o estresse causado no dia a dia, o médico gaúcho Paulo Bala encontrou na música uma forma de atenuar a dor pela perda de pacientes e ‘viver o amor’. Médico há 30 anos, ele conta como produziu oito canções que serão lançadas ao longo deste ano e que traduzem um pouco o universo da medicina e de sua vida pessoal.

Como surgiu a ideia de compor músicas para aliviar a dor pelas perdas provocadas pela Covid-19?

As músicas foram compostas devido à fase muito ruim pela qual muitas pessoas estão passando nesta pandemia. Compus, por exemplo, a canção “O amor que fez a natureza crescer”, porque acredito que o amor salva todos nós em muitas situações. Compus também a música “Coisa de Louco”, porque a situação que estamos vivendo é completamente diferente de tudo o que já vivenciamos. É preciso muito amor para que consigamos suplantar as dificuldades. A música ajuda muito nessas situações.

De onde vem a sua musicalidade? A música é um hobby?

A minha musicalidade vem da infância, meus pais e tios cantavam todos os finais de semana na minha em casa. A música para mim não é um hobby, é uma expressão artística que veio para libertar. Ela tem a capacidade de trazer a melodia e na letra salvaguardar muitas vezes o pensamento da gente, ultrapassando as dificuldades e as situações que vivemos no dia a dia.

Suas canções traduzem o dia a dia da medicina e da sua vida pessoal. O senhor acredita que a música é uma boa técnica para diminuir o estresse e dar força para enfrentar a pressão de tentar salvar vidas durante a pandemia?

As minhas canções não traduzem só o dia a dia da medicina ou a minha vida pessoal, mas principalmente as situações que eu vivo com minha família e no trabalho. Tudo me fortalece e torna a vida cada vez melhor. A pressão vem de qualquer jeito. Não adianta viver só a dificuldade, temos que viver o amor. É lógico que o estresse na pandemia fica bem mais tranquilo de se administrar quando a gente tem uma veia artística. Alivia a dor dos pacientes.

Em que momento o senhor compôs as músicas? As inspirações surgiram durante o atendimento a pacientes da UPA, onde o senhor trabalha como médico emergencista, ou é decorrente da crise sanitária e humanitária em geral?

As músicas foram feitas em vários momentos, mas principalmente quando eu estava em casa. Também compus algumas em minha clínica, onde tenho um violão. Muitas delas foram inspiradas em situações vividas pelos pacientes. Na emergência, infelizmente, não é possível fazer canções devido à norma reguladora que proíbe algumas atividades.

O senhor acredita que suas músicas servem como refúgio, esperança e meditação sobre a situação atual?

Acredito sim. As diversas formas de arte estão presente em nossa vida e deixam nosso cotidiano mais leve. O que seria de nós durante o isolamento social se não fossem os filmes, os livros, a música?

Qual o propósito de suas canções? Ouvir música ajuda a controlar a ansiedade e ajuda na autoestima do paciente?

Uma canção tem o poder, através da vibração da sua melodia ou de sua letra, de nos trazer paz, relaxamento e esperança por dias melhores. Minhas canções têm esse propósito, de levar a alegria e boas mensagens para quem ouve.

Em quais músicos e ritmos o senhor se inspira, se identifica?

Os músicos e as pessoas que me levaram a cantar são vários, Beatles, Rolling Stones, Rush, Os Fagundes. Acho que temos que diversificar as nossas influências. Às vezes sinto que, em uma parte de uma canção, me inspirei em algum autor ou em alguma música que ouvi. O cara que talvez mais me influenciou talvez seja o Vitor Ramil, que é um artista pelo qual tenho admiração e respeito muito grandes.

Quantas canções já compôs e gravou? O senhor já cantou para algum paciente?

Atualmente eu tenho 156 músicas, algumas estão com letras, e outras não. Eu tenho como objetivo gravar todas elas. Tudo iniciou com o Tiago Telles, que é um técnico de enfermagem da UPA, que disse que as pessoas gostavam e que queriam que eu enviasse as músicas para elas pelo WhatsApp. Hoje em dia eu gravo as músicas em um estúdio com o produtor musical Tiago Suminsky, com o apoio e produção executiva de Paulo Fens. Também tenho uma assessoria de imprensa que está me levando mais longe. Já cantei para pacientes na minha clínica em momentos que precisavam relaxar.

Qual a sua avaliação e recomendação sobre o momento atual?

Minhas recomendações são as mesmas que nós temos na Secretaria de Saúde e as estabelecidas pelo governo. Não existe fórmula mágica, a gente se preservar é o melhor pra todos. Temos que continuar usando a máscara, seguir os protocolos de higiene e não se aglomerar. Caso seja contaminado, buscar atendimento médico. Cuidar da saúde física, além de manter a saúde mental da gente estável.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895