Mateo Piracés-Ugarte: "A Francisco, El Hombre é uma família de cinco pessoas que se propuseram a viver a música"

Mateo Piracés-Ugarte: "A Francisco, El Hombre é uma família de cinco pessoas que se propuseram a viver a música"

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_Francisco El Hombre 2 cred. Rodrigo Gianesi Foto: Rodrigo Gianesi / Divulgação / CP


Definir a banda Francisco, El Hombre não é uma tarefa fácil. O quinteto mexicano-brasileiro tem na sinergia de sons das América Latina a essência de suas músicas, que trazem a batida da cúmbia, da zumba, do folclore mexicano, da rumba e das marchinhas de carnaval. Talvez por isso eles prefiram dizer que têm um estilo próprio, o qual eles chamam de "transculturalismo transamericano ruidoso".  Formada pelos irmãos mexicanos Sebastián e Mateo Piracés-Ugarte em 2013, o grupo atualmente também é composto pelos brasileiros Juliana Strassacapa, Andrei Martinez Kozyreff e Rafael Gomes. Em 2016, eles lançaram seu primeiro disco, o agitado e politizado "SOLTASBRUXA", uma representação da juventude atual, que tem ido às ruas, que enfrenta preconceitos seculares, que luta e que vibra. Antes disso, já tinham  produzido dois EP"s: Nudez (2013)  La Pachanga! (2015).

Mostrando a mistura que faz de sua música uma experiência única, eles irão subir ao palco do Festival El Mapa de Todos, que ocorre no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, entre os dias 2 e 4 de maio. Os ingressos para a noite em que eles se apresentam, a primeira, já estão esgotados; para as outras data, ainda restam pouquíssimas entradas, as quais podem ser adquiridas pelo site ou na bilheteria do Theatro São Pedro. Com um português cheio de gírias e que escondem seu local de nascimento, o vocalista e violonista Mateo Piracés-Ugarte (na foto, à direita na fileira de cima) conversou com o Blog Diálogos do Correio do Povo. O jovem de 24 anos falou sobre a cena independente no Brasil, a relação entre cultura e música, suas viagens pela América Latina e fez projeções para o futuro da banda.

Correio do Povo: Mateo, tu e o teu irmão vieram para o Brasil 13 anos. Que mudanças tu percebes na cena musical independente de lá pra cá no país?
Mateo Piracés-Ugarte: Há 13 anos eu era muito pirralho pra conhecer a cena musical brasileira, fui conhecendo mais nos dez últimos anos pra cá. O que eu percebo é que é um movimento em que rola muita troca, cada vez mais esse conceito de música independente tem se inserido na malta. A gente vai se espelhando nas bandas que estão tocando por aí, como Scalene, Jaloo, a galera que toca em festivais como o Bananada. A gente tem trabalhado junto. A ideia de independente tem se desenvolvido muito ao ponto de que a galera saca que o ingrediente básico pra que essa cena aflore é a colaboração de todo mundo. Se uma banda cresce, todas as bandas crescem junto. Se um bar compra um PA novo, todas as bandas terão um PA novo pra tocar. E que se uma banda ganha mais destaque, as outas terão mais público pra chegar também.
Tem aumentado também os números de festivais pelo país. A gente roda o Brasil inteiro, e todos as bandas são muito irmãs, amigas, queridas, que querem do outro o melhor. Então quando alguém lança um videoclipe ou um disco incrível, como o Dingo, a reação não é de inveja, de ciúmes ou de competição. Pelo contrário, é algo tipo "nossa, essa banda conseguiu fazer algo tão foda, e eu tô na mesma estrada que ele, na mesma correria, então eu também consigo fazer algo que marca a minha época, a minha cultura". O que eu sinto realmente é que a gente tá andando e muito se deve a essa colaboração, ao coletivo, à parceria.


CP: Nos primeiros trabalhos do grupo, a gente percebia uma predominância do espanhol, mas no "SOLTASBRUXA", o português é o idioma principal. O que motivou essa mudança?
Mateo Piracés-Ugarte: A gente tá aqui no Brasil, querendo ou não. A gente roda a América Latina toda, mas o nosso público principal tá aqui. O "SOLTASBRUXA" foi um disco criado pra representar o que a gente pensa, pra comunicar o que a gente pensa. E não tem nada que faça mais sentido do que cantar na língua que a maioria das pessoas entendem. Claro que a gente ainda mantém o espanhol  porque pra gente é extremamente importante criar uma ponte entre os dois oceanos. Eu lembro que a gente estava numa sessão de criação numa vila de pescadores no meio de uma reserva indígena na Paraíba. A gente começou a tocar as nossas músicas e a galera amou. Quando acabaram as canções em português, a gente foi para aquelas em espanhol e eles continuaram amando, dançando animados, mas pediram pra voltar pro português porque queriam entender o que a gente cantava. Então isso é muito impactante.


CP: E fora do Brasil, como foi a aceitação?
Mateo Piracés-Ugarte: Foi demais! A gente começou a tocar as músicas do "SOLTASBRUXA" em Cuba, antes do disco ter sido lançado então a gente começou a perceber que o significado da música também se passa pela forma como se apresenta a música, pela vontade de estar cantando, pela batida, pela reação das pessoas. E galera saca isso, entende. Então quando a gente canta lá na Argentina que "O dólar vale mais que eu, eita, f***u", eles não entendem o que isso significa, mas percebem a ironia que tá rolando, porque a gente tá com um sorriso na cara. E isso contagia. Funciona super bem. Eu gosto de testar um show em um lugar em que não temos muito público, a galera não entende tanto a letra, porque você testa essa musicalidade, essa garra, o som que você coloca em seu instrumento.


CP: Falando um pouquinho nessa questão do idioma, o brasileiro, muitas vezes, passa a impressão de que não se enxerga latino por falar uma língua diferente da maioria dos países da América Latina. Tu sentes algum preconceito contra a música latina e os latinos por aqui?
Mateo Piracés-Ugarte: Existe um preconceito claro com a entrada de pessoas de outros países que vêm buscar um lugar com uma infraestrutura maior. A gente vê com haitianos, colombianos, bolivianos. Mas em relação à cultura eu não sinto isso. O que eu percebo é que são mais de 500 anos de colonialismo intenso, em que toda a cultura e povos daqui foram sempre obrigados a olhar para o norte. A tratar sua vida, sua mercadoria, suas vendas em relação a essa dependência da Inglaterra, dos Estados Unidos. Esses 500 anos de exploração não necessariamente representam a fomentação de um preconceito com as pessoas do lado, mas que vocês está sempre acostumado a depender do que vem de cima. O que a gente percebe claramente quando a gente mostra o ritmo da cúmbia, por exemplo, a galera ama, se relaciona, porque obviamente são culturas irmãs. Você chega no Pará e toca o reggaeton, a sintonia bate demais. Existem muitas batidas que são muito parecidas. Então nesse aspecto eu não sinto preconceito, mas anos de distanciamento cultural apesar da proximidade geográfica.


CP: Essa é justamente uma das ideias levantas por Galeano em “As veias abertas da América Latina”. Essa questão sobre a divisão do trabalho e da exploração de alguns países, no caso os latino-americanos. A música pode servir como ferramenta de empoderamento desses povos?
Mateo Piracés-Ugarte: A arte em geral é com certeza um instrumento de empoderamento, porque é uma expressão. Ela é uma representante da expressão popular. Por exemplo, não é porque a Carol Conka faz sucesso que essa fala social vem da boca dela. As pessoas já estavam sentindo isso e ela conseguiu simbolizar, dar cara a essa indignação. A música é com certeza algo poderosíssimo: de poder, de mudança, de levar as massas às ruas, de fazer as pessoas cantaram junto. Mas principalmente de fazer as pessoas verem que aquilo que elas sentem não é sentido só por elas. A gente toca algumas músicas que tratam sobre materialismo, as pessoas cantam junto e com certeza pensam: "essa ser aqui do lado eu nem conheço, mas ele pensa algo parecido a mim". E a reação em cadeia disso é enorme. A música é uma das melhores formas de contestação, mas não é nem deve ser a única. Ela tem a capacidade de criar um coletivo de diferenças por algo maior.


CP: Na essência do Francisco, El Hombre, há uma mistura de influências da música regional local com pop latino, buscando trazendo os holofotes. A América Latina, e o mundo vivem um momento conturbado...
Mateo Piracés-Ugarte: Pois é, a gente tá vivendo uma guinada conservadora pesada, em detrimento do que a gente tinha antes, um viés mais de esquerda, libertário, cada um de seu jeito. Não foi um modelo perfeito, ótimo, mas que pelo menos mostrou aos grandes impérios que eles não podem mais nos controlar. E você vê isso com a classe média crescendo, com novas organizações sociais, novas necessidades de políticas públicas. A resposta a isso foi esse crescimento do conservadorismo manipulado pela mídia e pelos grandes interesses econômicos. Ao mesmo tempo, você vê uma galera que durante esses últimos 10, 12 anos foi acostumada a ser mais oposição à esquerda. Essa galera está acostumada a falar o que pensa e está se levantando. A greve geral do dia 28 foi simbólica demais. Eu não sou nenhum sociólogo nem nada, mas o que eu sinto nos shows e no som das ruas é que as pessoas estão sedentas pra continuar esse caminho e avançar em quesitos sociais.


CP: Aqui no Brasil, temos o Bolsonaro, que muitos têm associado à letra de  "Bolso Nada". É um referência a ele?
Mateo Piracés-Ugarte: Cada um aplica essa música a uma pessoa. Se tem gente que aplica ao Bolsonaro, quem sou eu pra negar? (risos)


CP: Já dos Estados Unidos, o Trump falou em construir um muro na fronteira com o México e isso rodou o mundo, além da polêmica com o "bad hombres". Como mexicano, como tu percebes a eleição dele.
Mateo Piracés-Ugarte: Eu acho que são fases. O Trump ser eleito é algo passado; os problemas contra mexicanos por lá não começaram com ele. Trump ser eleito é uma parte da luta, um alerta pra reorganizar a resistência. Vai chegar algum momento em que as pessoas vão parar de olhar pra cima e começar a olhar pros lados. E às vezes esses momentos vêm na hora do desespero. Vai chegar um momento em que as pessoas vão gritar tão alto que algo vai explodir, como foi com a Primavera Árabe. Essa ideia de muro, esse autoritarismo, essa linguagem e arrogância vão cair. Vai ruir e vai ser humilhada. É só continuar lutando pra mostrar o que a história já nos ensinou.


CP: Vocês já rodaram a América Latina em turnê, conhecendo as peculiaridades de cada país da região. Qual a lembrança mais marcantes dessas viagens?
Mateo Piracés-Ugarte: O lugar que mais me marcou, sem ser Cuba, ou a gente teria que entrar na área da política, foi sem dúvida o Chile. Lá existe uma cultura de trova e de cantautor muito grande, e é impressionante que todas as vezes que fomos lá e tocamos com as bandas locais, todas elas são muito boas, têm muita qualidade. A gente ficava boquiaberto com algumas e pensava: ‘que banda maravilhosa’. É incrível, há uma musicalidade magnífica daquele lado da Cordilheira. Sempre que a gente vai pra lá a gente curte demais e volta apaixonado. E o público de lá tem se desenvolvido muito nos últimos anos.


CP: E da música latina, e de fora da região, quais são as influências do Francisco, El Hombre? Que outros artistas inspiram vocês?
Mateo Piracés-Ugarte: Cada um ouve uma coisa, vou ser bem sincero. A Francisco, El Hombre é uma família de cinco pessoas que se propuseram a viver a música. E cada uma dessas pessoas é muito diferente da outra, com gostos muitos variados. Cada um escuta uma coisa e está ligado em algum lugar. O resultado disso é o nosso som, que busca misturar várias coisas aleatoriamente. A gente escuta desde Regina Spektor até o CD novo do Conjunto de Música Jovem MERDA e passamos ouvindo de tudo. Pessoalmente, o que mais me inspira é que a gente viaja muito ouvindo os discos das bandas com que a gente toca em festivais. Porque são artistas que estão na mesma situação que a gente e fazem obras carregadas de comoção, de significado, de mensagens e de novidades. É maravilhoso, porque a única coisa que passa na minha cabeça é ‘nossa, eu também consigo fazer algo assim’. Isso motiva a mudar, a ser um artista melhor ainda e a fazer diferente. A própria cena me motiva a fazer música.


CP: No ano passado, vocês tocaram aqui em Porto Alegre. Que balanço tu fazes da apresentação?
Mateo Piracés-Ugarte: O público foi incrível, lotou o palco do Opinião, foi maravilhoso. A gente até achava que o palco ia cair porque a galera não parava de pular. E é doido, porque a gente já recebeu rumores de que o público vai querer invadir o palco do Theatro São Pedro. O que eu gosto do público aqui de Porto Alegre, como o do Sul em geral, é que a divisão com o palco é mínima, a gente fica cara a cara com as pessoas. Então tá todo mundo ali criando o show, o espetáculo, dá pra ver que tá todo mundo curtindo, não só a gente. A galera já saca isso, seja em Caxias, Canela, Lajeado, Santa Maria. O público do Sul é mais ou menos como se você fosse pular numa piscina de água fria: ou todo mundo pula ou ninguém vai. Mas quando todo mundo pula junto, acaba sendo pra gente uma experiência que muda a vida.


CP: Qual é a expectativa de vocês em tocar no El Mapa de Todos, um dos principais festivais dedicados à  promover a integração latino-americana por meio da música?
Mateo Piracés-Ugarte: Faz muito tempo que a gente tá de olho nesse festival, a gente é muito fã do trabalho do Fernando Rosa e faz tempo que a gente quer tocar no El Mapa de Todos, porque ele define a gente. É uma tentativa de trazer diferentes personalidades em um só palco, em um só coração. A gente conheceu o Fernando no ano passado, é uma pessoa maravilhosa, e já pensamos que ia rolar de tocar. Quando rolou o convite, a gente ficou felizaço.


CP: Depois do festival, o que a gente pode esperar do Francisco, El Hombre?
Mateo Piracés-Ugarte: Eu acho que tem sempre que ter renovação, tentar fazer algo que não se espera. Então eu quero surpreender pessoas.


* Por Eric Raupp