Diálogos

Mayra Aguiar: “Estou mais madura e disciplinada”

Em sua terceira Olimpíada, Mayra Aguiar tentará o ouro | Foto: Fernanda Davoglio / Sogipa Em sua terceira Olimpíada, Mayra Aguiar tentará o ouro | Foto: Fernanda Davoglio / Sogipa


Mayra Aguiar recém completará 25 anos, na próxima quarta-feira, mas já tem um currículo de fazer inveja a qualquer veterana no judô. A gaúcha é a única brasileira a ser bicampeã do Grand Slam de Paris, um dos mais prestigiados da modalidade, e tem em sua casa, dentre as 27 medalhas conquistadas pela Seleção Brasileira, o ouro no Mundial. Porém falta uma em especial: o ouro olímpico. No Rio, ela fará a sua terceira participação nos Jogos. Se na primeira, em Pequim, era uma jovem promissora, na segunda, em Londres, chegou como favorita, mas foi tirada do caminho da final por sua principal rival, a norte-americana Kayla Harrison – um duelo que já ocorreu 16 vezes e cada um ganhou oito. Da Inglaterra veio o bronze e um gosto de quero mais. Pois bem, chegou a hora. E ela avisa: chegará ao Rio mais preparada do que há quatro anos. “Estou mais madura e disciplinada”, assegura.

Correio do Povo: Aos 25 anos, tu tens a oportunidade de disputar a terceira Olimpíada. Como tu chegas agora?
Mayra Aguiar: Um pouco mais madura. Todos estes anos de competições, torneios difíceis me deram este amadurecimento como atleta tanto dentro do tatame – taticamente e tecnicamente – quanto fora, também. Aquela rotina de atleta, que é essencial: descanso bom, alimentação boa. Tudo o que um atleta precisa fazer para chegar ao seus objetivos. Então chega uma Mayra mais madura para esta Olimpíada. Madura e disciplinada.

Correio do Povo: Qua a principal diferença de lutar em casa?
Mayra Aguiar: É minha terceira Olimpíada e está sendo completamente diferente. É bastante diferente estar vivendo todo o dia e todo o momento. Quando a gente está em casa, descansando, passa comercial de Olimpíada. Então a gente está vivendo intensamente isso. Acho que dá uma pressão maior, mas é uma alegria maior. Este momento vai passar, mas vai ficar marcado para a gente. O momento que o Brasil está vivendo de esporte, isso a gente nunca viu antes. Então tem que aproveitar mesmo, tem que viver cada segundo e chegar na hora, no nosso dia, dar o máximo.

Correio do Povo: Mas é diferente? Teus principais títulos foram conquistados fora do Brasil. Agora tem todo este contexto de esperança de medalha.
Mayra Aguiar: Já tive experiências aqui dentro de competições grandes com torcidas grandes. Minha primeira competição assim foi em 2007, os Jogos Pan-Americanos no Rio. Tive mais uma competição, o Grand Slam, quando ganhei de duas campeãs mundiais, e também lutei o Mundial, que fiquei em terceiro lugar. Então, tenho bastante experiência de lutar em casa. Gosto muito desta torcida, de escutar aquela energia. Acho que me sinto bem. No momento em que está perdendo consegue dar uma força maior, no que está ganhando consegue segurar um luta. Acho que vai ser bastante bom.

Correio do Povo: Ter uma rival principal não chega a atrapalhar, pois tem mais adversárias pela frente?
Mayra Aguiar: Eu tenho várias adversárias fortíssimas. Claro que a americana, como o pessoal fala muito, eu tento não pensar, mas me empurram goela abaixo, mas é uma coisa que tem que pensar também. É uma adversária forte. Mas como todas as outras, eu estudo. Peço para que o pessoal que está treinando comigo simular a adversária. Então, tem bastante atleta forte e acho que são mais ou menos quatro ou cinco lutas que tem que estar focada como se fosse uma final.

Correio do Povo: Tu dizes que não gosta nem de falar na americana. Mas, fora do tatame, tu segues ela em alguma rede social?
Mayra Aguiar: Não, seria demais. (risos) Ficar vendo as adversárias seria ruim. Procuro fazer isso (usar redes sociais) para descontrair mesmo.

Correio do Povo: Existe um certo clima de resistência aos Jogos Olímpicos, semelhante ao que ocorria antes da Copa. Tu achas que este clima irá continuar ou irá virar uma festa grande?
Mayra Aguiar: É uma Olimpíada no Brasil, vai demorar muito tempo para que possa ocorrer uma coisa assim de novo, então temos que tirar os frutos, as coisas boas daqui, porque vai ter muita coisa boa. Independente de resultado, o legado que vai ficar para o Brasil será muito bom. O esporte salva vidas, tira muita criança da rua, bota num caminho bom, mostra disciplina e superação. É inspiração para muita gente. Diversos tipos que trabalham nem um pouco voltados ao esporte, mas que se inspiram também. A gente tem que usar como uma coisa boa. Ao menos o que eu estou vendo, as pessoas estão vendo isso.

Correio do Povo: O judô é o esporte que mais conquistou medalhas olímpicas para o Brasil. Só que, às vezes, não se reconhece tanto as atuações e focam apenas no pódio. Isso atrapalha ou ajuda?
Mayra Aguiar: É uma pressão com certeza maior. O resultado sempre vai vir acompanhado de uma pressão. Mas o bom de ter tantos atletas bons neste time é porque a gente consegue dividir esta pressão e não fica apenas em cima de um atleta só, como era antes. Então agora está muito mais tranquilo poder passar por esta caminhada.

Correio do Povo: Tu chegaste a Londres-2012 com 100% de aproveitamento naquele ano, diferentemente de agora. O que tu erraste em Londres que precisa ser consertado para o Rio?
Mayra Aguiar: Cada competição é diferente da outra. Não existe favoritismo numa Olimpíada, num Mundial, numa competição grande. Não é aquele atleta, o melhor, que vai ganhar. É aquele que está melhor no dia, que está num momento bom naquele segundo, naquele momento que está vivendo a competição. O que a gente pode fazer, a gente está fazendo, que é chegar lá bem.

Correio do Povo: Tu pulaste de para-quedas esses dias. Isso foi uma forma de aliviar a pressão ou dosar a adrenalina?
Mayra Aguiar: Sim. Acho que tudo. Foi uma coisa que eu estava querendo fazer havia muito tempo. Acho que em superação de medo ajudou bastante. O que é uma Olimpíada para quem já pulou de para-quedas (risos)? Brincadeira. Foi um momento único, em que tu não pensa em nada.

Por Tiago Medina