Diálogos

Oscar Rocha: "Medellín viveu uma das crises mais profundas da humanidade"

Fabiano do Amaral


Há 30 anos, Medellín era território de medo e morte. Hoje a cidade colombiana é laboratório de paz. Seu mórbido  índice de 360 homicídios por 100 mil habitantes foi reduzido para menos de 40. Como foi possível a uma província,  classificada nos anos de 1980 e 1990, como a mais violenta do mundo, ser hoje uma área livre de gangues, livre do mando do narcotráfico e que praticamente eliminou sua degradação social e econômica? Essas questões foram  respondidas pelo antropólogo Oscar Santiago Uribe Rocha em entrevista ao jornal Correio do Povo. Destaca-se na conversa articulada de Uribe Rocha, formado pela Universidad de Antioquia e que dirige Oficina de Resiliência em Medellín, a capacidade de reação de uma comunidade determinada a não aceitar mais o destino pontuado pelo fatalismo. A transformação veio com a guerra à corrupção e a força da educação, da cultura, da busca da melhor qualidade de vida e a integração das comunidades até então abandonadas à sua própria sorte.

Correio do Povo: Como era Medellín sob o domínio dos barões e cartéis da cocaína?
Oscar: No final das décadas de 80 e nos anos 1990, Medellín viveu talvez uma das crises mais profundas da humanidade. Fomos uma das cidades mais perigosas do mundo. Era a estatística de 360 assassinatos por 100 mil habitantes. Por trás dessa violência havia a manifestação de um problema talvez maior: as crises econômica profunda, institucional, política e das instituições do Estado. Não havia confiança dos cidadãos nos políticos e na classe política.

CP: Como o cenário começou a mudar?
Oscar: Somos hoje uma das cidades com a mais importante transformação social e urbana. Isso foi possível porque se estabeleceu um diálogo social, no plano da província. Houve apoio, no início, do presidente César Gaviria, em 1990. Mas as ações mais fortes e decisivas foram locais, da cidade. Concluímos que a única maneira de sair da crise era estabelecer diálogo com toda a cidade. Foram convocados líderes políticos, econômicos e da cidadania. Uma estratégia inovadora adotada à época se chamava “mesas alternativas de futuro”. Foram visitados bairro por bairro, rua por rua para entender do que reclamavam as pessoas. Todos clamavam por vida digna, qualidade, direito a melhores escolas, centros culturais, estradas, centros esportivos, hospitais, transporte, integração, ciclovias que ligassem bairros da cidade.

CP: O que foi feito?
Oscar: Então, a cidade deveria investir onde até então não havia investido. Por outro lado, a corrupção foi combatida, porque era também desejo popular. A Empresas Públicas de Medellín, que fornece serviços de água, energia, gás e esgotos, controlada pelo município, atuou forte nessa ação transformadora, para atender às pessoas. Hoje 95% da população da cidade tem saneamento e quase 100% dispõe de água potável. Há um belo serviço de transporte por teleférico em morros e a população é servida por metrô.

CP: Isso bastou para fazer as ações do narcotráfico e a criminalidade recuarem?
Oscar: Creio que esse foi o fator mais importante, definitivamente, nessa transformação. Se pensava que enfrentar a força exigiria força e enfrentar a guerra exigira uma outra guerra. Se fôssemos implementar solução armada, certamente até hoje estaríamos na guerra. O oposto dessa estratégia nos permitiu sair desse círculo vicioso. Melhoramos a autoestima das pessoas, as oportunidades. O que foi feito para a população não era de muita qualidade: os prédios das escolas, dos postos de saúde, de tudo, ninguém pensava em vandalizar aquele patrimônio, ao contrário, nada era de terceira linha. É preciso reconhecer que, por outra parte, foram também implementadas ações de transparência total para nocautear a corrupção e projetos de segurança pública objetivos. Mas esse não foi o maior investimento.

CP: Qual foi?
Oscar: O investimento maior foi na educação, na saúde, na cultura, no desenvolvimento social, principalmente nas comunidades que não tinham oportunidades e se sentiam excluídas. Elas foram integradas, incluídas, e tiveram o direito de exercer seu protagonismo e sua cidadania de maneira digna, altiva. Há ainda hoje manifestações de violência que persistem, porque não alcançamos os objetivos de maneira completa, holística. Continuamos tendo iniquidades. Mas agimos. Qualquer demora em implantar soluções de integração acabam sendo mais custosas. O que podemos hoje resolver com um real, um peso ou um dólar, ficar para amanhã pode custar cinco vezes mais pelo fato de todos os problemas estarem interconectados e fazerem com que a variabilidade dos fenômenos amplifiquem a tragédia. Um peso que não se investe na educação é um peso que vai se perder depois em saúde, lazer, em conectividade, em cultura e em desenvolvimento econômico. O mesmo vale para cada peso não investido em saúde, gera os mesmos efeitos.

É preponderante, para as mudanças darem resultado, que líderes políticos, econômicos e a sociedade não finjam, não neguem sua realidade, que a entendam em toda a sua gravidade e tomem decisões. Tem que haver investimento real naquilo que as pessoas querem, de forma sistemática. Onde não há escolas, onde não há unidades de saúde, onde não há centros culturais nem ruas e avenidas, elas têm que ser feitas, e tem que ser muito boas, com o melhores materiais, equipamentos e atendimento. Se não for assim, a mudança não acontece, se não for assim, as pessoas não têm sentimento de pertencimento à sua cidade e bairro.

CP: O senhor acha possível fazer mudanças deste vulto em Porto Alegre? Os entes públicos – município, estado e União – estão sem recursos e há forte crise na economia?
Oscar: Esse é o mesmo cenário que vivemos em Medellín há 30 anos: crise econômica, desemprego e descrença no Estado e na política. Se Medellín saiu desse poço, por que Porto Alegre não pode resolver seus problemas de violência, criminalidade e desenvolvimento? A resposta traz uma mensagem implícita. É preciso pensar soluções de forma distinta, soluções que não estão escritas em manuais, só assim saímos da crise. Otimismo e esperança não podem ser abandonados nem o atrevimento de buscar soluções nunca antes pensadas e não adotadas em outras cidades. Se for o caso, deve-se incluir modelos bem-sucedidos de outras cidades, aplicáveis ao município. A transformação de Medellín não foi uma auto-invenção da cidade.

CP: Quais casos de sucesso foram copiados?
Oscar: Tomamos exemplos de outros lugares, como o Orçamento Participativo de Porto Alegre. Executamos de verdade as prioridades da população. Como, se estávamos em crise? Bem, primeiro saneamos as finanças, eliminamos a corrupção da coisa pública. Depois fizemos os investimentos em lugares que nunca antes haviam recebido qualquer obra do poder público.
CP: Medellín se resolveu então, é uma cidade resiliente?
Oscar: Tempos problemas para resolver. As ações são constantes para melhorar a qualidade da educação, da saúde e geração de oportunidades econômicas. Estamos muito longe de alcançarmos o ideal, mas avançamos muito neste sentido. As soluções sempre são apenas o começo. Antes 80% vivia em pobreza. Esse porcentual caiu muito hoje, mas ainda é alto. Não somos a cidade mais violenta, mas ainda temos homicídios. A violência é uma tragédia. Queremos chegar a um momento em que possamos dizer que não tivemos nenhum homicídio nos últimos 500 dias, como outras cidades do mundo. Por isso, continuamos nesse caminho, investindo nas pessoas.

CP: Os bilhões de dólares aplicados na Colômbia, nos anos 1990, pelo governo dos EUA, que buscava acabar com os cartéis da cocaína, com apoio militar, segurança e ações sociais, não foram fundamentais para o êxito de cidades como Medellín?
Oscar: Creio que o apoio foi importante, mas o mais fundamental foi a transformação vinda de dentro da cidade, da população, das suas classes economicamente mais altas e baixas, de todas as instituições. O apoio foi apenas um empurrão, não foi para toda a vida. Não somos uma cidade rica, mas temos um bom balanço econômico, pelas nossas decisões internas.
CP: Houve em Medellín uma espécie de pacto da sociedade para mudar sua realidade?
Oscar: Sim, Medellín mantém sua linha de priorizar e investir em ações para reduzir os males da cidade. A educação como um todo foi valorizada, dos professores à comunidade escolar em setores antes marginalizados. Fortalecemos a construção de uma cultura de paz, as instituições se envolveram nessa mudança, a ação foi institucional. A vida é valor supremo. Mas investimos em gestão da informação e do governo. Houve uma revisão sistemática.

CP: Sua cidade foi selecionada em 2009 pela Fundação Rockefeller como integrante da rede de 100 cidades resilientes. Porto Alegre também devido ao Orçamento Participativo. O que se espera dessa Fundação?
Oscar: Os recursos de apoio da Fundação Rockefeller seguem na mesma linha que priorizamos e desenvolvemos: ações e estratégias para melhorar a vida a partir da educação aos setores desassistidos. Não é dinheiro expressivo, o seu destino é no apoio à gestão das políticas já implementadas, intercâmbio e troca de conhecimentos e experiências, e acesso aos especialistas no tema resiliência para aprimorar o que já se faz. Mas isso é muito importante para nós.

CP: A Assembleia Legislativa gaúcha, que já fez 12 audiências, pode transformar a resiliência em política pública no Rio Grande do Sul?
Oscar: É uma grande oportunidade. O que as crianças, os habitantes esperam de uma cidade é que as suas políticas públicas se transformem em ações concretas. Do contrário vem a decepção, a violência, pois os recursos são gerados pelos cidadãos e eles os querem de volta para sua vida e de seus filhos. No governo passado do departamento de Antioquia, onde Medellín é a capital, foram construídos 80 centros educativos em 80 municípios, em áreas onde ainda não havia colégios. Foram os melhores já erguidos nas províncias. Isso é uma política pública transformadora de realidades.