Rodrigo Pederneiras: "Cada vez mais a aceitação do diferente está morrendo"
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Rodrigo Pederneiras: "Cada vez mais a aceitação do diferente está morrendo"

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Foto: José Luiz Pederneiras / Divulgação / CP


O novo espetáculo do mineiro e universal Grupo Corpo trabalha com uma das religiões vindas da África, mas que ganhou o seu jeito brasileiro, a umbanda, que é patrimônio imaterial do Rio Janeiro desde novembro passado. A fonte de inspiração da estética cênica de "Gira", a mais nova criação do Corpo fruto da parceria inédita com a banda paulistana Metá Metá, que assina a música original do espetáculo, chega a Porto Alegre neste sábado e domingo, respectivamente às 21h e 19h, no Teatro do Sesi (Assis Brasil, 8787), com ingressos entre R$ 70 e R$ 100, à venda nas Lojas Multisom da Rua das Andradas, 1001, Centro; Bourbon Ipiranga, Praia de Belas Shopping, Iguatemi e Barra Shopping Sul e pelo siteCom coreografia de Rodrigo Pederneiras, cenografia de Paulo Pederneiras, iluminação de Paulo e Gabriel Pederneiras e figurinos de Freusa Zechmeister, o novo espetáculo do Corpo se apresenta em programa duplo com "Bach", de 1996, obra marcada por intensa carga de religiosidade, do barroco alemão ao mineiro e que tem como ponto de partida uma criação livre de Marco Antônio Guimarães sobre a música do alemão Johann Sebastian Bach e há dez anos não é encenada no Brasil. "Bach" abre a noite com duração de 45 minutos, seguido de "Gira", com tempo similar, após intervalo. "Gira" tem trilha do Metá Metá ("três ao mesmo tempo", em iorubá) trio conhecido pela aproximação da cultura afro-brasileira e seus cultos religiiosos e formado por Juçara Marçal (voz), Thiago França (sax) e Kiko Dinucci (guitarra), que pretendia dedicar o seu terceiro disco ao mais humano dos orixás: Exu. Mas acabou por não fazê-lo e ofereceu ao Corpo um pretexto para consumar este anseio.  Em entrevista ao Diálogos, do Correio do Povo, o diretor do grupo e coreógrafo dos dois espetáculos, Rodrigo Pederneiras fala de "Gira" e "Bach", do divino e do caos, da trajetória de mais de 40 anos do Corpo, entre outros assuntos.

Correio do Povo: Como foi a concepção e o preparo deste espetáculo "Gira"?
Rodrigo Pederneiras: A princípio foi uma temeridade. A ideia me chegou pronta em um assunto sobre o qual eu era completamente ignorante. Tive que correr muito, achar os caminhos. Minha mulher frequentava terreiros de umbanda e tinha uma vasta literatura a respeito. Comecei a frequentar terreiro. A Yasmin Almeida, uma de nossas bailarinas, me levou. Preferi o de umbanda, que é mais brasileiro, e comecei a ir diariamente e aprendi muito sobre o Exu, a entidade mais próxima do humano e que as entidades são a natureza, as matas, a água, o ar.

CP:  Na sua pesquisa, você podia partir tanto do divino quanto do caos?
Rodrigo Pederneiras: A dança tem muito a ver com tudo isto, com esta conexão do divino com o humano, com esta entidade do movimento, com o caos, com o movimento da terra. E estas características foram entrando na concepção coreográfica. Nós procuramos fugir dos movimentos das danças afro, fui buscar os elementos da umbanda que pudessem ser representados pela dança contemporânea.

CP: E como foi este contato com a Metá Metá, que deu a ideia musical para este espetáculo?
Rodrigo Pederneiras: Eu mal conhecia o grupo. Tinha ouvido um disco. O contato foi por meio do Kiko Dinucci, que estava na produção do disco da Elza Soares, "A Mulher do Fim do Mundo". O Paulo Pederneiras resolveu convidá-los e fui a São Paulo uma única vez para vê-los, ter contato com a trinca. Demos a liberdade para que eles fizessem o que queriam fazer. A trilha me foi apresentada em linhas prontas, caiu no colo, só adaptamos poucas coisas em tempos, ritmos, movimentos.

CP: O questionamento político sobre a crise que vive a cultura, institucional e financeira, é inevitável. Queria tua opinião a respeito?
Rodrigo Pederneiras: Engraçado é que fora todo o caos econômico, a gente, o pessoal da cultura, foi jogado de lado. Vivenciamos um retrocesso muito grande. O país começou a ser dividido em áreas. Cada vez mais a aceitação do que é diferente vai morrendo. Cada grupo quer levar o que é seu, independente do que possa causar para os outros. As leis e editais estão aí para provar isto. Artistas conhecidos e grandes produtoras ficam em alta e artistas que foram contra foram calados, jogado, tiveram perdas, dívidas, mutilados em sua capacidade de sobreviver, até de criar e mostrar seu trabalho. Acho que está começando uma luz no fim deste túnel. Há um ano estivemos muito pior do que estamos hoje, mesmo que tenhamos apoio da Petrobras. Nós passamos pela crise mais forte e conseguimos sobreviver com empréstimo de banco e tudo o mais. Nesta não aceitação do diferente, preto odeia branco que odeia preto e muitos odeiam a religião dos mais pobres.

CP: E sobre o espetáculo que integra o programa duplo, "Bach", de 1996, que não é encenado há 10 anos, poderia se dizer que é um complemento ou um contraponto da noite?
Rodrigo Pederneiras: "Bach" foi concebido há 21 anos. Foi uma homenagem ao compositor alemão pela música do Marco Antônio Guimarães. Poderíamos dizer que vamos do barroco alemão ao barroco mineiro. Não fazemos o espetáculo em homenagem a Bach, mas podemos dizer que ao Brasil, como o "Gira" também. Temos um lado coreográfico que tem elevação espiritual, de movimentos aéreos, temos muitos dourados e azuis. Ele pode ser considerado um contraponto à "Gira". Ele foi escolhido por estar há muito tempo fora do repertório que já soma 39 espetáculos em 42 anos. Creio que o programa será muito bem recebido pelos gaúchos, que entendem de dança e sempre lotam plateia para nos ver.

por Luiz Gonzaga Lopes