Diálogos

Rogério Zimmermann: “Brasil precisava voltar a ser um time de aeroporto”

"Brasil precisava resgatar essa mística da torcida e do clube" Foto: Jonathan Silva / Brasil de Pelotas/ Divulgação / CP


Depois de três temporadas, mais de 300 jogos, duas semifinais seguidas de Gauchão e dois títulos do interior, o técnico Rogério Zimmermann, 50 anos, está perto de levar o Brasil de Pelotas para a Série B do futebol brasileiro. Para atingir a meta, precisará superar outro clube com grande tradição e que tem uma torcida apaixonada, o Fortaleza, em dois jogos das quartas de final da Série C. O primeiro confronto ocorre neste sábado, às 16h, no Bento Freitas. 

Correio do Povo: Como começou a sua carreira de técnico?

Rogério Zimmermann: Tenho 30 anos de carreira. Comecei com 19 anos no time mirim do São José de Porto Alegre. Comecei a fazer faculdade e fui trabalhar no Zequinha, onde fiquei entre 1983 a 1989. Em 1990, fui para a base do Grêmio. Lá fiquei até 2000. Fiz 17 anos de categoria de base. Passei desde o infantil até o juniores no São José, a mesma coisa que aconteceu no Grêmio. Profissionalmente, iniciei a carreira no Esporte Clube União Suzano, onde fiquei entre os anos de 2002 e 2003.

CP: Como é a sua relação com o Brasil?

Rogério Zimmermann: Fui contratado pelo Brasil em 2004. O clube também estava na segunda divisão (gaúcha) e conseguimos subir. Disputei a primeira divisão em 2005, mas no ano seguinte fui para a Ulbra. Em maio de 2012, voltei para o Brasil e continuo desde então. É bastante tempo, principalmente, para um clube do interior. Na série C, completei 300 jogos. Peguei o Brasil na segundona do Gauchão, mas não subimos. No entanto, em 2013 voltamos para a principal divisão do Estado. Fomos duas vezes campeões do interior, 2014 e 2015. Chegar nas semifinais do estadual nos fez jogar a Copa do Brasil contra o Flamengo e a série D, em 2014, quando subimos para a série C. Independente do resultado contra o Fortaleza, o clube terá uma temporada importante no próximo ano. Teremos a 1ª divisão gaúcha, a Copa do Brasil e a Série C ou a B.

CP: Qual a importância de estudar educação física para ser técnico?

Rogério Zimmermann: Fiz faculdade no IPA e me formei cedo. Tenho a teoria de ter feito uma faculdade e vários cursos e, ao mesmo tempo, tenho a prática de vestiário. Estou desde os 19 anos dando treino, palestra e escalando time. Imagine a quantidade de jogadores que passaram por mim. Jogar futebol e ser treinador são coisas completamente diferentes. Não estou dizendo que é melhor ou pior. Sinceramente, não entro na discussão. Se foi ex-jogador, teve uma vivência boa como atleta e conseguiu agregar o estudo, ótimo. É preciso saber também psicologia, pois tem que se relacionar com o jogador.

CP: Como foi sua experiência no Exterior?

Rogério Zimmermann: Em 2001, tinha terminado de trabalhar e tinham aqueles meses que o cara precisa reciclar. Peguei um avião e fui até o Real Madrid, que tinha sido eleito o clube do século. Fiquei um bom tempo, me identifiquei e eles me autorizaram a acompanhar o clube. Naquela época, os treinos eram mais acessíveis para as pessoas de fora. O treinador era o Vicente Del Bosco. Não tive contato com ele, mas observei e vi como era o trabalho das categorias de base. Dez anos depois, o time da moda era o Barcelona. Peguei um avião e fui para lá. Consegui autorização para assistir aos treinos, principalmente, da base. Já tinha uma dificuldade maior para ver os treinos, mas assisti aos jogos. Vi um Barcelona x Milan. Naquele momento, o Barcelona do Guardiola era o melhor time do planeta.

CP: Zimmermann é um técnico “esquentado”, como dizem alguns comentaristas?

Rogério Zimmermann: Quando você está no clube do interior, você se expõe um pouco mais. No jogo contra o Tombense (pela Série C), a bola não entrou e o bandeirinha, gaúcho, deu o gol. Se é contra o Palmeiras ou a dupla Gre-Nal, a discussão ocorre durante semanas. Então, às vezes, temos que reclamar. Por ser assim, e defender o nosso clube, é que estamos chegando também. Não pode fazer três anos de sucesso só no grito. Às vezes, chama mais atenção o gesto na beira do campo ou reclamação. As pessoas ficam muito na perfumaria e não se preocupam em ver como o time joga. Queria ver colocar o Guardiola para treinar no interior. Não estaríamos conversando sobre o Brasil se ele tivesse sido eliminado. E um erro de arbitragem pode interferir no resultado da partida. Você acha justo colocar um trabalho de anos fora por um erro? Não pode tirar o direito de reclamar de quem acha que foi prejudicado. Muda toda uma história. Sempre vou defender o clube que estou. 

CP: Qual o segredo do Brasil para ter tantos resultados positivos nos últimos anos, mesmo com as dificuldades?

Rogério Zimmermann: O fundamental é conhecer a cultura do clube para depois interagir. É um clube de grande apelo popular, de grande torcida ou não? Essa torcida gosta do que? Gosta de jogador que se entrega nos 90 minutos ou o que é melhor tecnicamente? Tem que saber o perfil. Precisamos trazer jogadores que pensem e tenham a mesma ideia de futebol do clube. A metodologia de treinamento vai depender das contratações. Não adianta querer um time intenso e aguerrido se o atleta não tem o perfil. Precisamos de jogadores que aguentem pressão por resultado. Quando você conquista um grande título, o trabalho para vencer não começou naquele ano, começou dois ou três anos atrás. Foi formatado com vitórias e derrotas. Mesma coisa da seleção da Alemanha. Perderam a Copa do Mundo em casa (em 2006), mas foram evoluindo, formatando base e venceram no Brasil.

CP: Quais as dificuldades de disputar uma competição como a Série C ?

Rogério Zimmermann: Jogar A ou a série C não tem dificuldades. Pelo contrário, tem visibilidade. O Brasil precisava voltar a jogar competições nacionais. Voltar a ser um time de aeroporto. Jogamos no Pacaembu contra a Portuguesa. Vamos atuar contra o Fortaleza no Castelão, com mais de 50 mil pessoas. A dificuldade é a qualidade dos adversários. E sempre é difícil para o clube do interior, por questões financeiras e uma série de coisas. O grande mérito do Brasil é enfrentar clubes grandes e ricos e conseguir manter o técnico e os jogadores. A maior dificuldade é ser organizado e manter a estrutura. E isso é superado em função da torcida do Brasil, que é diferente. Não existe nada igual. Não conseguiremos fazer isso se não fosse para a comunidade. Fomos jogar em qualquer parte e o torcedor nos acompanhou.

CP: E como é hoje essa relação da torcida como o clube?

Rogério Zimmermann: Toda vez que se fala do Brasil, a primeira coisa que lembram é da torcida. Tivemos que jogar muitas partidas fora do Bento Freitas. A maioria foi com capacidade reduzida. Passamos por muita dificuldade. O grande mérito do Brasil é a organização, o planejamento, a torcida e a camisa. Aquele jogo de 85 (contra o Bangu, pelo Brasileiro) mobilizou a torcida e isso me chamou a atenção. O Brasil precisava resgatar essa mística da torcida e do clube. Imagina essa nova geração: o pai conta, mas o pessoal de 10 anos até 20 anos não viu. Só escuta o pai falar. Hoje ele tá vendo o clube disputando competições nacionais. Passa três anos e ele passa a ter ídolos no clube. Tem que renovar o torcedor. Quando caminhamos pelas ruas, vejo uma nova geração de torcedor. Voltou o orgulho. Temos um clube que disputa boas competições. Ficávamos muito no passado, que nos dá o norte, mas há uma geração que precisava ter ídolos para seguir as tradições. 

CP: Como foi perder o artilheiro da Série C durante a competição?

Rogério Zimmermann: Perdemos o Alex Amado para o Ceará e o Leandrão para o Vasco, que era o ataque titular. A gente sente um pouco e o time teve uma sequência sem vitórias. Estávamos readaptando os jogadores. Contratamos o Cleverson, ex-Avaí, e Soares, ex-Grêmio. A gente monta uma equipe no início visando toda a temporada, mas é muito difícil manter o grupo até o fim e não precisar contratar. Saiu o Leandrão e entrou o Nena, que estava há três anos no clube. Temos o Gustavo Papa, que é um jogador experiente. Entramos na série C com três centroavantes com currículo. As saídas estavam dentro do planejamento.

CP: Quais são as dificuldades de enfrentar Fortaleza?

Rogério Zimmermann: O Brasil jogou no Maracanã e no Pacaembu em 2015. Falamos disso para termos uma ideia de onde estamos nos metendo. Nossa maior preocupação é a qualidade do Fortaleza, não estádio lotado ou transmissão de TV. Eles tiveram a melhor campanha da Série C. Essa é nossa maior dificuldade. Os números falam do Fortaleza: jogadores experientes, time de massa e com maior investimento. Não podemos temer o que estamos buscando. Grande jogos, contra times bons, são a nossa motivação. O Brasil está na bola, se metendo no meio deles.

 CP: O criticado Hebert Roberto Lopes será o árbitro. Alguma preocupação?

Rogério Zimmermann: Parece que foi uma solicitação do Fortaleza. Valoriza a disputa porque é sinônimo de uma boa arbitragem. Assim como vamos querer um árbitro deste nível no segundo jogo. Senão, cria um desequilíbrio técnico. Se no primeiro foi árbitro Fifa, no segundo tem que ser também. Valoriza mais a competição. Queremos os melhores árbitros e os melhores estádios. Na terça, a seleção joga no Castelão, e nós jogaremos no sábado.

Por Carmelito Bifano