Rubens Ewald Filho: "Cada filme merece uma avaliação e não tenho preconceito com nenhum gênero"
Conhecido por suas participações opinando sobre as principais premiações do cinema, Rubens Ewald Filho é um dos responsáveis pela seleção de filmes que serão exibidos no Festival de Cinema de Gramado 2016. Há cinco anos na curadoria, ao lado do jornalista Marcos Santuário e da realizadora Eva Piwowarski, o crítico definiu que neste ano, a premiação será mais leve devido às comédias escolhidas para integrarem o 44º ano do Festival. O santista comentou também um pouco da sua carreira como crítico e reforça que ainda é um apaixonado por cinema.
Correio do Povo: Quais são os seus critérios como crítico de cinema?
Rubens Ewald Filho: É complicado responder. Eu gosto de trabalhar com emoção. Eu gosto de trabalhar com o que eu sinto. Por isso eu me esforço muito para ser um espectador atento, em ser alguém que chora, que torce, que ri, que vaia, sabe? Ser uma pessoa ativa e não um blasé. Blasé é uma pessoa velha, mas quer dizer que vê aquilo como "ah mais um filme, mais uma coisa". O cinema para mim também é uma diversão, é uma experiência de vida. Eu aprendi muita coisa com o cinema, e por outro lado, eu tento alertar as pessoas, no sentido de "este filme é uma b****". Não pelo público não ter muita experiência, mas por falta de muita coisa, que as pessoas não percebem a má qualidade do filme. Mas há outros filmes que são divertidos ou engraçados, ou de ação espetacular. Cada um merece uma avaliação. Eu não tenho preconceito contra este tipo de filme.
CP: E você utiliza os mesmos métodos de crítico no momento em que seleciona os filmes, como curador, no Festival de Cinema de Gramado?
Rubens Ewald Filho: No festival, é diferente porque a gente tá trabalhando com um público especial em cima de um material que se tem. Então depende dos produtos que te dão e dos filmes que têm. Neste ano, por exemplo, tinham muitas comédias e por acaso, eram boas. Eu tento de alguma forma passar não o crítico, mas o ser humano. E num Festival, acontece a mesma coisa. Eu não posso deixar de ser eu. Existem alguns pequenos truques também, em coisas como ser sincero, ser honesto, e não enganar espectadores. Eu luto para não mentir. Eu tenho como regra ver todos os filmes e quando é muito ruim, eu "corro".
CP: Com uma carreira de mais 40 anos como jornalista e crítico de cinema, é possível conseguir separar o Rubens espectador-crítico-curador?
Rubens Ewald Filho: Sim, mas eu também sou humano. Ou seja, há momentos em que já dormi no cinema. Eu fico p*** da vida, mas tem horas que você está muito cansado. E eu fico mais p*** ainda, porque eu tenho que voltar pra assistir tudo de novo. Eu fico envergonhado porque é uma coisa horrorosa. Isso foi uma coisa que eu aprendi no Festival de Cannes, em que se começa assistir filme às 7h30min da manhã e vai dormir depois das 2h da manhã. Eu deixei de ir até por causa disso, porque me extenuava fisicamente demais. Mas eu não perdi a mania, eu ainda sou apaixonado por cinema.
CP: O que podemos esperar da seleção de filmes do Festival de Cinema de Gramado deste ano? E existe uma diferença na produção do evento desde que começou a participar como curador?
Rubens Ewald Filho: Vai ser um festival mais leve, devido à seleção de filmes de comédias, e embora a gente tenha o filme de Cannes ("Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, será o filme de abertura do Festival), os filmes inéditos que farão as suas estreias, o Festival por acaso será mais leve, pois a vida já está tão pesada, não é? A maior diferença nestes anos, no caso, é o respeito que a gente conseguiu pro Festival. Quando a gente chegou na curadoria, estava tudo numa baixa terrível em todos os sentidos. Nem a própria Prefeitura acreditava, nem o público e nem os diretores. Então pra você conseguir filmes era uma luta e agora, você tem que dizer "não" para alguns filmes, o que é muito confortável e é muito bom poder dizer isso.
CP: A equipe da curadoria procurar valorizar o trabalho de cineastas novos no mercado cinematográfico ou dão mais chances para quem já tem alguma experiência no ramo?
Rubens Ewald Filho: Na verdade, quando você tem cineastas que nem o Domingos de Oliveira, que está doente e que provavelmente é o seu último filme, eu sou um fã dele sempre. E temos uma oportunidade que talvez seja a sua despedida. E ele veio sempre aqui, sempre foi muito cultuado no Festival de Gramado. Aí eu acho bacana, não é porque ele tá velho e doente que a gente chuta. E é um filme criativo, e até um pouquinho estranho pra dizer a verdade.
Por Lou Cardoso

