Diálogos

Rui Costa: "Queremos atletas que tenham comprometimento com comunidade de Chapecó"

Rui Costa (à esquerda) trabalhará com Vágner Mancini na Chapecoense Diretor-executivo Rui Costa (à esquerda) trabalhará com Vágner Mancini na Chapecoense / Foto: Chapecoense / Flickr / Divulgação/ CP


Após deixar o Grêmio no primeiro semestre de 2016, o diretor-executivo Rui Costa se prepara para aquele que considera o "maior desafio da vida" ao trabalhar na Chapecoense. Em entrevista ao Correio do Povo, o novo dirigente do clube catarinense falou do processo de reconstrução da instituição e afirmou que a principal meta da diretoria é montar um grupo que tenha capacidade numérica para entrar em competição. Além disso, Rui revelou que a direção procura atletas que tenham comprometimento com a comunidade de Chapecó e ambição de vestir a camiseta da equipe. 

Estar na Chapecoense é o maior desafio da sua carreira como dirigente?

Eu te diria que é o maior desafio da minha vida, em termos pessoais e profissionais. Já vivi dramas familiares, já tive questões delicadas, mas acho que é o maior desafio da minha vida. Não é só montar uma equipe, é proporcionar, junto com os meus colegas de trabalho, o reencontro dessa comunidade com a sua alegria, com sua motivação. A comunidade ainda sente muito o que aconteceu, mas assim, como eu digo, por mais que este
episódio seja inesquecível e que as pessoas que nos deixaram também sejam, é preciso voltar à normalidade. É um ano de transição. Quando um time muda oito peças é complicado, imagina quando tem que começar do zero. Vai ser um ano bem difícil para nós, mas estamos trabalhando para poder fazer o melhor possível neste período de mudanças, para poder, quem sabe, em 2018, já colher alguma coisa.

Como vocês estão trabalhando este processo de reconstrução do clube, que ali adiante terá de entrar em campo em uma Libertadores?

É mais um desafio. Já seria assim se estivesse tudo normal. É um clube que tem um laço muito forte com a comunidade. Imagina estar na Libertadores e tendo que reconstruir todo o grupo. Estamos fazendo uma coisa de cada vez. Queremos um grupo próximo do ideal na pré-temporada, mesmo sabendo que vamos ter pouquíssimo atletas. É um risco que vamos correr. Há dificuldades de voos, as próprias rotinas são diferentes. Temos uma rotina de trabalho de quase 20 horas. A primeira meta é começar o campeonato com um time bem estruturado e que possa ter capacidade numérica de competição. Não sei se este time vai crescer e se entrosar. Depois, queremos manter um padrão de grandeza que o clube já conquistou. A Libertadores terá de ser trabalhada e nós não vamos fugir da realidade da Chapecoense. A capacidade de investimento só ocorrerá se for lastreada na política-econômica do clube. Evidente que com o torneio as receitas aumentam, outras coisas se consolidam e você tem outra capacidade orçamentária. A meta, porém, é entrar em campo, e já é maravilhosa. Falar em título ou conquista é absolutamente prematuro.

Qual será o objetivo da Chapecoense dentro das competições que irá disputar? Lutar na Libertadores e se manter na Série A?

O objetivo da Chapecoense é participar de forma digna e correta das competições. Vamos participar respeitando o torcedor e a camisa. Queremos jogadores que se recusem a perder, mas qualquer pessoa que tenha contato com a realidade sabe que uma série de fatores dificultam o trabalho. Não sabemos como a comunidade irá reagir diante do primeiro evento desportivo após a tragédia. É uma grande responsabilidade para qualquer atleta substituir heróis. Nada do que acontecerá aqui será normal e por isso fica difícil fazer projeções normais. Vamos trabalhar com o nosso planejamento, sabendo que vão ocorrer improvisações por conta desse fato extraordinário. A nossa primeira meta é montar um grupo o quanto antes. Depois disso, queremos que a equipe apresente a mais fiel tradução do jeito da Chapecoense jogar futebol, que é diferente, a forma como se comporta e como interage com a comunidade. É o clube que faz a conexão com os torcedores. É um sonho poder alcançar isso e é imprescindível dar apoio ao Vágner Mancini. São vários episódios que não são normais e tudo isso gera uma reação e nós vamos ter que lidar com isso a cada momento.

Algum clube da Série A entrou em contato com a Chape e se colocou à disposição para ajudar na negociação com jogadores ou até colaborando com dinheiro?

De fato alguns clubes nos procuraram para ajudar e se colocaram à disposição. É um processo paulatino. Muitos clubes nos procuraram para nos dar o apoio, não necessariamente com atletas ou com pagamento de salários, às vezes com conhecimento, mas claro, também cedendo jogadores, o que é fundamental para a reconstrução do clube. Se não tivermos isso, vai ficar bem difícil para nós.

Qual é o planejamento e o prazo para a montagem do grupo de jogadores?

Temos prazos por conta do calendário, mas não estamos nos dando prazos. Impossível dizer que no dia 4 de janeiro teremos todo o grupo fechado. Nós estamos planejando a nossa pré-temporada, mas não há definição em relação a isso. O prazo que nós temos está baseado no calendário.

A regra do número de empréstimos por clube deve atrapalhar a Chapecoense?

Nós levantamos essa questão por cautela. Há um entendimento majoritário, principalmente da CBF, de que esta regra só valeria a partir do começo do calendário nacional, depois do término dos estaduais. Dessa forma, nós poderíamos contratar quantos jogadores quiséssemos até o início desse calendário. De qualquer sorte, o nosso presidente e os nossos advogados estão encaminhando as melhores providências para que isso claro, de tal forma de que se nós tivermos que postularmos liberalidade para isso, poderemos fazê-lo. Se pudermos fazer isso, teremos a partir do começo do Brasileiro um grupo consolidado. Estamos adotando cautela sobre o assunto, que precisa ser definitivo.

Qual é o perfil de atletas que vocês procuram?

Os atletas que nos deixaram fizeram a Chapecoense mudar de turma no futebol brasileiro. Nós temos que respeitar o perfil daqueles atletas. O time que nos deixou é incomparável, mas em cima deles vamos tentar reconstruir um grupo que tenha comprometimento com a comunidade e que tenha ambição de vestir esta camiseta. É um grande desafio. Claro que por conta da presença na Libertadores, a Chapecoense pode atrair outro tipo
de atleta por conta de tudo que pode oferecer. É uma vitrine mundial e gera um outro tipo de observação no mercado. Talvez tenhamos um perfil diferente, mas a nossa ideia é a manutenção da filosofia do clube.

Alan Ruschel e Neto seguem em recuperação após o acidente. Vocês já sabem se poderão contar com eles?

Isso é uma questão institucional. O Alan já está aqui, mas com visitas muito fiscalizadas. Tivemos um representante do futebol visitando ele. Evitamos o contato, mas a partir do momento que ele tiver uma visitação mais tranquila, que não o coloque em risco, vamos tornar tudo mais oficial, sem a imprensa. Não se quer fazer qualquer tipo de demonstração pública. O que se quer é acolher um ser humano, que sempre será atleta do clube. O
Neto está em um processo que não tenho como falar porque não sou médico.

E aqueles atletas que ficaram em Chapecó e têm contrato por encerrar?

Só há um atleta que tem contrato conosco até 2017, que é o Martinuccio. O restante tem contrato encerrando no dia 31 de dezembro. Estamos fazendo um levantamento e isso tem que ser feito com o Mancini. Todo os atletas e colaboradores estão sendo avaliados com muito respeito. Vamos buscar no mercado opções específicas, até porque o futebol trabalha com muita especificidade.

Como você viu a conquista do Grêmio na Copa do Brasil, com parte do grupo que você ajudou a montar?

Eu vejo com muita satisfação, mas a minha vida é a Chapecoense. O Grêmio foi uma passagem importante da minha vida, me trouxe até aqui. Fico muito feliz pelas pessoas que contribuíram para este título e disse no começo de 2016 que este era o ano da conquista. Não porque tenho dons divinos, mas porque sabia o trabalho que estava sendo feito, sabia o que estava sendo construído. É um grupo de grande caráter, de homens, e acho que todos
que colocaram as medalhas no peito e os que não colocaram foram importantíssimos para o clube. Fico muito grato ao Grêmio. É um clube que vai marcar minha vida para sempre, mas agora só penso na Chapecoense.

Luiz Felipe Mello