Diálogos

Rui Vicente Oppermann: "Não compete a nós tomar uma posição"

Logo da Ufrgs utilizado no convite para o Ato em Defesa da Democracia e Legalidade Logo da Ufrgs utilizado no convite para o Ato em Defesa da Democracia e Legalidade. Foto: Reprodução


CP: E o evento de hoje?
Rui Vicente Oppermann: O evento desta quinta-feira sim é organizado pela universidade. O do salão de atos, não o da Esquina Democrática. É um evento acadêmico que tem como tema a democracia e o Estado de Direito. Pesquisadores e professores da Ufrgs vão palestrar e fazer uma análise da perspectiva histórica, econômica, política e sociológica. Nesse evento, temos o apoio de sindicatos e representações estudantis da Ufrgs. As conferências têm o intuito de criar uma oportunidade da universidade de se posicionar perante o problema nacional. Essa reflexão sobre o tema, ninguém melhor do que a universidade para fazer.

CP: E a universidade já tomou uma posição?
Rui Vicente Oppermann: Não e nem vamos tomar. Não compete a nós tomar uma posição. Compete a nós dar um espaço de reflexão para as pessoas tomarem. O que vai acontecer na Esquina Democrática não tem patrocínio nem organização da universidade. Nosso ato vai das 16h às 19h. O que vai acontecer depois, é um movimento nacional e não temos nada a ver com ele.

CP: E existe a possibilidade do grupo que defende o impeachment utilizar o espaço da universidade?
Rui Vicente Oppermann: Sem problema nenhum. O que tem que acontecer é que precisa ter uma representação interna que busque o apoio da universidade. A universidade não vai apoiar um partido político ou um movimento externo. Aí sim, estaríamos tomando uma posição. Estamos apoiando uma instância interna. Se eles têm uma decisão pró ou contra o impeachment, esse é outro problema. Essa questão é muito cara e importante para nós. O papel da universidade em um momento de crise como esse é dar a oportunidade de um diálogo, de uma reflexão. Não necessariamente o que vai ser colocado aqui é pró ou contra impeachment. O importante não é você sair repetindo as coisas, mas sim ter convicção sobre o que tu está defendendo. E isso é uma responsabilidade da universidade. O que aconteceu ontem (quarta) e o que acontece hoje (quinta) são movimentos totalmente distintos. Hoje (quinta) é um momento formador de opinião, seja lá qual for.

CP: A Ufrgs apoia o cancelamento de aulas em algumas faculdades por causa do evento no Salão de Atos e na Esquina Democrática?
Rui Vicente Oppermann: O professor tem autonomia para cancelar aulas. A universidade não tomou nenhuma posição nesse sentido. Muitas vezes, em situação de comoção nacional, a gente pede para as aulas serem canceladas, mas, nos últimos seis ou oito anos, não me lembro disso. A responsabilidade é do professor de fazer a recuperação dessas aulas. Existe uma autonomia do professor de fazer isso (cancelar aulas). Que eu saiba, nenhuma unidade acadêmica dispensou alunos de aula por conta disso. Mas professores podem sim fazê-lo. É um momento muito raro para a universidade de promover essa discussão acadêmica.

CP: É legítimo a universidade tomar partido perante a atual situação política do país?
Rui Vicente Oppermann: A universidade, como instituição, para que ela mantenha sua autoridade perante a comunidade, ela não pode tomar partido. Ela tem que ser uma farol que permita que as pessoas façam uma reflexão sobre as suas posições. Esse é o nosso grande desafio. O campo de debates ou de diálogo é a universidade. Qual outra instância no Brasil tem a capacidade de oferecer um campo onde se faça essa reflexão sem uma bandeira? Não tem.

Por Fernanda Pugliero